segunda-feira, 1 de junho de 2020

A JUBAÍBA NASCEU ENTRE LÁGRIMAS


Eliezer, à esquerda, Renivaldo, à direita, em viagem para visitar mocidades em Gravatá e Patos, juntamente com outros jovens da diretoria em seu segundo ano de funcionamento.


A JUBAÍBA NASCEU ENTRE LÁGRIMAS 
enivaldo ufino
O nascimento da Jubaíba foi dramático e doloroso. Graças à determinação, coragem e ousadia de um jovem, de início, o projeto avançou e deu resultado positivo que se estende até hoje. Quase cinquenta anos são passados daqueles dias memoráveis. Sem esse passado o presente se esvazia, pois este só existe como continuidade daquele. Isso é história que continua viva em muitas vidas, mesmo que minimizada em outras. O perigo é que os fatos sejam não apenas esquecidos, mas distorcidos. Resgatar o máximo que se puder de seu conteúdo, é salutar e aprazível. Vale a pena pinçar detalhes curiosos e positivos dessa organização nos seus primórdios. Porém, como tudo que é humano é propenso a falhas, houve também detalhes negativos e até lamentáveis.

No princípio era a juventude que surgiu no primeiro momento quando os batistas deram o ar de sua graça no solo paraibano. Tudo iria mudar quando os jovens sentissem a necessidade de melhor se organizarem e se unirem como instituição formal. O anseio não era estranho, pois já pertenciam a uma instituição igualmente formal, a igreja. Além disso, ao olharem ao redor e para outras paragens, notavam o surgimento dessa nova tendência nacional. Era óbvio que não queriam ficar para trás. A chama queimava em cada coração cheio de sonho e esperança. Então, nada custava tentar fazer de acordo com a razão ditada pelo coração. E assim foi feito, mas não coletivamente, apesar de a chama alcançar o coletivo. Foi feito por um coração solitário e ao mesmo tempo solidário que estava ligado a alguns outros corações.
O coração solitário e solidário sofreu agruras para dar o primeiro chute a gol na barra adversária, que nem era tão adversária assim. O jovem queria chutar, tentava chutar, mas a turma do outro lado lutava para impedir de todas as maneiras. É que esta tinha uma desconfiança inexplicável naquele. A seu ver, a preocupação jovem era com coisas fúteis e sem a mínima importância, como futebol, brincadeiras, política e outras mais do mesmo tipo. Parecia uma guerra entre gerações. Essas escaramuças o deixavam entristecido e propenso, às vezes, a desistir de tudo e ficar quieto no seu canto. Refletia que as atividades na igreja já o ocupavam demasiadamente, pois nem lhe sobrava tempo para afazeres pessoais. Por outro lado, sentia a chama ardendo no coração como que provocando a fazer mais em benefício da juventude como um todo.
Certo dia comparece a uma assembleia convencional estadual e diz do seu desejo. Tem o privilégio de ser eleito para representar os jovens junto à Junta. Participa das reuniões com a eloquência do seu silêncio, pois a palavra não lhe é facultada. O massacre emocional e ainda a urgência do projeto por causa de mais um encontro da convenção que se aproximava foi muita carga para o jovem. Ele não teve como suportar a pressão e chorou. Entretanto, as lágrimas que lavaram seu rosto foram benéficas, pois lavaram também a sua alma. A partir dali, criou novo ânimo e vontade indômita para enfrentar a situação adversa. Quando lhe foi dada oportunidade para sair do silêncio, já transcorria a última reunião do grupo. Ele argumentou destemidamente a favor da necessidade de se começar um trabalho sério, organizado e com possibilidade de atingir as juventudes locais. Eles emudeceram diante de sua retórica e desembaraço, mas não deram um passo sequer a seu favor. Alegaram, apenas, que “não daria mais tempo para levar o assunto à Assembleia Convencional”. Ocorre que o jovem era destemido, afoito e cônscio de suas ações. Sua estratégia foi rápida: “Não tem problema. Eu quero uma oportunidade para falar na assembleia”. Lá não se pôde mais postergar sua fala e nem frear seu ímpeto. Falou pouco, disse muito e, conforme suas próprias palavras, “ali foi criada a Juventude Batista da Paraíba. O nome da Juventude foi decidido ali”.
O choro que durou mais de uma noite deu lugar à alegria da realização do sonho. O brilho nos olhos por conta da chama no espírito saiu contagiando a tudo e a todos. E começou a raiar um novo tempo para a juventude. Houve adesão gradual e decisiva de igrejas locais, juntamente com pastores e juventudes, desde a capital até ao alto sertão. Jubaíba começou a ser presença marcante e obrigatória nas cidades e nas igrejas, a partir da própria juventude que integrava tais agências. O que era apenas sonho há algum tempo, torna-se realidade.    
Corria o ano de 1972. Foi nessa mesma época do nascimento da Jubaíba que a PIB Campina Grande promoveu um acampamento, igualmente solidário, em Pitimbu. Dele participaram diversas igrejas, como se já fora prenúncio dos próximos encontros da Jubaíba. Estiveram presentes: Primeira, Liberdade e Congregacional Central, de Campina Grande, PIB e Evangélica, de João Pessoa, Pilar, Santa Rita, Piancó, Nova Canaã, Instituto Bíblico de Feira de Santana, Bahia, Seminário de Educadoras Cristãs, Recife, na pessoa de Natália Débora, “um dos braços fortes do acampamento, e dez outros jovens não evangélicos”. E no dia 19 de março de 1972, à página 6 d’O Jornal Batista, foi publicada reportagem e fotos do evento sob o título: “Bênçãos em Pitimbu”; o tema do acampamento: “Jovens à medida de Cristo”. Falaram, na ocasião: pastores Tomaz Munguba, da PIB João Pessoa, Jessé Pereira, da IB Nova Canaã e seminarista Betânia Melo, do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil. Essa aparente digressão tem a finalidade de relacionar esses fatos que estão intrinsecamente ligados: o nascimento da Jubaíba e o acampamento da Primeira Igreja de Campina Grande, pois no ano seguinte, 1973, seria realizado o 1º Acampamento da Jubaíba, em Lagoa Seca. Mas aí já é outra história, que será publicada depois. 
A ideia da criação da Juventude Batista da Paraíba e da sigla surgiu bem antes, e agradou em cheio a gregos, troianos e jubaibanos. Jubaíba nasceu para ser grande e brilhar na Paraíba e no Brasil. Nasceu entre lágrimas, mas não em território paraibano. A criança se desenvolveu na Paraíba, mas a ideia ocorreu na Igreja Batista da Capunga, Recife, onde alguns jovens participavam de congresso: “Jubaíba é a sigla que já nasceu famosa, em pleno I Conordeste, Recife, 1969” (RUFINO, J.R., in Revista Mocidade Batista, 2º Trimestre 1973, p. 44, 45). Ali começou tudo, inclusive a sigla idealizada em bom tempo pelo saudoso José Vaz, cunhado de Eliezer Lourenço. Eliezer foi, de fato e de direito, o fundador. Ele também se tornaria, mais tarde e com muita justiça, o primeiro presidente da Jubaíba. 

domingo, 26 de abril de 2020

A VERDADE É RELATIVA OU ABSOLUTA?

Entrada principal da Faculdade de Filosofia da USP

enivaldo ufino
Hoje é dia de brinde filosófico. E nada melhor que colocar nessa taça borbulhante um dos grandes conceitos da filosofia, em forma de pergunta: a verdade é relativa ou absoluta? Antes de transcrever o texto propriamente dito, vale a pena conhecer o que está por trás da pergunta aparentemente contraditória que o constitui. Brinde ao meu filho que aniversaria e também a todas e todos que terão acesso a esse texto.

Encontrava-me há dois anos em São Paulo, tentando uma vaga no doutorado em filosofia medieval da USP. Meu primeiro contato na universidade, antes de chegar lá, foi com o professor Dr. José Carlos Estêvão. O professor Estêvão foi atencioso e gentil comigo, pois em apenas onze dias respondeu à carta que lhe mandei pedindo informações sobre o curso, dizendo em uma das linhas: “Normalmente custa um bom tempo afinar um projeto”. De fato, custou muito tempo, estudo, dedicação, esforço redobrado e também adaptação ao sistema da instituição, que é diferenciado de tudo que eu conhecia até então.
Atento às recomendações do orientador, professor Dr. Moacyr Novaes, somente me candidatei a uma vaga quando ele me deu sinal verde. Até então, usei todo o tempo de que dispunha para pesquisas tanto na Biblioteca da USP quanto na Biblioteca dos Agostinianos, em Vila Mariana, além de estudar disciplinas avulsas e latim, língua do filósofo que escolhi como objeto de estudo. Com residência temporária em Guarulhos, onde fui recebido como príncipe, às vezes levava até seis horas para chegar ao destino. Fiquei tão familiarizado com São Paulo, que já a considerava minha segunda pátria. Além disso, contei com a qualidade e gratuidade do ensino e incentivos para alimentação no restaurante da universidade e transporte nas duas cidades. O ensino é tão qualificado e diferenciado, que um dia de aulas equivalia ao que seriam muitos dias ou meses do mais rico conteúdo.
Quando o orientador sugeriu que me inscrevesse para a seleção, fiquei assim como quem sonha. Comecei a pensar o seguinte: como me preparar? O que devo estudar de filosofia e de francês? Ora, uma vez que fui dispensado da entrevista e da prova na língua do filósofo que escolhera para pesquisar, pois já fazia parte do programa da instituição para alunos da casa, só me restava cair em campo e estudar para vencer os dois desafios. Descobri, então, que não precisaria estudar, mas depender do saber que acumulara até o momento. Nenhuma relação de livros foi apresentada, como geralmente ocorre em outras universidades, e nada em termos de francês, a não ser a ajuda quase inútil de um dicionário que poderia conduzir à sala onde o exame seria realizado. Deveria ir com a cara e a coragem, como de fato fui. Ou melhor, com a cara, a coragem e o arsenal que mantinha depositado nos palácios da memória. Palácios que foram enriquecidos ainda mais quando li as palavras bondosas escritas em 18.11.2010, já no último período do curso, que me convenceram de que estava no caminho certo, apesar do atraso intelectual e da idade: “Estou lendo sua tese. Um trabalho notável, pela qualidade do texto e pelo desenvolvimento das ideias. Estou feliz por você, e orgulhoso por receber os imerecidos méritos de orientador”.
Saindo do rápido desvio acima, a prova de francês foi sobre Descartes. O texto a ser traduzido não era dele, era sobre seu pensamento. Assim como fiz na prova de inglês por ocasião do mestrado na UFPE, fiz agora: li o texto completo, para tentar entender, e só depois é que comecei a traduzir. E de que constou a prova de filosofia? Eram cinco questões, para se escolher uma delas e dissertar durante quatro horas, mesmo tempo da prova de línguas. Fui passando questão por questão, até que encontrei a pergunta na segunda delas: a verdade é relativa ou absoluta? Logo pensei diante desse paradoxo: é nessa que vou, pois se trata da teoria da verdade de Agostinho de Hipona (354-430, 75). Ao invés de quatro horas, gastei apenas duas horas escrevendo, sem rascunhar e sem rasurar. O tempo que sobrou, dediquei à cópia que fiz para ficar comigo, o que nem era preciso, pois todos os documentos seriam devolvidos, o que também diferencia a USP de muitas outras instituições de ensino superior. Fui aprovado no final do processo. Tomei conhecimento do resultado um dia antes do meu aniversário de sessenta anos. Como presente comemorativo, fui brindado pela minha sobrinha Erimércia e seu esposo Émerson com camarote especial no Teatro Abril, aonde vimos “O Fantasma da Ópera”. E aí vai, ao pé da letra, o que escrevi naquele inesquecível dia da prova que me alçou à condição de aluno do doutorado de filosofia da Universidade de São Paulo.  
A VERDADE É RELATIVA OU ABSOLUTA?
A busca encetada pela filosofia, através de nomes que constituem uma lista que já se estende por mais de dois mil anos de história, é uma busca que sempre oscila entre extremos, qual o pêndulo de um relógio. Dentre todos esses nomes, um dos destaques é o de Agostinho de Hipona (354-430) que, apesar das influências recebidas do neoplatonismo, pensou com seriedade temas controversos e que oscilavam entre esses extremos, dando aos mesmos uma conotação e uma direção diferenciada da do neoplatonismo, ajudando, assim, a colocar as primeiras pedras na construção da filosofia cristã. E um dos temas por ele desenvolvidos, diz respeito à verdade.
A abordagem sobre a verdade passa necessariamente por outros prismas, uma vez que é preciso definir, logo de saída, de que tipo de verdade se trata. Em outras palavras, é imprescindível saber se se fala de uma verdade ligada ao mundo sensível ou ao mundo inteligível. De que tipo de verdade trata Agostinho? Por ser um tema tão controvertido e tão polêmico, estaria fadado a uma aporia? Finalmente, a verdade é relativa ou absoluta, para ele?
Ao principiar a busca, deve-se contemplar, primeiro, o mundo sensível. Este é um dado imediato e que está bem diante e ao redor de nós. Ora, o mundo sensível tem uma segurança relativa para garantir um estatuto permanente à verdade, por conta de sua contingência. Bem no sentido agostiniano, o mundo é e, ao mesmo tempo, não é. Se a busca pela verdade é a busca pelo ser e, indo um pouco além, a busca pela felicidade, como encontrar tudo isso num tipo de realidade que está em constante mudança, numa espécie de perpétuo fluxo heraclitiano? As verdades encontradas no mundo sensível, portanto, nem de perto podem ser confundidas com uma possível verdade de estatuto permanente. A relatividade do mundo confere uma relatividade também aos seres que dele fazem parte.
De todos os seres que fazem parte do mundo sensível, o homem é contemplado como o mais excelente ‒ apesar de sua inegável contingência ‒, por ser exatamente ele, o homem, o portador da racionalidade. E é pela racionalidade que ele pode descobrir essas verdades que podem servir de marcos na estrada que leva a uma verdade maior e de caráter universal. Onde procurá-la, então? Estaria ela vinculada ao mundo sensível? Aporeticamente pode-se responder sim e não. Começando pela negativa, seria impossível encontrar algum vestígio desse tipo de verdade num mundo que continuamente está deixando de ser. Por outro lado, pode-se pensar positivamente, pois é neste mundo sensível, transitório, que se instaura o homem com sua racionalidade. Mas a verdade seria o homem? Absolutamente, não, mas ela poderia ser procurada pelo homem no homem.
A fórmula seguida, aqui, é bastante conhecida: saindo da exterioridade, o homem deve encetar a busca em si mesmo, isto é, na sua interioridade. E esse movimento revolucionário é tão antigo quanto a história da filosofia. Entretanto, com conotações bem distintas das que aqui se tratam. Esse movimento em direção à interioridade é temporal, porém não espacial. E é um movimento na direção acertada, pois a verdade se encontra no interior do homem (ou no homem interior). Ao contemplar-se a si mesmo como lugar privilegiado da verdade, o homem se depara com um paradoxo. Nesse voltar-se para si mesmo ele não encontra, de imediato, a tão almejada verdade, mas se encontra a si mesmo. Perdido, antes, na exterioridade e multiplicidade do mundo sensível e contingente, ele agora se achega a uma possível unidade, quando nesse movimento não espacial se dirige ao seu próprio interior, ao seu íntimo.
Ao retornar a si mesmo e ao ponto mais extremo de sua interioridade, em busca da verdade, o homem é colhido por uma surpresa ainda maior, pois vai descobrir uma profundidade que vai além do seu íntimo. É o íntimo do íntimo, ao qual ele não tem acesso, pois vai a um ponto inacessível à sua contingência. É neste exato ponto que ele encontra a verdade absoluta que buscava. Esta verdade está nele, porém não é ele. Esta verdade resiste à contingência, pois se instaura além do mundo sensível. Esta verdade é Deus, o Deus cristão, divindade que se humaniza na encarnação da figura histórica do Jesus de Nazaré. E isto o neoplatonismo jamais admitiria.
O próximo e último passo é ainda mais paradoxal: Agostinho agora sai de sua própria interioridade, pois a verdade que ele busca também está no seu exterior. É o Deus que está no íntimo do íntimo, mas que é também alteridade, pois como habitaria o não contingente, o ser por excelência, naquilo que lhe é contrário, ou seja, no contingente e no não ser? E nessa saída dele mesmo, ele encontra Deus, a verdade absoluta, na revelação cristã.

sábado, 11 de abril de 2020

ENCANTO E MISTÉRIO DAS GENEALOGIAS


Joran e Rodolfo no umbuzeiro cartão postal e relicário de inscrições na Ringideira, Monteiro, PB
enivaldo ufino

A foto de Joran e Rodolfo trepados no velho umbuzeiro da Ringideira é o exemplo mais eloquente do encanto e mistério das genealogias. Geralmente, árvores são utilizadas como ícones de demonstração do registro das gerações. Outras vezes, essas demonstrações são feitas por diagramas ou figuras similares. Árvore genealógica é uma expressão conhecida que, segundo o dicionário Houaiss, é “a representação gráfica dos antepassados de um indivíduo, que pode incluir também, em cada geração, os parentes colaterais”. O umbuzeiro, por sua vez, é uma árvore alta, nativa das regiões tropicais da América do Sul, com “copa frondosa, folhas pequenas, comestíveis e frutos com polpa doce e aromática, de onde se prepara a umbuzada”. E lá no topo da planta estão os dois corajosos e atrevidos que pertencem a ramificações específicas de árvores genealógicas. Estão numa árvore e pertencem a uma árvore. Será que eles estavam pensando nesses pormenores enquanto se divertiam e pintavam o sete nesse verdadeiro paraíso terrestre? É claro que não, mas é o que menos interessa nesse momento quando nos voltamos para os encantos que estão por trás desse tipo de relato.  
Algumas pessoas acham enfadonho falar ou ler sobre genealogias, mesmo que estejam nelas inseridas. Até mesmo gerações listadas na Bíblia parece ser uma cantilena fastidiosa [1] para muitas delas. Para outras, como é o meu caso, é desafiador, divertido, misterioso e encantador. Nesses relatos das gerações estão ocultas histórias impressionantes. São esses relatos que formam a própria história da humanidade. Livros como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, a Escritura hebraica, conhecida como Tanach, e a Escritura cristã, para citar somente esses clássicos, são textos que fizeram e continuam fazendo a imaginação da cultura ocidental, justamente por causa das ricas trajetórias ali contidas.    
Sempre tive apreciação pelos relatos bíblicos que descrevem os ancestrais dos israelitas. Quando lia tais passagens, jamais pulava uma frase que tratasse do assunto. Pelo contrário, lia devagar e com avidez como se estivesse me alimentando da mais saborosa comida. A primeira referência mais extensa se encontra nos trinta e dois versículos do capítulo cinco do livro de Gênesis [2], que você pode acompanhar na nota de final de texto. Vale a pena ler com o vagar necessário que se exige das coisas que alimentam o espírito. De fato, toda boa leitura é uma alimentação para a alma, ou seja, é uma verdadeira terapia.
Genealogia é isso aí e muito mais. Deve-se notar que na relação da nota não constam os nomes de Caim e Abel e sua descendência, que fazem parte do capítulo anterior. Trata-se, portanto, da origem de um indivíduo e também de seus ancestrais e descendentes. Encanto e mistério estão presentes nesses relatos, como ocorre nessa narrativa de Gênesis pertencente à porção mítica da Escritura hebraica. Essa geração de Adão parece longa e, para algumas pessoas, até cansativa. Entretanto, ela é muito sucinta, pois cita apenas alguns nomes masculinos, uma vez que o elemento feminino e outros componentes masculinos estão incluídos no registro geral de “filhos e filhas”. Outro aspecto que chama a atenção é a longevidade dos personagens. Existem diversas teorias sobre o tema, porém não é esse o nosso propósito aqui. Por outro lado, é desafiador, misterioso e encantador debruçar-se sobre os detalhes de uma lista dessas. Cada nome citado encerra em si uma história de vida vivida com sua dinâmica própria e cheia de impressionantes matizes. E, mais ainda, quando pensamos no acréscimo de tantas pessoas descendentes dessa mesma linhagem, entramos numa verdadeira roda viva que nos causa forte impressão. Ora, se a vida ela mesma já se constitui no maior de todos os mistérios, o que dizer com a junção de tantas vidas?
O maior impasse a quem se propõe a fazer um registro desses, é chegar aos ancestrais, sendo que existem dificuldades até na listagem das gerações mais recentes. E são poucas as pessoas interessadas em contribuir com a temática. Afirmo isso porque já lido com essa tarefa há mais de vinte anos. Inclusive, quando estive ocupadíssimo em São Paulo durante mil, novecentos e cinquenta e cinco dias corridos, na elaboração da minha tese de doutoramento, andava sempre anotando esses dados junto aos familiares, quer estivessem próximos, quer distantes. Até mesmo em uma viagem que fiz a Goiânia em 2005, para rever primos e conhecer outros e outras que ainda não conhecia, estive fazendo esses registros e resgates.
Para que se tenha uma pálida ideia de quão trabalhoso é cair na aventura de listar gerações, somente em 2008, em encontro que tive em São Paulo com meu primo legítimo Marçal, é que consegui chegar à bisavó e ao bisavô por parte da minha avó paterna, e mesmo assim com dados incompletos, ou seja, somente os primeiros nomes. O pouco que registrei foi graças a esse primo, que se interessou tanto pelo assunto quanto eu. Dele eu consegui não apenas os primeiros nomes do nosso bisavô e bisavó, mas também o ano da morte do nosso avô Rufino José dos Santos. Ele falou o seguinte a certa altura da conversa: ‒ “Minha mãe dizia que eu nasci no ano em que meu avô morreu”. Sem condições de avançar nessas informações ‒ a não ser quando fizer buscas em igrejas e cartórios, pois já não existem testemunhas orais disponíveis ‒, resolvi romancear o encontro do meu bisavô com minha bisavó, a partir da sucinta informação que me foi repassada. E esse será o tema de uma das próximas publicações: “Antão e Guilhermina ‒ o amor que jamais acaba”. Sendo assim, falar ou escrever sobre pessoas, até mesmo na sequência mítica aqui transcrita, é abordar questões atinentes à genealogia. Cada ponto de um relato desses, por mais insignificante que possa parecer, é fonte riquíssima de informações sobre o ser humano. São trajetórias que carregam verdadeiro tesouro em termos de certos aspectos da vida. E tudo que se refere à vida é extremamente importante e prazeroso.
Voltando à foto acima mais uma vez, na qual aparecem meu filho Joran e meu sobrinho Rodolfo, notamos que apesar de congelada num determinado momento do tempo, ela tem uma dinâmica toda especial, pois continua aberta a questionamentos. Por que estão ali em cima? O que esses dois garotos marotos estão aprontando? Que ocorreu antes de chegarem a essas poderosas e centenárias galhas? De onde vêm e para onde vão? Como vemos, existe toda uma gama de possibilidades por trás dessa cena que faz parte da geração dos dois. Eles são continuidade de seus ancestrais que aí viveram, não em cima desse umbuzeiro, mas na localidade onde a frondosa árvore se situa, justamente em frente à casa onde nasceu seu tio mais velho em 1936, após um parto difícil e doloroso pelo qual passou Maria Laura, avó dos dois.
Eles e nós íamos ao encontro desse tio, agora com residência fixa em Caroalina, pertencente ao município de Sertânia, em Pernambuco, e a alguns quilômetros de distância. Inusitado é que, ao chegarmos, o tio estava trabalhando a alguns quilômetros do povoado, e nós já nos dirigimos para lá a fim de pregar uma peça nele. Joran, gaiato como é, logo criou um novo nome para Rodolfo: a partir dali ele seria Adolpho ‒ assim com ph mesmo e com muita cavernosidade na pronúncia ‒, nosso amigo que nos acompanhava na viagem e que se propôs a dirigir meu carro desde Recife, enquanto o primo vinha “com as viria banida” pilotando sua imensa moto. Ao chegarmos à fazenda, nosso amigo foi logo apresentado com seu nome cavernoso e não houve qualquer reação contrária ao que se planejara. Parece que conseguimos enganar o ilustre personagem. Quase de imediato ele já estava sobre uma potente montaria ‒ como esse rapaz gosta de montar, minha gente! ‒, agora de carne e osso: um belo cavalo devidamente selado. Enquanto a nossa atenção estava voltada para as peripécias do novo cavaleiro, o primo começou a fustigar a fera com vara curta: ‒ “Mas tio Duza, você não reconheceu Rodolfo, filho de tio Reginaldo?” Num passe de mágica, Adolpho se transmudou em Rodolfo. Foi muita anarquia liderada por Joran, rindo com a peça que pregara no tio tão crédulo. Dono do pedaço como sempre foi, não se deu por vencido e retrucou: ‒ “Ele tem os mesmos traços do pai! Parece muito com a família! Eu bem que desconfiei!
Umbuzeiro da Ringideira engalanado para o Carnaval de 2020.

NOTAS


[1] O termo cantilena fastidiosa, ou odiosa, é utilizado por Agostinho de Hipona (354-430, 75 [e aqui vai genealogia]), quando se refere aos estudos em sua época de infância, conforme Confissões I, xiii, 22: “Com efeito, o um e um, dois; dois e dois, quatro, era para mim uma cantilena fastidiosa (odiosa, detestável), e agradabilíssimo o espetáculo da futilidade: o cavalo de madeira cheio de homens armados, o incêndio de Tróia e a sombra de Creusa” (Virgílio, Eneida, II, 772 [iam uero unum et unum duo duo et duo quattuor odiosa cantio mihi erat et dulcissimum spectaculum uanitatis equus ligneus plenus armatis et troiae incendium atque ipsius umbra creusae]).
[2] 1Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; 2homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. 3Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete. 4Depois que gerou a Sete, viveu Adão oitocentos anos; e teve filhos e filhas. 5Os dias todos da vida de Adão foram novecentos e trinta anos; e morreu. 6Sete viveu cento e cinco anos, e gerou a Enos. 7Depois que gerou a Enos, viveu Sete oitocentos e sete anos; e teve filhos e filhas. 8Todos os dias de Sete foram novecentos e doze anos; e morreu. 9Enos viveu noventa anos, e gerou a Cainã. 10Depois que gerou a Cainã, viveu Enos oitocentos e quinze anos; e teve filhos e filhas. 11Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e morreu. 12Cainã viveu setenta anos, e gerou a Maalaleel. 13Depois que gerou a Maalaleel, viveu Cainã oitocentos e quarenta anos; e teve filhos e filhas. 14Todos os dias de Cainã foram novecentos e dez anos; e morreu. 15Maalaleel viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Jerede. 16Depois que gerou a Jerede, viveu Maalaleel oitocentos e trinta anos; e teve filhos e filhas. 17Todos os dias de Maalaleel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e morreu. 18Jerede viveu cento e sessenta e dois anos, e gerou a Enoque. 19Depois que gerou a Enoque, viveu Jerede oitocentos anos; e teve filhos e filhas. 20Todos os dias de Jerede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu. 21Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Metusalém. 22Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. 23Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. 24Andou Enoque com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si. 25Metusalém viveu cento e oitenta e sete anos, e gerou a Lameque. 26Depois que gerou a Lameque, viveu Metusalém setecentos e oitenta e dois anos, e teve filhos e filhas. 27Todos os dias de Metusalém foram novecentos e sessenta e nove anos; e morreu. 28Lameque viveu cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho; 29pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos, e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou. 30Depois que gerou a Noé, viveu Lameque quinhentos e noventa e cinco anos; e teve filhos e filhas. 31Todos os dias de Lameque foram setecentos e setenta e sete anos; e morreu. 32Era Noé da idade de quinhentos anos, e gerou a Sem, Cam e Jafé.   




terça-feira, 31 de março de 2020

LOIDIMAR, O HOMEM FELIZ


Flores de Campina Grande saúdam Loidimar, o homem feliz

Renivaldo Rufino
Recife-PE, Campina Grande-PB, 31/12/2019
Venho pesquisando e trabalhando, há mais de vinte anos, em torno da genealogia dos meus ancestrais e descendentes. É uma tarefa complexa, difícil, às vezes solitária às vezes não, porém extremamente prazerosa. Quando me debruço sobre este tema, estou em contato direto com a vida e com a riqueza de trajetórias que estão ligadas a mim para sempre.
Meu querido amigo Loidimar ‒ contemplado agora com o eterno presente ‒ é uma daquelas pessoas privilegiadas, pois possui admirável genealogia, haja vista já estar entrando na quarta geração. Trata-se de um bem material e espiritual que poucos têm acesso. Filhas e filhos, netos e netas são uma riqueza inestimável. Somente quando me tornei avô pela primeira vez é que entendi que a natureza se equivocou comigo, pois eu deveria ter sido primeiro avô e, só depois, pai. Nem consigo imaginar como me sentiria sabendo que seria bisavô. Falar sobre Loidimar, então, é falar sobre tudo isso e muito mais.
Sua trajetória é digna da imortalidade dos imortais. Tive imensa alegria de participar do momento quando ele se entregou aos cuidados de Jesus Cristo, juntamente com Vanda, e se filiou à Primeira Igreja Batista de Campina Grande, da qual eu também era membro. Ainda jovem, ousou dar continuidade ao desafiador projeto, e foi ao Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife, na busca de preparo para o ministério cristão. De lá, sempre acompanhado de sua inseparável companheira e de sua prole, pastoreou igrejas em pelo menos três estados brasileiros: Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte. Imbuído de muita determinação e coragem, jamais fraquejou diante das demandas ministeriais e do digno sustento de sua família.
Sua filha, filhos, netas e netos, herdaram de sua personalidade e do seu jeito amigo, espirituoso, brincalhão, solícito e afetuoso para com as pessoas achegadas a sua amizade. Agora no dia 28 de dezembro, mesmo com o pai internado em estado grave, Vallone me encaminhou uma tocante mensagem, dizendo: “Aprendemos com ele a amar cada um de vocês”. De fato, são imagem e semelhança tanto dele quanto dela. Nesses quase cinquenta anos de amizade, sempre fui recebido com muito carinho, respeito e atenção cada vez que os visitei.
O pastor Loidimar sempre foi um amante de livros, poesia, leitura e até de filosofia. Na minha última passagem pela sua casa, enquanto eu almoçava fora do horário corriqueiro, tive a grande alegria de contar com a presença à mesa não apenas dele, mas também de Vanda e Vítor. Conversamos e rimos bastante e, a determinado momento, repassei alguns opúsculos de minha autoria. Um deles, de filosofia, tratava da noção de verbo em Agostinho de Hipona. Disse-lhes que aquele certamente não lhes interessaria. Mas ele nem esperou que eu terminasse, e já foi dizendo: “Pode deixar, porque me interessa, sim!” Adquiri, recentemente, um livro muito bom e elucidativo sobre “A palavra de Deus na palavra humana: gênero, preconceito e tradução da Bíblia à luz da linguística”, e iria postar para ele na próxima semana. Esse foi um dos assuntos da nossa última conversa por telefone. Este livro ficará, agora, como herança aos seus descendentes, amantes também da boa leitura.  
Lembro-me que Loidimar disse, certa vez, referindo-se a José Britto Barros: “Pastor Britto pertence a uma raça de pregadores em extinção”. Anotei sua luminosa ideia quando pesquisava, durante o mestrado em teologia, para elaborar monografia sobre o trabalho homilético do pastor Britto. Agora digo eu, como que fazendo uma paráfrase a sua afirmativa: José Loidimar Cavalcanti pertence a uma raça de seres humanos em extinção. Uma raça, todavia, que será muito bem representada em Vanda e naqueles e naquelas que descenderam dele e dela.
Para encerrar, gostaria de fazer uma das coisas que Loidimar mais gostava de fazer, e com isso expressar minha mais sincera gratidão e homenagem ao meu grande e querido amigo. Esse dia trinta de dezembro marca o quadragésimo aniversário de morte do poeta pernambucano Ulysses Lins, também escritor e memorialista, considerado um dos mestres do Moxotó, além de Trovador do Sertão e Patriarca da Literatura Sertaneja. Além disso, ocupou a cadeira número um da Academia Pernambucana de Letras e representou Pernambuco na Federação das Academias de Letras do Brasil. Foi ele ‒ e só agora eu soube disso ‒, que sugeriu o nome de Sertânia para o então município de Alagoa de Baixo, cidade onde nasci. Sua poesia é a cara de Loidimar, é a nossa cara nordestina:

Madrugada Sertaneja

(1) Nada mais belo eu conheço/ Que a loira madrugada / Que ao canto da passarada / Vem acordar o sertão / Que lindo o quebrar da barra / Quando aos poucos suavemente / As cortinas do Oriente / Para o céu subindo vão

(2) E quando por trás da serra / Prateada a lua aparece / E ao Sul o Cruzeiro desce / Fazendo o pelo-sinal / Ao fulgor d’uma Estrela d’Alva / E ao som dos mais doces cantos / O Sertão goza os encantos / De uma Aurora Boreal

(3) O xexéu-clarim das matas / Solta o grito alvissareiro / Canta o galo no poleiro / Ao longe chora a acauã / O campo é todo uma orquestra / Tudo respira a poesia / É toda incenso e magia / A natureza pagã

(4) Mugem as vacas saudosas / Balem nos apriscos as ovelhas / Zumbem pelo ar as abelhas / Grita alegre o bem-te-vi / Além canta a seriema / Gorjeia o concriz em festa / E no seio da floresta / Geme oculta a juriti

(5) Meu Sertão quanta saudade / Dos áureos tempos da infância / Quando eu recordo com ânsia / Aquela quadra louçã / Em que feliz no teu seio / Admirava inocente / Tua beleza esplendente / Nos prelúdios da manhã

(6) Ah esquecer é impossível / O cheiro das madrugadas / Quando à noite as trovoadas / Te lavavam todo o chão / Como esquecer-te eu não posso / Por mais longe que estivesse / Porque de ti não se esquece / Quem veio à luz no Sertão

LOIDIMAR E VANDA SE ETERNIZAM NA FILHA E NOS FILHOS

José Loidimar Cavalcanti (13/09/1945-30/12/2019, 74) e Vanda Batista Cavalcanti (06/12/1940) geraram1. Valéria Batista Cavalcanti (12/04/1967) / 2. Vallone Batista Cavalcanti (31/08/1969) / 3. Vandimar Batista Cavalcanti (14/02/1973) / 4. Vladimir Batista Cavalcanti (23/02/1975) / 5. Vítor Hugo Batista Cavalcanti (09/06/1982) / Data do casamento: 04/02 (civil) e 05/03/1966 (religioso) / Oficiante: Padre José Bonifácio

LOIDIMAR E VANDA SE ETERNIZAM NAS NETAS E NOS NETOS

1. Valéria Batista Cavalcanti Cordeiro (12/04/1967) Bento de Sousa Cordeiro (22/10/1964) geraram1.1. Gabriela Batista Cavalcanti Cordeiro (10/09/1993) / 1.2. José Matheus Cordeiro Neto (02/08/1996) / 1.3. Valesca Caroline Cavalcanti Cordeiro (05/06/1998) / 1.4. Raissa Batista Cavalcanti Cordeiro (20/03/2003) / Data do casamento: 09/07/1989 / Oficiantes: Pastores José Loidimar Cavalcanti e José Renivaldo Rufino

2. Vallone Batista Cavalcanti (31/08/1969) Suely Matos Cavalcanti (30/01/1968) geraram2.1. Felipe Matos Cavalcanti (20/03/1990) / 2.2.  Ana Caroline Matos Cavalcanti (08/11/1991) / Data do casamento: 04/02/1989 / Oficiante: Pastor José Loidimar Cavalcanti

3. Vandimar Batista Cavalcanti (14/02/1973) Rossandra Kerli Farias Cavalcanti (23/07/1973) geraram3.1. Danilo Cavalcanti (08/04/1997) / 3.2. Rebeca Cavalcanti (21/09/1998) / Data do casamento: 01/10/1996 / Oficiantes: Pastores José Loidimar Cavalcanti, Sebastião Tavares da Silva Sobrinho, José Renivaldo Rufino e Armando Torres 

4. Vladimir Batista Cavalcanti (23/02/1975) Ana Maria Gomes da Silva Cavalcanti (15/02/1975) geraram4.1. Marie Anne Gomes Cavalcanti (17/08/1994) / 4.2. Camila Gomes Cavalcanti (08/10/1996) / 4.3. Giovanna Gomes Cavalcanti (12/03/2000) / Data do casamento: 16/04/1997 / Oficiante: Pastor José Loidimar Cavalcanti

5. Vítor Hugo Batista Cavalcanti (09/06/1982) e Jean Karla Padilha Cavalcanti (19/09/1984) geraram5.1. Jasmim Padilha Cavalcanti (18/11/2013) / 5.2. Nicolas Padilha Cavalcanti (31/08/2020) / Data do casamento: 12/04/2012 / Oficiantes: Pastores José Loidimar Cavalcanti e Evandi Ferreira Monteiro

LOIDIMAR E VANDA SE ETERNIZAM NAS BISNETAS E NOS BISNETOS

2.2.  Ana Caroline Matos Cavalcanti Silva (08/11/1991) Carlos Antônio Gomes da Silva Filho (22/08/1994) geraram2.2.1. Ana Lara Cavalcanti Silva (08/07/2020) / Data do casamento: 08/12/2018 / Oficiante: Pastor José Loidimar Cavalcanti

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AMIGO MAIS CHEGADO QUE IRMÃO

16 e 31/03/2020
Existe amigo mais chegado que irmão e irmão tão chegado quanto esse tipo de amigo. Quando penso em Loidimar, logo me vem à mente essa sagrada amizade que nos uniu desde o início e que se estendeu aos demais familiares até os dias de hoje.
Dia 03 de setembro de 1972 ele e Vanda foram batizados pelo pastor José Ednaldo Cavalcanti e se tornaram membros da Primeira Igreja Batista de Campina Grande. Foi imenso o meu privilégio em anotar seus nomes após a decisão pública e também assinar seus certificados de batismo. Começava, ali, uma amizade que se perpetuaria. Na época, Vanda estava grávida de Vandimar. Valéria tinha quatro anos e Vallone três.
As grandes amizades são alicerçadas sobre pequenas coisas. Foi assim que aconteceu conosco desde o início. Confiança e reciprocidade foram peças chaves nessa construção. Durante todos esses anos estivemos juntos, mesmo que distantes fisicamente, pois sempre mantivemos contato. Boqueirão, Santa Rita, Parnamirim e Tibiri foram paradas obrigatórias, sobretudo em períodos de férias. Chegar à casa deles, sozinho ou com Cosma, Joran e Raquel, era chegar a minha própria casa. Jamais mediram esforços para nos oferecer o melhor. Nossas conversas sempre foram regadas a muitas risadas, camaradagem e seriedade, assim como ocorre entre amigos mais chegados que irmãos.      
A amizade inclusiva é outro segredo da durabilidade dessa nobre virtude. Vanda e Loidimar espalharam a luz de suas vidas nas vidas ao seu redor a tal ponto, que não faz diferença alguma a consideração e apreço que emana de cada pessoa dessa rica geração. O contato com qualquer uma delas é como se fora o contato com o próprio casal. A solicitude, atenção, carinho e simpatia são uma herança comum entre eles e elas. Ser afável não é exceção, é regra exposta, porém não imposta. Basta dizer que, graças a essa inclusão e à atenção de uma dessas pessoas, Suely, descobri a grafia correta do nome de Vallone, imprescindível no caso dos registros genealógicos. São essas coisas aparentemente pequenas que validam atitudes que passariam despercebidas.
Alguém pediu cópia da minha fala dolorosa do dia 31 de dezembro ‒ cujo original repassei para a família ‒, mas minha intenção era publicar somente quando desse o ponta pé inicial no registro dessa geração memorável. Vanda já me falara do projeto. Decidi fazer o registro, até mesmo como surpresa, o que somente hoje se concretizou com a informação do último dado de que necessitava. Espero que seja um estímulo para que se dê continuidade, quer com a posteridade quer com a ancestralidade. É uma construção que vale a pena pelo seu efeito, inspiração, riqueza. Cada nome é fonte de histórias vitais e infindáveis, não importando a idade. Ao pinçar pequenos acontecimentos dessas trajetórias, temos registros que valem a pena serem autenticados na história da família. O mais recente foi apontado por Suely, justamente nesse 31 de março de 2020: ela e Vallone casaram em 04.02.1989, Vanda e Loidimar casaram no civil também em 04.02, porém 23 anos antes, isto é, em 1966.  
As crianças que darão o ar de sua graça até “quando” o próximo mês de “setembro vier”, representam o fluxo vivo da geração em constante dinâmica. Elas têm muito que nos ensinar, mesmo na vida intrauterina, pelo menos em termos filosóficos. Por isso mesmo, concluo esse adendo com duas pequenas citações do filósofo que estudo há anos e que frisam o valor da criança e das pequenas coisas. Confissões I, vi, 8 e XI, xxiii, 29: “Assim são as crianças, como depois pude observar. Sem saber, elas me informaram mais daquilo que eu tinha sido, do que o saber dos meus educadores”; “Ó Deus, concede aos homens a possibilidade de observarem nas coisas pequenas as noções comuns às pequenas e às grandes coisas”. 

sábado, 4 de janeiro de 2020

EMOÇÕES À FLOR DA PELE

Loidimar, Vanda, Vallone e Suely durante visita que nos fez.



EMOÇÕES À FLOR DA PELE

Renivaldo Rufino
04.i.2020

Eu sou um verdadeiro vulcão de emoções. Venho descobrindo isso já há algum tempo. No próximo mês de março completarei não apenas meu septuagésimo quarto aniversário, mas o vigésimo sétimo ano que estou afastado do púlpito e, portanto, do discurso público. É claro que, quando terminei o doutorado em janeiro de 2011, tive uma rápida experiência de discurso como professor universitário, isso até 2013, o que parece que assanhou ainda mais esse vulcão interior.
O primeiro vexame que passei foi quando Bela, minha nora, com seu jeito doce e amável, desafiou-me a dar uma palavra na celebração do seu casamento com Joran. Aceitei, depois de muita relutância e de muita luta comigo mesmo. E, para ficar seguro, caso fosse surpreendido com o borbulhar das lavas incandescentes em forma de lágrimas, resolvi escrever o que pretendia falar. E foi assim que nasceu “o todo homogêneo”, que se encontra disponível no meu Blog, graças à prestimosa ajuda de Marcos Monteiro, a quem conheço desde 1975, quando começamos nosso curso no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. São quarenta e quatro anos de sólida amizade.
Pois bem, quando fui dar minha palavra na linda festa de Bela e Joran, a terra do meu corpo começou a estremecer de maneira violenta, e a vermelhidão do fogaréu deu sinal vital. Respirei fundo, como sempre aconselha meu filho Joran, temperei a garganta, disfarcei de alguma maneira, remexi a terra pra lá e pra cá, tentei ficar mais aprumado, e as lavas foram sendo empurradas de novo lá para o íntimo do meu íntimo, para o fundo mais profundo da terra que sou eu. Só então consegui chegar ao fim da última sílaba daquela minha curta fala pública.  Eu sabia, entretanto, que as lavas continuavam em ebulição lá no meu interior, como se fossem ondas revoltas do mar que são jogadas com ímpeto em todas as direções.
Muito tempo depois, eis que Marcos Monteiro me desafia para apresentar uma palavra no segundo encontro do Cafezinho Curviana, aqui em Recife. Pensei em dissertar sobre “as falas das minhas netas e do meu neto e a questão da linguagem em Agostinho de Hipona”, seguindo mais ou menos ideias que trabalhara na minha tese de doutoramento. E lá fui eu, todo feliz, com minhas anotações sobre o tema proposto.
Entre as pessoas presentes ao Cafezinho, lá estavam Joran e Bela, um caríssimo amigo dos tempos do mestrado em filosofia na Federal de Pernambuco, outro grande camarada e poeta, uma ex-aluna dos meus tempos de professor em 2012, uma ex-ovelha da minha época na Primeira Igreja Batista de Beberibe, o próprio Marcos Monteiro, e mais algumas pessoas. Quando assumi a tribuna sagrada, ou seja, a própria cadeira onde estava sentado naquele círculo de pessoas tão queridas, senti, de novo, o abalo sísmico. Parei, respirei fundo, até mesmo aconselhado por Joran, que estava ao meu lado, remexi a terra do meu corpo na cadeira, evitei olhar para as pessoas, mas não teve jeito que desse jeito, pois o gigante acordara furioso e queria expelir fogo para todos os lados, sem dó e sem piedade. Fiquei quieto durante o tempo suficiente para o magma vulcânico parar de escorrer em meu rosto na forma de lágrimas. As lágrimas eram furtivas e quase imperceptíveis, mas o barulho do abalo deixava tudo muito claro: o vulcão das emoções tentava entrar em plena erupção. Tentei administrar como pude, mas o desastre ecológico-corpóreo irrompia cada vez com maior força. E assim foi até mais da metade do texto, composto de cerca de oito páginas, até que cheguei ao fim, são e salvo daquela aparente catástrofe.
E eis que agora, bem no finalzinho de 2019, o animal natural deu o ar de sua graça mais uma vez, chegando quase ao ponto de provocar uma desgraça. Desejei expressar minha palavra de gratidão, carinho, afeto e celebração, na cerimônia fúnebre do querido amigo pastor Loidimar, cuja amizade já dura quase cinquenta anos. Viajei a Campina Grande no dia 31 de dezembro, pela manhã, hospedei-me na casa de minha irmã, e chegamos ao local um pouco depois das quinze horas. O verde lençol de grama que se estende para todos os lados e a paz que reina naquele ambiente acolhedor, traziam à minha mente a lembrança dos pastos verdejantes do salmo vinte e três. Tudo contribuía para me encorajar e me levar a pensar que meu vulcão interior se comportaria naquela ambiência de paz.
Logo ao chegar, fui encorajado pela alegria de reencontrar Walkíria, a quem não via há cerca de quarenta anos, e nossa conversa me reanimou muito mais, pois sofri bastante durante a viagem entre Recife e Campina Grande, como venho sofrendo desde o momento quando soube da morte do querido amigo. Ao falar com Vandimar, que se encontrava do lado de fora, senti o primeiro abalo e notei que o gigante como que bocejava para acordar. Disse-me ele que eu poderia entrar no local da cerimônia, pois Valone me concederia a palavra.
Ao entrar no espaçoso local onde acontecia a cerimônia, deparei-me com o pastor João Félix, grande amigo dos bons tempos da Jubaíba ‒ Juventude Batista da Paraíba ‒, que, ao me abraçar, sussurrou: “Quando soube da morte de Loidimar, pensei logo em você”. “Grande perda”, disse-lhe eu. Porém, assim que o pastor Valone me chamou pelo nome, eu nem sei como consegui chegar lá onde ele estava junto aos demais pastores, pois minhas emoções pareciam sair pelos poros e se espalharem por toda superfície tátil do meu corpo.
Minha alma estremeceu e meu corpo cedeu diante do comando mais forte que ele, enquanto eu tentava, inutilmente, arrefecer o efeito que me impedia de começar a falar a partir do texto. Até que consegui citar o título: Loidimar, o homem feliz. Grito e emoção ecoaram naquele momento, e quase não tive condições de continuar. O primeiro parágrafo foi titubeante, entre choro contido e lágrimas que teimavam em banhar meu rosto. Dali em diante, consegui alcançar meu objetivo, indo aos poucos, com cautela, muito cuidado, tentando respirar profundamente, ao mesmo tempo em que pensava na profundidade da amizade que me une ao querido amigo, que agora faz parte do eterno presente. Cheguei ao fim de minha fala e ao sossego das emoções, que representam apenas uma pequena parcela da gratidão, homenagem e celebração que ele e seus familiares merecem. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

CAROALINA EM FESTA

Cena de final de tarde nas proximidades de Caroalina

Renivaldo Rufino
A tarde declinava naquela ambiência de sonho e emoções. Em breve, o Sol desapareceria no horizonte, deixando um rastro cor de sangue, como costuma ocorrer tantas vezes no pôr-do-sol em Caroalina.
Era dia de festa e o vilarejo estava em rebuliço, feito um vulcão em erupção. A multidão enchia ruas e calçadas. E nós três, ainda parentes pela ramificação dos Freire, ocupávamos espaço no meio do burburinho: Mariêta, sua filha Raquel, e eu. Na barraca onde nos encontrávamos reinava completa paz, silêncio e sossego. Parecia outro mundo. A poucos palmos de nós, fazendo parte do mesmo ambiente tranquilo,  percebi a presença de duas pessoas queridas e ilustres: seu João Cabrinha e Rubina, pai e mãe de Mariêta, avô e avó de Raquel. Observei, ainda, que conservavam as mesmas feições e características dos tempos em que os conheci, no início dos anos 1960. Rubina se caracterizava, como sempre, pela sua simpatia e seu jeito amável, doce e afável. Seu João, entre nós três e Rubina, estava entretido comendo alguma coisa, de perfil para mim.
Outros momentos poderiam ter vindo à minha mente naquela ocasião tão cheia de doces recordações. Como, por exemplo, o jeito fino e educado como seu João Cabrinha recebia cada pessoa que frequentava sua aconchegante casa, onde mantinha uma pequena venda de secos e molhados, também conhecida pelo nome de bodega. De todo o sortimento, o que mais me atraía eram duas coisas que eu adorava: bolacha comum e bolacha canela. Eram enormes e muito saborosas. Ainda hoje, na senectude, encontro sabores similares: no Biscoito Água e Sal 3 de Maio, que adquiro no Supermercado Açaí, em Serra Talhada, e também em Campina Grande, que é oriundo de Belém, pequena cidade paraibana que fica a cerca de 90km da Capital da Borborema. A bolacha canela veio a mim assim de repente e surpreendentemente. Em uma de minhas idas ao Derby Center, para encontrar dois colegas, deparei-me com a bolacha canela na Padaria Delicatessen, fundada em 1941. Degustei à vontade e até comprei para presentear, até que a Nutricionista me orientou a parar, por conta da taxa de glicose.
De maneira amorosa, como se fora um verdadeiro pai, seu João tratava o adolescente que eu era como meu filho. Lembro, ainda, a última vez que o vi. Eu retornava de Caroalina com destino a Recife e estava sozinho no carro. Nas imediações da Baixa Funda eu o avistei de longe. De chapéu de palha, por conta da inclemência dos raios solares, olhou em direção ao veículo, quando parei bem próximo para falar com ele pela derradeira vez. Eu nem cheguei a sair do carro. Dirigi-lhe meus mais cordiais cumprimentos e ele me perguntou por que não o visitei. Disse-lhe que não tivera tempo. E ele, com educação e cortesia, dirigiu-se a mim em forma de exclamação: Meu filho! E estas foram as últimas palavras que ouvi da sua boca. Em seguida, despedi-me e saí de estrada a fora com o suave timbre de sua voz ecoando nos meus ouvidos, como continua ecoando até hoje.
Outras lembranças afloram da minha mente. Em uma delas, vejo Mariêta, com seu ar de tranquilidade e igualmente com muita educação e carinho, ao receber os clientes e atendê-los com presteza e atenção. Tantos anos depois, ainda guardo aquela imagem com extrema nitidez. Recordo, também, sua irmã Júlia, de quem ainda conservo uma foto com dedicatória, com o mesmo tipo de herança genética e de boas maneiras que recebeu de seu João e de Rubina. E como esquecer Bonifácio, nos dias de sua adolescência? Ainda mantenho em meus arquivos, aquela foto que tiramos juntos, à sombra de um pé de agalha que ficava nas imediações de sua casa, em que faziam parte da cena, além de nós dois, Bartolomeu, Marina e minha irmã Luza (Luzia). E o que dizer dos banhos domingueiros nas escassas águas do Rio Moxotó? Nesses momentos de folguedo, ainda contávamos com a presença dos ilustres e inesquecíveis Rui e Gonzaga. Uma das coisas que mais me impressionava, entretanto, era que essa trindade santa, formada por Mariêta, Júlia e Bonifácio, filhas e filho de seu João Cabrinha e Rubina, mantinha as mesmas características fisionômicas do pai e da mãe, sendo que, a meu ver, puxando mais para o lado dele.
E o que mais posso retirar dos palácios da minha memória? São tantas e tantas coisas, que o espaço é insuficiente para conter, assim como os recursos oriundos da linguagem são pobres para expressar. Aflora a minha mente um almoço ao qual fomos convidados. O sabor da comida era uma delícia para qualquer paladar, por mais exigente que fosse. E, entre os quitutes, carneiro e galinha guisada, além da sobremesa de doce de mamão digno da mesa dos deuses. Jamais posso esquecer, também, que meu pai e minha mãe um dia convidaram João e Rubina para serem padrinho e madrinha de um de seus filhos. Ao aceitarem, não só demonstraram atenção, carinho e amizade, mas também a prontidão de ficarem unidos pelos laços inquebrantáveis do batismo cristão. Ainda me causa profunda emoção trazer à tela cinematográfica de minha mente, a cena de meu pai conversando, amigável e demoradamente, com seu João Cabrinha e seu Luiz Cabrinha, todos sentados à calçada da bodega de minha predileção. Seu Luiz e dona Nazinha eram padrinho e madrinha de outro filho de Nicoláu Rufino e Maria Freire. Essa relação de respeito mútuo e comprometimento durou enquanto duraram suas vidas.            
Voltemos, agora, ao dia de sonho e emoções na ambiência de harmonia e paz, com Caroalina em festa. E eis que se ouve, de repente, o barulho ensurdecedor de um jatinho supersônico que rasga os céus do povoado e deixa todas as pessoas em alvoroço. Observei que a aeronave voava quase rente ao telhado das casas. Ainda pensei que ela iria cair em meio ao vilarejo, o que seria fatal para tantas pessoas que lá se encontravam. Ao perder altura, chocou-se ao solo e se transformou em uma bola de fogo de proporções gigantescas.
A correria foi geral. Eu me dirigi rapidamente à casa de Zé Izidoro, irmão de Rubina, onde turistas estavam hospedados, mas não entrei. Logo em seguida eu me encaminhei na direção do acidente e fui acompanhado pelas pessoas que estavam na casa. Para nossa surpresa, outro jatinho supersônico rasga os céus, também em voo rasante sobre Caroalina. Tudo indicava que iria cair, mas não caiu. Passou pelo local onde o outro aparelho estava em chamas, lá depois das Casas Velhas, e tomou o rumo da BR, como que para avisar do desastre ocorrido. E nesse ponto, a festa acabou.

Sonho de uma noite de verão
Recife-PE, 11.xi.2019


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O TODO HOMOGÊNEO

Joran, Bela e Nicolas

Renivaldo Rufino

Hoje é dia de celebração e de imensa alegria. Hoje é dia de banquete comemorativo em nome do amor. Mas o que é o amor? Será um mero conceito vazio de significado? De fato, o amor como conceito não subsistiria se não fosse personificado como ocorre na expressiva relação Isabela/Joran, Joran/Isabela. O amor só existe porque existem pessoas que se amam.
A pergunta acima – o que é o amor? – foi feita há mais de 2.417 anos, também em um banquete, onde os convivas celebravam o amor através de quitutes e discursos, belos discursos. A certa altura do simpósio um dos presentes diz que “Amar é gerar na Beleza, ou segundo o corpo, ou segundo o espírito”. Diz ainda que “a beleza é a parteira da geração. Por esse motivo, sempre que o poder fecundante se aproxima do que é belo, fica jovial e expansivo no seu regozijo, e concebe e procria”. Para fechar ainda mais o seu discurso, complementa: “Existe uma teoria segundo a qual amar é procurar a outra metade de si mesmo. Porém, o que minha teoria afirma é que amar não será a procura da metade nem do todo, se essa metade e esse todo não forem bons”.
Segundo a narrativa mítica grega, a natureza originária do ser humano formava um todo homogêneo, que foi cindido ao meio e resultou, a partir de então, na busca incessante e desesperada por aquilo que um dia foi esse todo homogêneo. Segundo o autor do discurso, portanto, só existe uma resposta possível à pergunta acima – o que é o amor? –: o amor é a busca do todo homogêneo. A realização plena do amor somente é possível no encontro definitivo com esse todo homogêneo. De fato, se somos seres cindidos, divididos, buscamos sempre a cura dessa cisão. Cura que só ocorrerá através do amor, da beleza e do bem.
Se amar é gerar na beleza e se a beleza é a parteira da geração, resulta daí que é por meio da procriação que os mortais participam da eternidade e da imortalidade, pois o desejo da imortalidade está necessariamente ligado ao bem, visto dirigir-se o Amor para a posse perpétua do bem. A conclusão forçosa desse argumento é que o amor é também o anseio de imortalidade e, portanto, de felicidade. Essa mesma felicidade que pelo Amor circunda e perpassa as vidas de Joran e Isabela.
Chegou agora o momento da solenidade da bênção. Lanço minha tríplice bênção sobre Isabela e Joran, com a imposição de minha mão e das mãos de todos os presentes a esta cerimônia:
* a bênção da unidade na multiplicidade, com respeito, liberdade, ação e paz;
* a bênção da fecundidade no amor, com compreensão, reciprocidade, renovado encantamento e cumplicidade;
* a bênção da longevidade, para que juntos como um todo homogêneo vocês se alegrem com as gerações que procederão dessa criativa e permanente união.