domingo, 5 de junho de 2022

TUDO COMEÇOU QUANDO SETEMBRO CHEGOU: MEMÓRIAS INESQUECÍVEIS DE UM EX-PASTOR (3)

 

FOTO 1 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: imposição de mãos pelos pastores presentes à cerimônia de consagração e posse no pastorado da Primeira Igreja Batista de Beberibe. A oração foi feita pelo pastor José Almeida Guimarães.



TUDO COMEÇOU QUANDO SETEMBRO CHEGOU:

MEMÓRIAS INESQUECÍVEIS DE UM EX-PASTOR (3)

 

enivaldo ufino

 

O mês de setembro de 1979 traria novidades, desafios e mais uma mudança radical em minha vida. Além do fato de que o próprio mês é muito significativo e simbólico para mim. Para entender melhor o que afirmo, voltemos um pouco mais ao passado. Cinéfilo que sou desde 1958, quando contava apenas 12 anos e cursava a segunda série primária em Arcoverde, PE, o filme que mais me impressionou em 1962, já aos 16 anos e aluno do Colégio Carlos Rios, foi a comédia romântica “Quando setembro vier” (Come september), estrelada pela italiana Gina Lollobrigida (04/07/1927) e pelo americano Rock Hudson (17/11/1925‒02/10/1985 [59]). O filme me marcou tanto, que vi sua projeção na tela larga do Cine Bandeirante nada menos que seis vezes, coisa que nunca fizera antes. O que mais me atraiu, entretanto, foi a beleza clássica e simétrica da atriz, na flor dos seus trinta e três anos, já que me tornara seu admirador justamente aos 12 anos de idade. A partir do lançamento do filme, o mês de setembro se tornou marcante em minha vida. Tão marcante que encontrei, em 1966, u’a moça monumental numa esquina sem igual [i], em Sertânia, PE, nascida no mês de setembro, com quem casei e constituí família: Joran (abril de 1975) e Raquel (setembro de 1981). E a marca do nono mês do ano se fixou ainda mais quando cheguei à Primeira Igreja Batista de Beberibe, em 1979, quer dizer, quando meu filho estava com apenas quatro anos e cinco meses, e minha filha nasceria dali a exatos dois anos, justamente no mês de setembro.

1. A carta que me deixou na corda bamba        

Cheguei à Primeira Igreja Batista de Beberibe no primeiro domingo de setembro de 1979, dia 02, como seminarista convidado, através de carta, e com vistas ao pastorado. Já estivera lá uma única vez, a convite do então pastor Ramos André, que também foi meu professor no Seminário Batista de Recife. Receberia minha graduação em teologia já em 30/11/1979, e em 1980 começaria o mestrado, ainda no mesmo Seminário. Meu projeto, ao sair de Campina Grande em março de 1975, era continuar os estudos até ao doutorado em teologia, que concluiria aos 40 anos de idade. Ainda comecei, mas não tive condições de ir além dos dois meses, por conta da demanda com igreja e banco.   

O convite que a igreja me dirigiu através de carta, para trabalhar como seminarista, numa “...experiência recíproca” e com vistas ao pastorado, quase me fez desistir por conta dessa pequena expressão. Aquilo me soou meio confuso e dúbio, mas era só impressão minha, pois a experiência de três meses foi muito positiva para os dois lados. Percebi, ainda como seminarista, os pontos de necessidade nos quais deveria fixar minha atenção e esforço. O primeiro seria fomentar liderança local em todas as áreas, desde a financeira até à área de música. Investir na formação de líderes, a fim de que a igreja não mais dependesse dos seminários, a não ser servindo como campo de treinamento para estudantes que de lá viessem. Primar pela reverência durante as celebrações, abrir canal de comunicação com o povo através de boletim semanal, dar início a uma classe de homilética para treinar pessoas para pregar diretamente do púlpito, e, até mesmo, substituir ao pastor em suas ausências, sem necessitar apelar a seminaristas e pastores. A tarefa era gigantesca, mas a disposição era ainda maior, como veremos no momento apropriado.

2. Convite tardio

E nesse meio tempo, quando já estava como seminarista da igreja, recebi convite tardio da Igreja Batista da Torre, também com vistas ao pastorado, quando já completara dois meses em Beberibe. Resolvi deixar a coisa andar, só para saber até onde chegaria. A igreja me dirigiu uma carta muito simpática, com data de 04/11/1979, justificando, inclusive, que os seis votos contrários ao convite foi só pelo fato de que essas pessoas queriam mais tempo para a decisão, com o que a igreja não concordou.

Dias depois a igreja me convida para pregar. Quando chego lá, recebo o boletim, mas não encontro nem o meu nome e nenhum registro com informações a meu respeito. Achei muito estranho que a igreja estivesse me convidando como seminarista, e não fizesse nenhuma menção a respeito no boletim. Nem sequer a própria pessoa responsável pela direção do culto sabia meu nome. Achei tudo muito esquisito, sobretudo quando se trata de alguém que está sendo convidado já com vistas ao pastorado. Minha resposta, em 03/12/1979, a cinco dias da consagração e posse em Beberibe, foi agradecendo e informando da impossibilidade de aceitar o convite. 

3. Seguindo ditames ritualísticos para exercer a função pastoral         

De fato, quem aspira ao pastorado, como era meu caso, precisa estar pronto para os desafios. Sendo assim, deveria me preparar devidamente para a tarefa que me aguardava: ser pastor de uma igreja batista. Depois de sete anos como membro atuante da Primeira Igreja Batista de Campina Grande, de 1968 a 1974, decidi seguir a carreira ministerial no exato dia em que completei 28 anos de idade. A igreja, a cidade, a juventude estadual e a própria Paraíba foram meu primeiro ambiente de treinamento, através de variados cargos que assumi, quer na igreja, quer no campo batista. E a busca pelo preparo teológico e intelectual propriamente dito começou ainda em 1974, quando decidi cursar o bacharelado no Seminário Batista de Recife. O processo foi demorado, pois só ingressaria no ano seguinte, apesar de ainda ter cogitado adiar para 1976, com a chegada do pastor José Britto Barros para liderar a Primeira Igreja. Teria de ser aceito como aluno do Seminário e, ao mesmo tempo, pedir transferência para uma agência do Banco do Nordeste em Recife. Fiz uma carta à Direção Geral do Banco, orientado pelo caro colega e chefe da Seção de Pessoal, João Pessoa de Araújo Pereira. Solicitei que fosse concedida transferência ex-officio, quer dizer, como se não tivesse solicitado, pois só assim teria direito à ajuda de custo para despesas com a mudança. A transferência seria “realizada por imperativo legal ou em razão de cargo ou da função” (Google). E, quase em cima da hora, recebi bilhete da querida colega René informando que a Direção Geral concedera a transferência conforme solicitada. Entretanto, apareceu uma cruzeta, como costumava dizer o mui amado amigo e colega, pastor José Loidimar Cavalcanti (13/09/1945‒30/12/2019 [74]). E que cruzeta foi essa? Foi o próprio gerente do banco, mas gerente substituto, pois o gerente titular jamais cairia numa derrocada dessas. Ora, se o Ato de Transferência era ex-officio, nada se poderia questionar a esse respeito. Mas ele decidiu impedir, uma vez que eu havia solicitado a transferência. Ora, isso foi dito na carta que fiz à Direção Geral, que mesmo tendo solicitado, gostaria que a transferência me fosse concedida ex-officio. E meu pedido foi atendido. Nenhum poder teria chances de revogar o que fora feito, como de fato ocorreu. Tive o privilégio, então, de receber a necessária ajuda de custo, valor imprescindível para minha locomoção até Recife, e, ainda, acompanhado de minha esposa, Cosma, com oito meses de gravidez, de minha mãe, Maria Laura Freire, e de minha sobrinha, Socorro Freire.  

Nesse ínterim, enquanto aguardava a resposta do banco, viajei a Recife para uma entrevista com o Reitor do Seminário, Dr. David Mein, o que ocorreu em 06/09/1974. Ele mesmo me recebeu em seu gabinete, deu as boas vindas, conversou bastante, repassou um Catálogo do Seminário para 1975, devidamente datado e assinado, e pediu para que nós dois orássemos no final. O Dr. David era de uma simplicidade franciscana. Além disso, era muito atencioso e educado. Jamais o vi passar por um aluno e não cumprimentar. Tive, ainda, o privilégio de fazer disciplinas com ele, e não só isso, como veremos mais adiante.      

É necessário seguir certos rituais para exercer a função de pastor. O curso de teologia é um deles. É recomendado, mas não obrigatório. Quer dizer, alguém pode chegar a ser pastor sem frequentar um seminário. Outro ritual é o da arguição a ser feita em data determinada pela igreja, conhecida como exame para o ministério. Pastores são convidados, através de carta, a formar um concílio, que escolherá o examinador e outros para preencher determinadas funções posteriores, caso o candidato seja aprovado. Tal escolha só ocorre no dia do exame. Quer dizer, até lá não se sabe quem irá ocupar, por exemplo, a função de examinador nas diversas áreas: teologia (sobre Deus), cristologia (sobre Cristo), pneumatologia (sobre o Espírito Santo), eclesiologia (sobre a igreja), administração eclesiástica, e assim por diante. Além do saber acumulado durante os cinco anos de curso e a experiência antes de chegar ao Seminário, o candidato precisa estudar bastante até o exato dia da decisão final. Mas, o que estudar? Todos os assuntos relativos a todas essas áreas específicas do saber teológico. Trata-se de um momento decisivo na vida de quem aspira ao ministério pastoral. Chega até a amedrontar, pois nem se sabe o que estudar. E o candidato pode ser examinado antes mesmo de concluir o curso, o que não foi o meu caso.

Já sob a orientação de seu seminarista e futuro pastor, a Primeira Igreja Batista de Beberibe toma todas as providências cabíveis para agilizar os passos a seguir. Entre as cartas emitidas, algumas são dirigidas aos pastores batistas, convidando-os ao encontro do exame, à futura consagração e posse no pastorado da igreja, caso o candidato seja aprovado. O Seminário cede uma de suas muitas salas, atendendo ao pedido da igreja, feito através de carta. E na data determinada, ocorre o concílio. São escolhidos os nomes para compor as diversas funções, tanto as do momento, quanto as do futuro próximo, com a consagração e posse do candidato. Para minha surpresa e alegria, o nome escolhido para examinador foi o do próprio Reitor do Seminário. Doutor em brevidade e pragmático que era, David Mein me arguiu apenas com questões práticas, deixando as profundidades teológicas de lado e tratando de assuntos e problemas do dia-a-dia da vida do pastor. Lembro-me de uma das perguntas feitas, ainda, e, ao rememorar esse momento tão significativo, chego até a escutar sua voz mansa, educada, simpática, iniciando com a expressão que lhe era característica: ‒ “O irmão é bancário e, como tal, precisa dedicar tempo ao trabalho secular. A igreja também requer muito tempo do pastor. O que pretende fazer diante de tal impasse?” E naquele ambiente agradável de descontração, fui aprovado no exame e direcionado ao próximo passo, que seria a consagração e posse no pastorado da igreja.  

4. Beleza da festa de consagração e posse apesar do inusitado impasse         

Os preparativos para a festa de consagração e posse estavam avançados. As próprias pessoas da igreja se encarregavam de cuidar dos principais detalhes, a fim de que tudo ocorresse dentro da normalidade e da exiguidade do tempo disponível para tal. O próprio culto teria seu tempo cronometrado, inclusive primando pelo início à hora prevista. Foram convidados para a ocasião, além dos pastores, o conjunto coral e o quarteto masculino da Igreja Batista da Capunga, onde eu trabalhara como seminarista durante mais de três anos. O coral da Primeira Igreja Batista de Beberibe também participaria da festa. Quer dizer, o evento estava muito bem servido não apenas em termos musicais, mas em todos os demais aspectos. E, seguindo com precisão o ritual requerido para tal momento, o pregador da ocasião seria o jovem pastor Amauri Munguba, proveniente de Brasília para fazer o curso no Seminário, e que foi meu colega durante os cinco anos do bacharelado. A Bíblia seria entregue pelo pastor Harald Schaly, professor de hebraico. A imposição de mãos e consagração ao ofício esteve a cargo de todos os pastores presentes, sendo que a oração de consagração seria feita pelo pastor José Almeida Guimarães, professor de filosofia.  O pastor e missionário Charles William Dickson, professor de homilética, desempenharia duas funções: representaria o Seminário e faria a oração de posse. Contamos, ainda, com uma ilustre presença: a de Jeremias Bento da Silva, proveniente da igreja que me indicara ao Seminário, Primeira Igreja Batista de Campina Grande. Repassou uma Bíblia de presente ao novo pastor. E tudo estava estritamente cronometrado para que desse tempo de realizar tanta coisa em tão pouco tempo.

A juventude da igreja estava em efervescência com a chegada do seu novo líder. O mesmo ocorria com as demais faixas etárias, desde as crianças até aos adultos. Ainda mais pelo fato de que o candidato ao pastorado já passara por três longos meses de “experiência recíproca”. Mas eis que entre os jovens havia um que queria presentear ao novo obreiro de maneira diferenciada, criativa e até marcante, mesmo que também fosse extremamente delicada e até inapropriada. Resolveu convidar uma cantora, que se apresentava em encontros de jovens e outros, para abrilhantar a festa de consagração e posse, como uma espécie de presente ao futuro pastor, mas um presente secreto. Havia três diáconos na igreja, e o diácono Francisco Dias, que era também tesoureiro, com toda sua rica experiência e sabedoria, aconselhou o jovem a falar com o homenageado, antes de convidar a cantora. Só que quando ele apareceu para falar comigo, já convidara a moça para cantar. Disse-lhe que a programação já estava pronta e que não comportaria mais acréscimos. Falei, ainda, que o melhor presente que poderia receber dele seria sua presença no culto. Soube, depois, que o rapaz reservara outro espaço, em outro local e no mesmo horário do culto, para a apresentação musical da cantora. Aquele foi o primeiro impasse no ministério pastoral, antes de assumir o ministério propriamente dito.

5. A convicta opção pela comunidade         

Impasses são muito comuns na experiência de um pastor. Alguns deles ocorreram quando fiz a convicta opção pela comunidade. Minha intenção era sair do apartamento que ocupava no Seminário, desde março de 1975, diretamente para um local no próprio bairro de Beberibe, a fim de ficar mais próximo do povo, o que só foi possível graças à cooperação de alguns membros da igreja que se empenharam em conseguir uma casa para alugar. Foi uma decisão sábia, tomada através da convicção de que faria melhor lá no bairro que longe de lá, sobretudo pelas responsabilidades com o banco e com o mestrado que se iniciaria em 1980. Seriam três responsabilidades de peso e que me tomariam bastante tempo. Portanto, nada melhor que fixar residência no próprio bairro. E assim foi feito. Na próxima publicação conheceremos todos os lances dramáticos da escolha de fixar residência em Beberibe.

 

 GALERIA DE FOTOS

FOTO 2 ‒ 1961: Gina Lollobrigida (Subiaco, Itália, 04/07/1927) em intervalo de filmagem da comédia romântica “Quando setembro vier” (Come september), que lhe valeu o Globo de Ouro como atriz preferida do mundo.
FOTO 3 ‒ 30/11/1979, Igreja Batista da Capunga, Recife, PE: recebendo o diploma de bacharel em teologia diretamente das mãos do Reitor, Dr. David Mein.
FOTO 4 ‒ Sem data, Biblioteca do Seminário, Recife, PE: Dr. David Mein na inauguração da nova Biblioteca. Como homem devotado à educação e ao ensino teológico, costumava dizer: “A Biblioteca são os pulmões do Seminário”.
FOTO 5 ‒ 1993, Beberibe, Recife, PE: o templo onde se reúne a Primeira Igreja Batista de Beberibe é, ao mesmo tempo, simples, sóbrio e imponente.
FOTO 6 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: o jovem pastor Amauri Munguba foi o pregador da mensagem oficial.
FOTO 7 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: o Coral da Igreja Batista da Capunga, onde servi como seminarista durante mais de três anos, marcou sua presença no momento, sendo regido pela Dra. Lourdes Nogueira.
FOTO 8 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: outro momento de participação do Coral da Igreja Batista da Capunga.
FOTO 9 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: oração pelo pastor e missionário Charles William Dickson.
FOTO 10 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: o pastor e professor Charles William Dickson também representou o Seminário Batista.
FOTO 11 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: a entrega da Bíblia esteve a cargo do pastor Harald Schaly, professor de hebraico.
FOTO 12 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: Jeremias Bento da Silva representou a Primeira Igreja Batista de Campina Grande, repassando a Bíblia oferecida pela igreja ao novo pastor.
FOTO 13 ‒ 08/12/1979, Beberibe, Recife, PE: o recém-consagrado e empossado pastor encerra as atividades festivas impetrando, pela primeira vez, a bênção apostólica.
FOTO 14 ‒ 1979, Monte dos Guararapes, Recife, PE: cheguei à Primeira Igreja Batista de Beberibe em minha Brasília branco gelo 1978. Aqui, ao lado do meu irmão Reginaldo Freire, que nos visitou naquele ano, e do meu filho Joran, fazendo turismo em um lugar histórico de Pernambuco.
FOTO 15 ‒ 14/02/1979, em frente ao prédio da Sudene, Recife, PE: detalhe da Brasília, quando fiz a primeira longa viagem, até Fortaleza, CE, a fim de visitar irmãs, irmãos e parentes de minha sogra, dona Isabel.
FOTO 16 ‒ 29/01/1981, Pesqueira, PE: da esq. p/dir.: Cosma Grande, Joran, Cosma e o dono da Brasília. Ao fundo, a monumental Serra do Ororubá e a chaminé da fábrica.
FOTO 17 ‒ 1979, Ringideira, Monteiro, PB: a Brasília toda empoeirada por conta das estradas de terra, em frente à casa de taipa do meu tio Jorge Rufino, a quem sempre visitávamos.

__________

GALERIA DE DOCUMENTOS

_________

FOTO 18 ‒ 07/10/1968, Campina Grande/PB: telegrama endereçado à minha mãe, Maria Laura Freire Santos, em Sertânia, PE, comunicando minha decisão pública, no dia anterior, para seguir o cristianismo batista: “Com imensa alegria e júbilo anuncio boas novas: sou crente”.
FOTO 19 ‒ 06/09/1974, Recife, PE: catálogo do Seminário para 1975, que me foi repassado pelo Dr. David Mein, após a entrevista.
FOTO 20 ‒ 06/09/1974, Recife, PE: contracapa do catálogo, onde anotei minhas impressões sobre o encontro com o Reitor do Seminário.
FOTO 21 ‒ 06/09/1974, Recife, PE: detalhe da assinatura do Dr. David Mein na primeira página do Catálogo do Seminário para 1975.
FOTO 22 ‒ 27/06/1979, Recife, PE: carta-convite da Primeira Igreja Batista de Beberibe para “experiência mútua” com vistas ao pastorado.
FOTO 23 ‒ 30/08/1979, Recife, PE: minha resposta ao convite da Primeira Igreja Batista de Beberibe para trabalhar como seminarista e com vistas ao pastorado.
FOTO 24 ‒ 31/10/1979, Recife, PE: carta-convite aos pastores batistas para o exame do candidato, que seria procedido às 15h00 do dia 15 de novembro daquele ano.
FOTO 25 ‒ 31/10/1979, Recife, PE: carta ao programa “A voz batista”, contendo convite para a cerimônia de exame do candidato.
FOTO 26 ‒ 31/10/1979, Recife, PE: carta solicitando sala ao Seminário, com vistas à realização do exame do candidato ao pastorado.
FOTO 27 ‒ 04/11/1979, Recife, PE: carta da Primeira Igreja Evangélica Batista da Torre, com convite para ser “o futuro pastor da igreja”.
FOTO 28 ‒ 11/1979, Recife, PE: convite “para a cerimônia de imposição de mãos e posse” no pastorado da Primeira Igreja Batista de Beberibe.
FOTO 29 ‒ 03/12/1979, Recife, PE: minha resposta ao convite formulado pela Igreja Batista da Torre, com vistas ao pastorado.
FOTO 30 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: programa de formatura do Seminário.
FOTO 31 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: programação da formatura.
FOTO 32 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: relação de docentes do Seminário Batista de Recife.
FOTO 33 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: relação dos bacharéis em teologia.
FOTO 34 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: bacharéis em música sacra.
FOTO 35 ‒ 30/11/1979, Recife, PE: bacharéis em três outras áreas.
FOTO 36 ‒ 09/03/1980, Recife, PE: carta de recomendação ao mestrado em teologia, que terminou sendo interrompido por conta da demanda que estava demasiada. Só retornei em 1993, quando já estava pedindo exoneração do pastorado para retomar os estudos.


[i] E para celebrar o primeiro dia de namoro com a “moça colossal” a quem vi pela primeira vez naquela “esquina sem igual”, elaborei o seguinte arremedo de poesia, de conteúdo romântico e título um tanto esquisito:


QUINTA, QUINZE, DOZE, MEIA, MEIA


Previsões benéficas se me aconteceram

Neste quinze, quinta, doze, meia, meia.

Foi o bom destino traçando sua teia,

Dando rumo certo à minha triste vida...

Ofertando a mim teu coração, querida!


Célere, porém, o tempo vai fugindo,

Não de mim, nem de ti, meu grande amor,

Mas de si próprio, talvez só por temor

De saber que nunca jamais conseguirá

Por um só momento de ti me separar.


A ambiguidade da vida pouco importa,

Porque, para nós, ela será sempre bela!

Será assim como uma maravilhosa tela

Onde, em elo uníssono, expressa o pintor

A perfeição divina de um grande amor.

 

 






domingo, 1 de maio de 2022

A RICA FILOSOFIA DE THALES

 

FOTO 1 ‒ 08/01/2007, São Paulo: Na época em que fazia o doutorado em filosofia medieval na USP ‒ de 2003 a 2010 ‒, ocupei-me em observar meus sobrinhos-netos e escrever sobre alguns aspectos e conceitos filosóficos presentes na infância. Foi uma excelente terapia, pois a aventura de tentar o doutorado já depois dos sessenta anos foi uma tarefa difícil e que exigiu muito de mim em termos de pesquisa e estudo. Thales nasceu em 13/12/2005, quando eu já estava há dois anos em São Paulo. Foram muitas as ideias filosóficas que ele me repassou na beleza e plenitude de sua pequena infância. Na foto acima, estávamos num momento de folga em um Shopping. Nas visitas que fazia à minha sobrinha Erimércia Freire, seu esposo Émerson Rolim Cuellas, e seus filhos Ítalo e Thales, eles sempre me davam uma atenção especial, como no momento dessa foto.

A RICA FILOSOFIA DE THALES [i]

enivaldo ufino

A referência poderia ser a Tales de Mileto (c. 624 a. C. ‒ c. 546 a. C. [78]), filósofo grego, mas não é. Tem tudo para ser, pois se trata daquele que é considerado fundador da filosofia Ocidental, por ter sido o primeiro a tentar dar uma explicação racional do mundo, com sua filosofia da natureza, que considerava a água como elemento fundador do universo. E, como se não bastasse todas essas ricas informações, esse filósofo e matemático grego era considerado o mais antigo dos chamados Sete Sábios da Grécia [ii]. Mesmo assim, não é a ele que me refiro, pois a rica filosofia à qual me reporto, aqui, é outra. Trata-se da rica filosofia do meu sobrinho‒neto Thales, na exuberância da primeira etapa de sua vida, a infância, a academia da sabedoria natural.

Pensando bem, Tales de Mileto é importante, sim, mesmo que isso seja contraditório ou paradoxal com o que foi dito acima. Já que todo o recheio deste artigo é de fundo agostiniano, serei fiel a Agostinho de Hipona (354‒430 [75]): defenderei os dois lados do paradoxo. Ou seja, no presente caso, Tales de Mileto é importante e, ao mesmo tempo, não é importante. Começo pela negativa: não é importante, porque o objeto central deste trabalho intelectual é, de fato, Thales, o garoto na exuberância de sua primeira infância. E concluo pelo positivo: Tales de Mileto é importante como fonte de inspiração e, ainda, porque é importante de verdade como um dos principais filósofos da Antiguidade. Além do mais, está visceralmente ligado à primeira riqueza filosófica a ser explorada neste artigo. Senão, vejamos:      

1. O filósofo da água e... da fumaça

Onde há água há fumaça? Não, não é bem assim. Onde há fumaça, há fogo. Agora sim, está certo e dentro dos padrões naturais e filosóficos. Mas o primeiro – ligeiramente modificado: onde há fumaça há água – está certo? Vamos admitir que sim, pois está tudo no bojo da filosofia natural. E onde se localiza o nosso Thales nisso tudo? Paradoxalmente – para continuar fiel a Agostinho –, tanto de um lado quanto do outro.

Na terça-feira 22 de julho de 2008, três dias depois da suntuosa festa do casamento de Ricardo com minha querida sobrinha Lyzandra, encontro-me na casa dos Freire/Cuellas em companhia da minha querida e “dolorida” família. Dolorida, pois todos sofríamos um pouco com as dores nos pés de Cosma, minha esposa, por problemas de circulação e também por outras questões, como o percurso de avião no voo Recife/São Paulo, por exemplo, e a necessidade de mais repouso. Ali estávamos todos nós, em pleno repouso e desfrute de uma hospitalidade singular, quando Émerson pede que cheire o cabelo de Thales e pergunte que cheiro de fumaça é aquele. Agi como recomendado. Cheirei a cabecinha dele e perguntei: – “Que cheiro de fumaça é esse no seu cabelo?” Ora, se onde há fumaça há fogo, ou seja, se fumaça é sinal de fogo, se fumaça aponta para alguma coisa que não ela mesma – para utilizar, mais uma vez, recurso da filosofia agostiniana, que valoriza tanto a questão de signo e significado –, então aquele imaginário “cheiro” de fumaça, aquele signum, possivelmente apontaria para alguma coisa que não ele mesmo. Nesses termos, a lógica do pequeno vai funcionar perfeitamente.

O que Thales não alcança, nem tem idade suficiente para alcançar, são os recursos da razão que ajudam a entender com maior precisão a importância e o que quer dizer signo e significado. Ou seja, que fumaça é signo de fogo, mas de fogo, mesmo, e não de algo que apenas tenha a aparência de fogo. Esse alcance ele não tem, apesar de ter o sentido lógico da coisa, pois uma vez provocado pela minha pergunta: – “Que cheiro de fumaça é esse no seu cabelo?”, ele responde de imediato: – “É do casamento”. O casamento estava tão quente assim? Ora, o “fogo” do casamento nada mais era do que aquilo que estava por trás do gelo seco, ou seja, água.  Sendo assim, nem a fumaça era fumaça, nem o fogo era fogo. A fumaça era algo similar à fumaça e o fogo era... água. O signo, ali, apontava para outra coisa que não ele mesmo e nem o fogo.

Fiquei muito curioso para saber o que ele faria, a partir dali, com aquele “achado” que tinha muito a ver com a filosofia de Tales de Mileto. No dia seguinte, 23, seu tio Van – meu sobrinho Erivan –, chegou e foi beijá-lo. Recomendei como Émerson no dia anterior. Quando Van lhe dirige a mesma pergunta: – “Que cheiro de fumaça é esse no seu cabelo?”, ele agora dá outra resposta: – “Lavei meu cabelo”. Até que enfim evoluíste intelectualmente, meu querido garoto, e fizeste o que deverias ter feito desde o casamento: lavar o cabelo para tirar aquele esquisito cheiro de “fumaça” de gelo seco, signo que aponta não para o fogo de Parmênides (539? ‒ 450? a. C. [89]), mas para a água de Tales de Mileto.

2. A pura filosofia agostiniana do humilis e sublimis               

Dada a base cristã de Agostinho, dois dos mais belos conceitos que ele desenvolve em sua filosofia são exatamente o da humildade e da sublimidade, ou o humilis e o sublimis. Este, representado na grandeza de Deus, aquele, na baixeza do homem.

O homem é, por natureza, um ser decaído do seu estado de inocência original, por causa da grave falha de desobedecer ao preceito divino. Preceito este, por sinal, de transparência e simplicidade infantil. Por conta desse fracasso, o homem é e, ao mesmo tempo, não é. A mutabilidade que acomete sua alma faz com que ele seja ao mesmo tempo em que está deixando de ser. Só Deus é. Dito de outra maneira, só Deus é de forma absoluta, só Deus é o ser por excelência. Deus é o ser sublime, cuja sublimidade a pobreza da linguagem humana jamais será capaz de descrever sequer por aproximação. Por isso mesmo, além de sublime é também inefável, isto é, não pode ser nomeado nem descrito com o recurso da palavra, que nada diz de Deus, a não ser em termos apofáticos, ou seja, tentando descrevê-lo de forma negativa. O que conseguimos dizer de Deus, então, é nada dizer. Melhor, portanto, calar, ficar em total silêncio diante do profundo mistério. Ou, então, ter consciência da ignorância e dizer como disse Sócrates (470 a. C. ‒ 399 a. C, [70]): “O que sei é que nada sei”.

Ocorre que Agostinho, com ousadia admirável e partindo do ponto preciso da encarnação de Cristo, insere o sublimis no humano e, através dele, eleva o humilis à condição da excelsitude própria do sublimis. O que ele faz é simplesmente inverter as pedras, sem alterar a beleza e a grandiosidade do jogo que se esconde por trás da providência divina. Por isso mesmo é que o humilde será exaltado e o soberbo será humilhado, pois o soberbo é o humilis falsificado por tentar colocar-se no lugar do sublimis e fazer-se fim em si mesmo e para si mesmo. Todavia, ser pequeno até o chão é que é o lugar natural do homem, pelo menos no pensamento de Agostinho de Hipona. 

Ora, o que acontece com o nosso querido Thales quando falta apenas cerca de um mês para completar três anos, isso em novembro de 2008? Ele profere uma frase tão linda e tão significativamente filosófica, que fica difícil até de acreditar que tenha saído da boca de uma criança; mas, segundo a Bíblia, é da boca das crianças e dos lactentes que sai o perfeito louvor [iii]. São palavras infantis, usadas por alguém que não dispõe de nenhum domínio intelectual da fala, mas que são dignas de constar de qualquer epígrafe e de qualquer obra da literatura.

Com seu jeito amável, afável e carismático, ele bate um gostoso papo com tio Van, um verdadeiro gigante de pouco mais de um metro e oitenta de altura. O abismo antropológico é imenso entre os dois, em termos de estatura. Em sentido antropológico, de fato, ambos são dois gigantes, independentemente desse aparente abismo. A certo momento da fala entre tio e sobrinho, este levanta os olhinhos às alturas, onde paira o olhar daquele, e profere: – “Tio Van é alto até o teto, eu sou baixo até o chão”.

3. O adequado uso dos sentidos pela alma               

Para Agostinho, o comando dos sentidos está na alma e não no corpo. A alma guarda a integridade de todos os sentidos apelando ao sentido interior. Esse cuidado da alma para manter o corpo equilibrado e incólume, é um vestígio da secretíssima unidade da qual lhe vem o ser, razão que o leva a agradecer a Deus, mesmo que tivesse vivido apenas até à infância [iv]. Sendo assim, quem vê, propriamente, não é o sentido da visão, mas a alma através do sentido da visão. E, de forma similar, com os demais sentidos [v]. O adequado uso dos sentidos por Thales, então, tanto reflete esse cuidado da alma para manter a integridade do corpo, quanto as expressões dos estados anímicos, que passam pelo prazer, pela dor, pela alegria e, claro, até pelos valores éticos e estéticos. Que ninguém se engane: a alma infantil, isto é, a alma em estado inicial, tem seus olhinhos bem abertos para o mundo e para as pessoas entre as quais está inserida. Ela é muito mais atenta do que muitos atentos adultos com suas almas em estado mais avançado.

Naquele dia, a alma de Thales, no comando de todos os sentidos, está em quase perfeito equilíbrio consigo mesma, pois desfruta da doce companhia de vovó Áurea [vi]. E a estabilidade anímica que se processa no corpo e através do corpo é tão mais significativa pelo fato de Vovó ser a mamãe de Mamãe. É por isso que seus pequenos e inocentes membros estão como que elétricos, obedecendo aos comandos da alma: suas perninhas se movimentam com uma agilidade incrível; suas mãos agarram as coisas, brincam, gesticulam incansáveis; seus ouvidos estão atentos a cada som, a cada palavra, a cada novidade; o olfato se deleita com os aromas das comidas e guloseimas; seu gosto gosta das coisas que gosta, ainda mais com o bom gosto de Vovó; e as janelas da alma estão escancaradas, faiscantes, atentas ao menor movimento, às mais imperceptíveis mudanças no espaço ao derredor, inclusive as estéticas. Seus olhinhos, quer dizer, as janelas da alma, estão brilhantes e sequiosos por novidades.

O papo entre o neto e a Avó, naquele momento, parece ser completamente distinto de tudo que foi dito acima. Pena que, feito alguns raros e antiquíssimos manuscritos dos quais nada mais resta senão fragmentos, apenas uma frase foi salva de toda aquela conversa. Cinco palavras que são suficientes ao nosso propósito, pois se trata de um eloquente fragmento de fundo filosófico. Bonita, vaidosa, de aparência jovial, Vovó está de cabelos bem cuidados – com um tipo de corte um pouco diferente do costumeiro – quando, de repente, as mechas esvoaçantes ao sabor do vento caem sobre o seu rosto. Atentíssima, a alma do menino tem sua atenção despertada pelo sentido da visão, por ela mesma comandado e, numa fração de segundos, aciona o intelecto e a fala da irrequieta criança, que balbucia numa prosódia parcialmente inarticulada: - “Seu cabelo tá etanho, Vó”.

4. Agostinho e Ambrósio: leitura silenciosa e metáforas

Se existe um recurso retórico utilizado por Agostinho mais do que outros, é o da metáfora. São tantas e tão variadas, que formam um capítulo à parte [vii]. Outro recurso que desperta a atenção do hiponense, pouco comum na época, é o do método da leitura silenciosa, utilizado por Ambrósio (340? ‒ 397 [57]), bispo de Milão: “Mas, quando (Ambrósio) lia, os olhos percorriam as páginas, e o seu coração penetrava o sentido, enquanto a voz e a língua se mantinham em repouso” [viii]. O grande admirador de Ambrósio, aprendiz e beneficiário da leitura silenciosa, continua o relato, dizendo que ele era visto sempre lendo “em silêncio e nunca de outra forma”, concentrado de tal maneira que muitas vezes as pessoas esperavam longo tempo em silêncio e, não ousando perturbá-lo, iam embora sem serem atendidas. Para Agostinho isso não representava problema algum, pois entendia as razões do bispo nessa parada obrigatória para alimentar a alma com a leitura, além de ter recebido dele a necessária e inestimável ajuda para a compreensão do duplo sentido das Escrituras – espiritual e alegórico – e para outras questões que complicaram sua vida e o mantiveram longe da fé da igreja católica.

Agora, vamos falar da terceira pessoa dessa trindade, isto é, de Thales, para saber o motivo de incluir seu nome nessa relação filosófica com os dois grandes gênios da patrística. Leitura em silêncio não é o seu prato predileto, pois nessa época nem sequer sabia ler. Mas a curiosidade (curiositas), aqui como virtude e não como vício, é própria da natureza de sua alma infantil, como é própria da natureza da alma humana em sentido geral. E o que desperta a curiosidade do pequeno?

O que desperta a curiosidade de Thales é exatamente Mamãe Mercinha que lê silenciosamente sobre a cama, mesmo não sendo agostiniana. Ele chega de mansinho, com aquele jeito carinhoso e questionador, e fica parado, atento, observando, olhando e como quem nada entende daquilo que está vendo. E ele está exatamente em silêncio, admirado com aquela cena tão bizarra à sua compreensão: a mãe está com um livro nas mãos, percorrendo a página com o olhar, mas sua boca está fechada, seus lábios estão cerrados, ou seja, reina um silêncio absoluto na aconchegante ambiência do aposento de repouso de Papai e Mamãe. A alma do infante se inquieta, fica perplexa e, sem conseguir segurar por mais tempo a angústia que toda aquela esquisitice lhe desperta, indaga: – “O que você está fazendo?” Essa é uma boa pergunta, garoto, e pode lhe levar às fontes da filosofia! Agora, vamos ver como você se sai diante da resposta que mamãe lhe dá de imediato: – “Estou lendo”. Sua alma aciona todos os comandos sensoriais possíveis, numa fração de segundos – pois ele fica agoniado com aquela resposta ainda mais esdrúxula, aparentemente evasiva –, e contra-argumenta com um duplo raciocínio, de pergunta e resposta: – “Lendo? Você não está lendo. Sua boca está parada”. E agora, Mamãe, como sair dessa dificuldade que lhe foi imposta pela lógica infantil?

Veja que seu herdeiro está filosoficamente tão abismado diante de você, quase tanto quanto Agostinho diante de Ambrósio. É isso que dá ter uma alma racional no comando, o que não seria o mesmo caso se apenas o corpo estivesse no comando, coisa que o corpo não tem condições.  Mamãe, pronta para qualquer embate, haja vista sua argúcia e a longa experiência no magistério infantil, tenta sair daquele embaraço com esta: – “Eu estou lendo com o pensamento”. Ou seja, apela ao verbo interior e ao recurso retórico da metáfora. O pensamento lê? Mas o pensamento lê com que, com outro pensamento? Como funciona essa máquina tão complexa, ainda mais para a filosofia que fica só insistindo com perguntas e mais perguntas?

E agora, como se porta o nosso herói? Aceitará simplesmente esse tipo de resposta metafórica? Jamais, pois pela sua lógica, que está correta, se o pensamento tem realmente condições de ler, ele precisaria pelo menos de um recurso especial, também metafórico, porém ainda mais decisivo e sensorial. E por que ele chega à conclusão de que com a ajuda de um dos sentidos o pensamento teria condições de ler? Simples: porque ‒Pensamento não tem boca”. Agora, se a leitura fosse feita com a boca do pensamento, tudo bem! Se Mamãe tivesse respondido: estou lendo com a boca do pensamento – ou do coração – ele teria entendido em gênero, número e grau! E com a doçura do seu pequeno coração, daria razão também a Agostinho, ou receberia a aprovação e elogio do nosso filósofo que, falando sobre esse assunto tão deslumbrante, diz que a boca de Ambrósio, oculta no coração, ruminava saborosos deleites no pão do Senhor: “[...] que saborosos deleites a sua boca, oculta no seu coração, ruminava no teu pão” (et occultum os eius, quod erat in corde eius, quam sapida gaudia de pane tuo ruminaret (Confissões VI iii 3).

5. O filósofo da geometria

Com a tese de doutorado já pronta e repassada ao orientador Moacyr Novaes, em 13/10/2010, eu me dei ao luxo de folgar um pouco da preocupação com minha criança acadêmica e passar um ou dois dias na casa do querido filósofo mirim, como convidado de honra de seus pais. O resultado é que terminei ficando por lá uma semana inteira: de 10 a 17.

Levei minhas poesias e desenhos na bagagem. Queria mostrar coincidências que ocorreram ao resgatar revistas da década de 1960, com reportagens e fotos da atriz italiana Gina Lollobrigida (04/07/1927), a quem admiro desde meus 12 anos de idade, quando ainda morava em Arcoverde, PE, isto é, desde a segunda infância. Algumas dessas publicações trazem em suas páginas fotos que usei como modelo para desenhos que ainda conservo no meu acervo.

Ao mostrar uma dessas obras a Émerson e Mercinha, sob os olhares atentos dos dois queridos sobrinhos‒netos, Ítalo, com nove anos, e Thales, com quatro anos e dez meses, a exposição do futuro doutor em filosofia pela USP estava um tanto fora dos padrões exigidos pela mais pura geometria, principalmente diante do pai da filosofia ocidental. O desatento e quadrado doutorando explicava que quando ia desenhar traçava um quadrado como aquele e a partir daí começava a executar sua obra. Foi nesse momento que percebi Thales aos cochichos com sua mãe. Ao notar aquela cena, entendi que se um filósofo fala em surdina, mesmo que o estrépito da voz não se faça ouvir, algo importante está sendo dito. Parei um pouco a explicação e perguntei do que se tratava. O garoto‒filósofo dissera ao ouvido de sua mãe: ‒ “Isso não é um quadrado, isso é um retângulo”. E era mesmo. Errado estava o quadrado do tio‒avô que disse que um retângulo era quadrado.   


FOTOS

________________________

FOTO 2 ‒ 23/03/2022, São Paulo: Thales à esquerda de Ítalo. As crianças cresceram!
FOTO 3 ‒ 23/03/2022, São Paulo: Émerson e Mercinha (Erimércia).
FOTO 4 ‒ Sem data, praia de Caraguatatuba, São Paulo: a admiração filosófica do filósofo da água e da fumaça.
FOTO 5 ‒ 2006 ou 2007, São Paulo: Thales observa Titia Jeanete, enquanto Vovó Áurea fala alguma coisa em surdina, e Mamãe se fixa cuidando de uma camiseta.
FOTO 6 ‒ 2006 ou 2007, São Paulo, SP: Vovó Áurea com o futuro filósofo da água e da fumaça nos braços, Papai Émerson com o rapagão Ítalo, e Mercinha abraçada com Van.
FOTO 7 ‒ 2022, São Paulo, SP: O filósofo‒gato com o gato nos braços.
FOTO 8 ‒ 2022, São Paulo, SP: Os dois inseparáveis irmãos, Thales e Ítalo, têm sempre o braço protetor sobre eles.
FOTO 9 ‒ 2022, São Paulo, SP: O pequeno filósofo grego da água e da fumaça se transformou num belo Deus grego saído das águas do mar. Continua fiel às águas e na defesa de sua tese revolucionária.

FOTO 10 ‒ 08/01/2007, Recife, PE: O garoto cresceu e se transformou num lindo rapaz, porém a criança continua nele, pois para onde teria ido?



________________________

NOTAS

________________________

[i] Estou dando um intervalo nas publicações sobre a Primeira Igreja Batista de Beberibe, por conta do fato de que o terceiro artigo está dependendo de muita pesquisa em fotos e material que tenho no meu acervo. Uma vez que essa nova tarefa das memórias pastorais será gigantesca, pois já temos assunto para mais de dois anos, certamente teremos outros momentos de intervalo. E nada melhor do que rechear com filosofia, desde que filosofia infantil.

[ii] Cícero (Marco Túlio Cícero, 106‒43 a. C. [63]), famoso filósofo, retórico e político romano, diz o seguinte sobre os Sete Sábios gregos: “Porque não creio que Metrodoro tivesse tomado este nome (de sábio) antes, mas, vendo que Epicuro se fazia chamar o sábio, não quis recusar tão grande benefício. E, quanto àqueles antigos sete, não foram sábios por vontade própria, mas pelo sufrágio do povo”; e o tradutor, em nota de rodapé, assim se expressa: “Os Sete Sábios, nome dado a sete filósofos e estadistas da antiga Grécia. Segundo a tradição, eram eles: Bias, Cleóbulo, Míson, Pítaco, Quílon, Sólon e Tales de Mileto”, cfe. CÍCERO. Do sumo bem e do sumo mal (de finibus bonorum et malorum). Trad. Carlos Ancêde Nougué. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 203 p. ISBN 85-336-2163-9. II iii, p. 36, nota 2.

[iii] Confira Salmos viii 3.

[iv] Confira Confissões I xx 31: “Mas a ti, Senhor, criador sublime e bom acima de todas as coisas, a ti que governas o universo, a ti, nosso Deus, te dou graças, ainda que tivesses querido que eu fosse apenas criança. Porque mesmo então eu existia, vivia e sentia, e cuidava da minha incolumidade, vestígio da secretíssima unidade da qual me vinha o ser, guardava com o sentido interior a integridade dos meus sentidos e, nesses mesmos pequenos pensamentos sobre pequenas coisas, deleitava-me com a verdade. Não queria ser enganado, tinha boa memória, instruía-me com a convivência, suavizava-me com a amizade, evitava a dor, a abjeção, a ignorância. Que havia em tal ser que não fosse digno de admiração e louvor? Mas todas essas coisas são dádivas do meu Deus. Não fui eu que as dei a mim mesmo: não apenas são coisas boas, mas, além disso, todas essas coisas sou eu. É bom quem me fez, e ele próprio é o meu bem e diante dele exulto por todos os bens com que me fez ser, quando garoto” (sed tamen, domine, tibi excellentissimo, optimo conditori et rectori uniuersitatis, deo nostro gratias, etiamsi me puerum tantum esse uoluisses. eram enim etiam tunc, uiuebam atque sentiebam meamque incolumitatem, uestigium secretissimae unitatis, ex qua eram, curae habebam, custodiebam interiore sensu integritatem sensuum meorum inque ipsis paruis paruarumque rerum cogitationibus ueritate delectabar. falli nolebam, memoria uigebam, locutione instruebar, amicitia mulcebar, fugiebam dolorem, abiectionem, ignorantiam. quid in tali animante non mirabile atque laudabile? at ista omnia dei mei dona sunt, non mihi ego dedi haec: et bona sunt et haec omnia ego. bonus ergo est qui fecit me, et ipse est bonum meum et illi exulto bonis omnibus, quibus etiam puer eram).

[v] Conferir de genesi ad litteram X xii 21, comentário literal ao Gênesis escrito por Agostinho entre 401 e 415: “Ao dizer o apóstolo a carne cobiça (Gálatas v 17: caro concupiscit aduersus spiritum, et spiritus aduersus carnem) chama carne ao que opera o espírito segundo a carne, do modo que se diz o ouvido ouve e o olho vê, pois quem ignora que é muito mais a alma que ouve e vê por meio do ouvido e dos olhos?” (sic enim dicta est caro in eo quod secundum ipsam facit anima, cum ait, caro concupiscit; quemadmodum dictum est, auris audit, et oculus uidet. quis enim nescit quod anima potius et per aurem audiat et per oculum uideat?).

[vi] A querida e dulcíssima Vovó, Áurea Remígio Freire (17.02.1942‒16.01.2013 [70]), nos deixou muito cedo, e que falta sentimos. Era uma presença constante e ajudadora na vida dos netos e do casal. 

[vii] Apenas dez exemplos do recurso retórico da metáfora utilizado por Agostinho nas Confissões: (i) I v 5: “ouvidos do meu coração – aures cordis mei”; (ii) VII vii 11: “tormentos e gemidos do coração em dores de parto” – tormenta parturientis cordis mei, gemitus, (iii) “E aí estavam os teus ouvidos (de Deus), sem eu saber – et ibi erant aures tuae nesciente me”; (iv) I xvi 25: “torrente dos hábitos humanos – flumen moris humani”, (v) “sob os olhos da lei – in conspectu legum”; (vi) I xiii 21: “(Deus) luz do meu coração – lumen cordis mei”, (vii) “pão da boca interior da minha alma – panis oris intus animae meae”, (viii) “poder fecundante da minha inteligência e do meu pensamento – uirtus maritans mentem meam et sinum cogitationis meae”; (ix) I xvi 25:  (hábitos humanos como) “mar profundo e temeroso” – mare magnum et formidulosum, (x) “que somente podem atravessar os que navegam no lenho (da cruz) – quod uix transeunt qui lignum conscenderint.

[viii] Confissões VI iii 3: “sed cum legebat, oculi ducebantur per paginas et cor intellectum rimabatur, uox autem et lingua quiescebant”.