domingo, 6 de junho de 2021

A JUBAÍBA NOS CONGRESSOS E CONVENÇÕES

 


Foto 1 ‒ Julho de 1974: Parte da Jubaíba no X Congresso da Juventude Batista Brasileira. Eles, da direita para a esquerda: Gustavo Faustino, Eli Fernandes, Paulo Faustino, os irmãos Eliam e Joseli Bastos, e Alan; elas, no mesmo sentido: Creuza Silva, Elisete, Kátia (quem se lembra do nome da de vestido branco?), Ione (prima de Neide de Estêvam), Alzicleide Florêncio, Elzeni Fernandes (irmã carnal de Eli) e Nancy. As meninas, a partir de Kátia, foram identificadas na sexta-feira santa, 02/04/2021, graças à colaboração de Joseli.

 

 

A JUBAÍBA NOS CONGRESSOS E CONVENÇÕES [i]

enivaldo ufino

INTRODUÇÃO

Desde o surgimento, em 1972 ‒ e até 1976 ‒, a Juventude Batista da Paraíba participou de vários congressos e convenções. Quer dizer, inseriu-se responsavelmente nas atividades da denominação batista da qual era parte integrante. O primeiro encontro foi em Recife, onde nasceram a ideia e a sigla da organização. O segundo foi marcado pelas lágrimas de Eliezer, conforme já publicado neste Blog. O terceiro foi também em Recife, cuja publicação saiu estampada em três números d’O Jornal Batista [ii]. O quarto foi em Fortaleza, com publicação no mesmo jornal [iii], e com uma ocorrência que abalou o conceito que a Jubaíba construíra até então. O quinto foi novamente em Recife, com publicação no mesmo periódico [iv]. O sexto foi em João Pessoa, por ocasião de uma reunião da Convenção Batista Paraibana, cujo único registro que existe, além do primeiro livro de Atas ‒ que ainda não foi localizado ‒, são fotos que constam do Álbum Histórico da Jubaíba, organizado pelo autor e que hoje se encontra sob seus cuidados. Finalmente, o sétimo foi em Teresina, quando o calor quase derrete os congressistas.

A maioria desses encontros representava sempre um grande desafio. Parte da juventude precisava se deslocar da Paraíba para algum outro Estado, a fim de participar daquilo que eram os colossais ajuntamentos de jovens batistas. E tudo isso ocorreu em plena ditadura militar que, felizmente, em nada afetou o brilho desses inesquecíveis momentos. O que fica difícil de explicar, é que parte da liderança batista estava alinhada com o novo regime, apesar de os batistas terem a prática da democracia como fundamento. 

1. UMA IDEIA LUMINOSA

Primeiro momento

Recife, PE, 1969, 1º Conordeste.

O 1º Congresso da Juventude Batista do Nordeste aconteceu na cidade de Recife, em 1969. A Jubaíba compareceu apenas potencialmente, pois ainda não existia como organização. Foi ali, em meio à efervescência de tantas e tantos jovens congregados em um mesmo lugar, que nasceu a ideia. A sigla, que agradou em cheio, surgiu da iluminada inteligência do colaborador e inesquecível jubaibano, José Ferreira Vaz (04/10/1938-17/02/1976, 37). Mais tarde, na escolha do símbolo para representar a organização, ele desfilaria com uma das camisas com desenho concorrente. Diante do nome que nasceu em Recife e que mais tarde se tornaria conhecido de outras juventudes estaduais, alguém chegou a fazer uma brincadeira engraçada e profética, em linguagem tipicamente nordestina, dizendo que a parte final da sigla da Jubaíba significava “Pra riba”. Zé Vaz, criador da sigla, era aquele tipo de pessoa com quem a gente se sentia bem. De voz mansa, conversa agradável, muito simpático e controlado em termos de expressão verbal e de atitudes, ele era mais de colaborar do que de falar, apesar de sua experiência como professor. Sendo assim, a Jubaíba nasceu de uma fonte puríssima e mui capacitada para esse tipo de coisa. Aquilo que era apenas potencial daria os primeiros passos na direção de se tornar atual. A fecundação e início da gravidez ocorreu ali, até que a gestação se completasse com o gesto corajoso e destemido de Eliezer, que chegou até às lágrimas para que a Jubaíba irrompesse a placenta e desse o ar de sua graça, mudando completamente o perfil da Juventude Batista da Paraíba que, como instituição, capengava até aquele momento histórico, conforme ficou claro no artigo, também publicado neste Blog, Jubaíba nasceu entre lágrimas.

São poucas as lembranças que restam daqueles dias, e nenhum registro em fotos. O congresso foi realizado no suntuoso templo da Igreja Batista da Capunga, localizado no complexo batista que conta, ainda, com o Colégio Americano, o Seminário Batista e o então Seminário de Educadoras Cristãs. É um local privilegiado, que fica bem no olho da cidade de Recife, e que foi adquirido no início dos anos 1900, graças à visão estratégica, à garra e suporte financeiro de líderes norte-americanos.

Uma das coisas que guardo com muito carinho, quanto ao 1º Conordeste, é que aquela foi a primeira vez que vi e ouvi o pastor José Britto Barros, um dos oradores do congresso, de quem já ouvira referências elogiosas. Quando pregou na Igreja Batista de Casa Amarela, pastoreada por Merval Rosa, lá fui eu acompanhando ex-ovelhas suas do primeiro pastorado em Campina Grande. Lembro-me, ainda, das ovelhas que participaram do culto na manhã daquele domingo: Ritinha, Maria José, Marly, Joabe e Sônia, pessoas integradas nas atividades da igreja local.  

2. LÁGRIMAS QUE SÃO COMO SEMENTES

Segundo momento

a Convenção Estadual e o choro de Eliezer.

Talvez Eliezer nem tenha sido presença solitária na convenção estadual que dificultou o sonho de levar avante o nome da ainda inexistente Jubaíba. Certamente havia outros jovens, inclusive um e outro pastor que apoiava o movimento. Bem que ele merecia uma presença solidária, que lhe desse apoio, que lhe desse a mão naquele momento de impasse diante do seu desafio lançado à liderança da denominação, cuja intenção era apenas criar uma organização que fosse representativa da juventude, depois de mais de cinquenta anos de presença dos batistas na Paraíba. Foi seu destemor, determinação e argumentação que atingiram o alvo e conseguiram o que parecia impossível naquele momento. Esse tipo de teimosia e resistência sempre ultrapassam obstáculos, por maiores que sejam. Parece até, inclusive, que a organização herdou essa marca característica do seu fundador. E o choro se transformou em imensa alegria, que inundou todos os corações com a auspiciosa legitimação há tanto tempo esperada. Se alguém saiu vitorioso daquela assembleia convencional, esse alguém foi Eliezer Lourenço da Silva, numa vitória que se estenderia aos demais que o apoiaram até aquela ocasião e, finalmente, à própria juventude espalhada pelas igrejas batistas da Paraíba.

3. UM NOVATO E POUCOS JUBAIBANOS NA CBB

Terceiro momento

Recife, PE, CBB, de 24 a 31 de janeiro de 1973.

Por ocasião da 55ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira, que ocorreu em Recife, José Ednaldo Cavalcanti já pastoreava a Primeira Igreja Batista de Campina Grande. Uma vez que era oriundo do Rio de Janeiro, tinha livre trânsito entre a liderança batista brasileira, sendo inclusive amigo de Reis Pereira, Diretor d’O Jornal Batista, a quem convidou para pregar em Campina Grande no domingo. A longa viagem, de 253 km, em nada desanimou a caravana que acompanhou o pregador ao Planalto da Borborema. Foi um domingo diferente, ouvindo José dos Reis Pereira, um dos grandes baluartes dos batistas brasileiros. Retornamos na segunda-feira de manhã, para marcar presença nos trabalhos convencionais que teriam continuidade até a quarta-feira 31 de janeiro de 1973.

A Jubaíba já existia, porém não esteve representada naquela ocasião por uma caravana. Alguns componentes estiveram presentes, inclusive o autor destas notas e o então presidente. O artigo sobre o encontro, intitulado Anotações convencionais de um novato, foi aceito e publicado pelo jornal durante três semanas seguidas. Eliezer esteve presente, já como primeiro presidente. Existe menção a ele em relação a Uirassú Tupinambá, responsável por uma das juntas da convenção. Até o último dia, pelo menos um jubaibano estava registrando praticamente tudo daquele encontro máximo dos batistas brasileiros, inclusive alguns detalhes curiosos, como foi o caso da oração do reitor do Seminário, David Mein, conhecido como doutor em brevidade [v]. Qualquer outra pessoa teria feito uma longa oração, mas a dele, logo na abertura dos trabalhos convencionais, foi a mais sucinta possível, com apenas uma frase, e do tamanho de um grão de mostarda: “Senhor, abençoa os trabalhos convencionais, em nome de Jesus, amém”. O autor do artigo se preocupou com a convenção como um todo, por isso não há detalhes sobre a juventude.

4. ABALO SÍSMICO NO CONCEITO DA JUBAÍBA     

Quarto momento

Fortaleza, CE, 1973, 2º Conordeste.

Nesse quarto momento, que foi a participação no 2º Congresso da Juventude Batista do Nordeste, em Fortaleza, CE, Jeová e sua equipe colaboraram novamente e confeccionaram a imensa faixa que tinha praticamente a extensão do ônibus e que foi afixada na lateral do veículo. E, ainda mais, confeccionaram camisas, cartazes e demais apetrechos necessários à consecução dos objetivos traçados com a devida antecedência. Tudo aquilo mexia muito com todos, pois era uma aventura que deixava todo mundo realizado e feliz. A própria juventude se mexendo por conta própria e conseguindo sair ilesa desses compromissos e de viagens tão longas. E tem mais: tudo organizado, administrado e financiado pela Jubaíba.

A aventura da ida ao 2º Conordeste gerou muita expectativa, pois jovens de todas as partes da Paraíba se aventuraram numa viagem noturna desde João Pessoa e até a sede do congresso, na capital alencarina, enfrentando 735 km em um ônibus que saiu superlotado e apenas com um motorista. Jubaibanos atentos e cuidadosos deram suporte logístico ao motorista, que cochilou bastante e levou o ônibus a ficar em zigue-zague na estrada. Alguns jubaibanos fincaram pé nas imediações do condutor do veículo para evitar o pior. Os rapazes que o assessoravam não tiveram dúvida: pediram para parar e depois de um intervalo de trinta minutos de descanso, autorizaram continuar a viagem.

A caravana ia bem protegida por um anjo da guarda: o pastor José Ednaldo Cavalcanti, novato no volante, ia à frente do ônibus dirigindo o seu Vokswagen Variant TL, zero quilômetro. Assim fez na ida e na volta, demonstrando extrema dedicação à causa da juventude. E lá em Fortaleza, o presidente Eliezer contou com a significativa ajuda dele e dos demais membros da diretoria que estiveram presentes ao encontro.

Ademar Paegle foi o destaque, com mensagens que tocaram profunda e significativamente o coração da juventude. A maioria ainda não o conhecia, uma vez que na época ele pastoreava em Fortaleza. Só depois de algum tempo se mudou para Recife, a fim de pastorear a Igreja Batista de Casa Amarela e ensinar no Seminário.

As Anotações congressistas de um jubaibano, que O Jornal Batista publicou em seus números de 02 e 09/09/1973, apresentam detalhes daquele momento histórico. Porém, por uma questão ética, não apresenta o que de mais dramático aconteceu com a caravana da Jubaíba. O que ocorreu foi o seguinte. Exercendo de sua liberdade, alguns rapazes e algumas moças esticavam os serões das reuniões noturnas, só que pelas ruas de Fortaleza, num turismo fora de hora para os rígidos critérios organizacionais do congresso. A moral batista da época não deixava por menos, pois chegava até a uma espécie de fiscalização aos infratores, como era comum acontecer em algumas igrejas que designavam diáconos para ficarem a postos nas portas dos cinemas, a fim de descobrir quais membros insistiam em assistir filmes e se divertir inocentemente no escurinho da sala de projeções. As saídas noturnas, em Fortaleza, abalaram muito o conceito construído pela Jubaíba até então.

Porém, o que se tornou uma verdadeira pedra no sapato do presidente e dos demais membros da diretoria, foi outro tipo de liberdade exercida pela juventude da Paraíba, e provavelmente por outras caravanas também, que só se efetivou quando o congresso terminou. O fato inusitado, e até engraçado, é que alguns travesseiros dos aposentos onde os congressistas dormiam ficaram de tal maneira apegados aos seus usuários, que resolveram se mudar do Ceará para a Paraíba. E viajaram silenciosamente no ônibus. Foi aí que o bicho pegou. Quando as coisas pareciam ir às mil maravilhas para a Jubaíba, começaram a chegar cartas de Fortaleza com a dura exigência de que os travesseiros travessos fossem devolvidos ao seu habitat natural. E agora, o que fazer? Onde localizar o precioso material? E começou a chuva de cartas entre o presidente e o vice-presidente da Jubaíba, para tentar resolver o impasse. Depois dessas escaramuças, o conceito da Jubaíba ficou bastante abalado. E a tentativa de solução, também drástica, só ocorreria no ano seguinte, nos preparativos para o décimo congresso da Juventude Batista Brasileira, em Recife.

5. UMA JUBAÍBA DIMINUTA NUM CONGRESSO COLOSSAL

Quinto momento

Recife, 1974, 10º Congresso Nacional

Ao congresso colossal, cuja abertura ocorreria em 15/07/1974, em Recife, poderia ter comparecido uma caravana igualmente colossal da Jubaíba, inclusive por conta da distância entre estados vizinhos. Mas não foi isso que ocorreu, justamente por conta do saldo negativo das peripécias em Fortaleza. Estados bem mais distantes mandaram grandes caravanas. A Juventude Batista da Paraíba compareceu ao décimo congresso com uma pequena caravana de apenas vinte e um jovens. Era uma situação inexplicável e até vexatória. Tudo isso como uma tentativa de que não ocorresse em Recife o que ocorrera em Fortaleza. Foi difícil tomar tal decisão, mas a diretoria topou arcar com a responsabilidade. E escolheu a dedo os vinte e um nomes que participariam do Décimo Congresso Nacional, incluindo membros da diretoria.

O colossal do congresso se deu por conta de sua magnitude como encontro de jovens batistas de todo o território brasileiro. Caravanas se deslocaram do Amazonas até ao Rio Grande do Sul, em direção à capital pernambucana. E no artigo escrito e publicado n’O Jornal Batista de 29/09/1974, estão os itens colossais do Congresso de Prata: (i) um colosso de luzes, cores, beleza e juventude, na abertura dos trabalhos; (ii) caravanas colossais: a amazonense, que transitou pela Transamazônica, enfrentando grandes perigos, chegou a Recife com um testemunho colossal, deixando a todos estarrecidos; de Pernambuco, estado hospedeiro, foram 74 inscritos; de Goiás, 37; Bahia, 61; Guanabara, 35 e Mato Grosso 10. Ao todo, foram 1.600 inscritos: era um mundo de gente jovem, alegre, dinâmica, vestida com as cores das juventudes estaduais; (iii) um colosso de preletores, entre os quais: Merval Rosa, Djalma Torres, Juarez Azevedo, Schettini Filho, Valdívio Coelho, Natanael Medrado e Nita Cassiano; (iv) um colosso de técnica, luz e cores, com a belíssima apresentação do conjunto jovem da Igreja Batista da Graça, de Salvador, BA; (v) uma concorrência colossal, pois cada passo das caravanas entrava nas contas para a conquista ou não do ambicionado Troféu Brasil, a ser entregue no último dia do congresso ‒ “Tudo cheirava a concorrência: esportes, evangelismo, visitas às autoridades, comportamento cristão, participação, números de inscritos”, conforme afirma o articulista.

O pequeno grupo da Jubaíba se fez representar pelo seu eterno conselheiro Tomaz Munguba, que levou o grupo musical Mensageiros de Cristo a tiracolo. O grupo brilhou tanto quanto o seu pastor. A certa altura do congresso, Eli Fernandes e o autor destas notas comandaram o cântico de Pai, eu te adoro, em três cânones, para jovens que lotavam as amplas dependências do santuário da Igreja Batista da Capunga. Foi um verdadeiro deleite para a alma. A Jubaíba também cumpriu todas as tarefas que lhe foram delegadas pela direção do congresso, inclusive um culto relâmpago na Praça Sérgio Loreto, onde também se apresentaram os Mensageiros de Cristo; além disso, uma visita ao comandante do IV Exército, que recebeu uma Bíblia de presente das mãos de Tomaz. Outra boa participação foi a de Elzeni Fernandes no concurso promovido pela Imprensa Bíblica Brasileira. A garota se esforçou ao máximo, e entre tanta concorrência o vencedor foi o pernambucano Marconi Monteiro, de inteligência privilegiada.

Ao apagar das luzes do encontro em Recife, ocorreu algo inesperado. Era o momento da escolha do presidente para o Décimo Primeiro Congresso. Os jovens iam à frente para indicar os nomes, e sempre apelavam ao título acadêmico do candidato. Foi aí que um jovem jubaibano apresentou o nome de Tomaz Munguba, quebrando assim a hegemonia das candidaturas. O vencedor não foi ele, mas também não foi quem fez uma acirrada campanha com tal propósito.

6. O VALOR DAS PEQUENAS COISAS

Sexto momento

João Pessoa, PB, 1974, Convenção Batista Estadual.

A presença da Jubaíba na Convenção Batista Estadual, em João Pessoa, 01 a 03/11/1974, está registrada em fotos do velho álbum organizado pelo próprio autor e que foi encontrado e salvo do lixo por Linaldo Guerra. Segundo afirmou, a pessoa acionada por ele teria tentado se justificar dizendo que não havia necessidade de guardar coisas antigas. Em outras palavras, o lugar de coisas antigas é o lixo. Nem dá para imaginar como seria nosso mundo, se essa fosse a mentalidade reinante. Ainda bem que essa não é a prática de jubaibanas e jubaibanos, que sempre souberam preservar a importante história e a memória contida nessas relíquias. Sendo assim, se não fora esse álbum, hoje em posse do autor, nenhum registro haveria da participação da Jubaíba naquela convenção estadual.

E é justamente esse antigo álbum que nos fornece detalhes mínimos do que foi a participação da Jubaíba naquele momento histórico da 50ª Assembleia da CBP, Convenção Batista Paraibana. As fotos são em número de quatro, mas apenas uma delas aparece na galeria abaixo. As outras três são uma vista panorâmica da assistência no santuário da Primeira Igreja Batista de João Pessoa onde a convenção foi realizada, a segunda é do veterano pastor Zacarias de Barros ladeado por Tomaz, Paulo Faustino e Eliam Bastos, enquanto apaga as velas do bolo comemorativo do cinquentenário, e a última é de “Eliam, 2º Vice-Presidente”, encantando as pessoas presentes com “sua voz e violão consagrados ao Senhor”. E o último destaque é este: “Lá estava, também, a Jubaíba, realizando a sua 2ª Assembleia Ordinária, no primeiro dia da convenção, nos horários da manhã e da noite, a qual se revestiu de pleno sucesso”.

7. UMA LONGA VIAGEM

Sétimo momento

Teresina, PI, 1976, 3º Conordeste.

Com muita coragem, determinação e ousadia, a caravana da Jubaíba lotou um ônibus e percorreu 1.024 km de Campina Grande, PB, a Teresina, PI, para participar do 3º Congresso da Juventude Batista do Nordeste, de 21 a 24/07/1976. O autor ainda datilografou um texto para tentar publicar n’O Jornal Batista, mas terminou desistindo de mandar, até mesmo pela falta de tempo, pois na época já estava no seminário, envolvido com igreja, trabalho e estudos. Os “Desafios do 3º Con-Nordeste” ficaram arquivados como mera lembrança, mas agora foram consultados para a composição do presente artigo. 

A viagem foi um grande desafio, e não apenas por causa da distância. Foi uma aventura cheia de percalços, pois o ônibus rodou bastante até chegar a um lugar apropriado para uma rápida refeição. O pequeno restaurante ficava à beira da estrada. As opções eram mínimas. A limpeza do local não era a mais recomendável. Mesmo assim, alguém da caravana resolveu sentar para tentar pedir alguma coisa. Notou, entretanto, que era melhor continuar, pois aquilo ali era totalmente inadequado. Levantou-se sem pedir nada. Quando a caravana fez menção de sair, o dono disse que era preciso pagar uma taxa, pois alguém sentara em uma das cadeiras. Joran Correa Costa protestou e a caravana saiu sem se alimentar e sem pagar, claro. Mas o lugar era muito inóspito, mal cuidado e com um péssimo atendimento.

Ao chegar a Teresina, a caravana inteira sentiu o impacto da altíssima temperatura. A cidade é tão quente, que até durante a madrugada os ventiladores não venciam o calor reinante nos dormitórios. A Primeira Igreja Batista de Teresina, pastoreada na época por Júlio Borges, recebeu a todos com muita atenção, simpatia e carinho. Após a abertura do congresso, à noite, procuramos um lugar para nos alimentar e não encontramos. Mas o presidente da Juventude Batista do Piauí acompanhou a caravana da Jubaíba a um lugar afastado do centro da cidade, onde finalmente a turma se alimentou.

Vamos, agora, a alguns destaques das anotações feitas na época. “Sob o calor escaldante de Teresina, Piauí, realizou-se o 3º Congresso da Juventude Batista do Nordeste, de 21 (à noite) a 24 de julho de 1976. A caravana da Jubaíba partiu de Campina Grande às 17h30 do dia 20, com 41 congressistas, e às primeiras horas do dia 21 pisava em solo piauiense”. Estiveram presentes ao evento oito juventudes estaduais: Jubace (CE), Jubaíba (PB), Jubal (AL), Jubama (MA), Jubape (PE), Jubapi (PI), Jubarn (RN) e Jubase (SE).

Foram muitos os desafios enfrentados pela direção do congresso. O maior deles talvez tenha sido a hospedagem de tanta gente. O jovem Francisco Rodrigues de Araújo, presidente da Jubapi, deu tudo de si para que as caravanas nada sofressem. Só mesmo uma juventude corajosa convidaria um congresso para Teresina que, segundo um observador, “é a capital do Estado mais pobre do Nordeste”. Os preços lá são pelo menos cinquenta por cento mais altos do que os de Recife, por exemplo. Apenas duas coisas tinham preços competitivos: corrida de táxi e Coca-Cola. Hospedar tanta gente numa situação dessas merece elogios. Inicialmente, as refeições deveriam ser servidas no Centro de Educação Religiosa, propriedade dos batistas aberta exclusivamente para receber os congressistas. Mesmo assim, houve problemas e a direção do congresso se viu em apuros. Algumas pessoas partiam para lanchonetes, enfrentando exorbitantes preços, e outros permaneciam dependendo do destino a ser dado à caravana. O próprio presidente da Jubapi conseguiu pelo menos mais duas refeições, para jubaibanos e jubaibanas, no Quartel da Polícia Militar do Piauí, que recebeu a caravana de maneira admirável. Na última sessão do congresso foi proposto um “voto de agradecimento” ao comando da Polícia, que recebeu a Jubaíba tão gentilmente.

Outro grande desafio do congresso em Teresina foi o conteúdo apresentado nas mensagens de Tarsis Wallace Lemos, da Igreja Batista da Graça, Salvador, BA, formado recentemente pelo Seminário Batista de Recife. Além de poeta é também compositor. O Hinário do Congressista trazia algumas músicas de sua autoria. Bastante jovem e comunicativo, conseguiu marcar com suas mensagens em linguagem erudita e terminologia moderna. Todas as suas mensagens foram portadoras de grandes desafios à juventude batista ali presente. O saldo que deixou foi consideravelmente positivo.

Como não poderia deixar de ser, houve também o desafio de três cursinhos apresentados durante o encontro: sobre a vida cristã, a vida universitária e a vida a dois. Os preletores convidados foram: Ademar Paegle, José Florêncio Rodrigues Júnior e Roldão Arruda, este, capelão do Colégio Batista de Fortaleza.

O desafio do folclore trouxe algumas complicações, justamente por conta do espírito proselitista reinante em alguns congressistas. A apresentação foi no Teatro de Arena, um belo espaço ao ar-livre, na noite do dia 23. O espetáculo colorido prendeu a atenção de muitos e causou profundo impacto em outros, chegando alguns a denominar o encontro de “festa do diabo”. E parece que até hoje a coisa não mudou muito, pois “lá e cá, más fadas há”.

O último desafio do 3º Congresso da Juventude Batista do Nordeste foi o vocacional. Para a Noite das Vocações foi convidado, além do orador oficial, Ademar Paegle, o Reitor da Universidade Federal do Piauí que, embevecido pelo cântico e vibração dos congressistas, afirmou logo no início de suas palavras: “As pessoas que cantam são pessoas que amam”. Para ele, “a juventude é o melhor capital que o Brasil possui”.

CONCLUSÃO

São desses primeiros quatro anos da Jubaíba que tratarão esses artigos. No caso do atual, foi necessário juntar todos esses relatos em um só, pois de certa maneira estão sob uma mesma temática. O que se vê é que, mesmo passando por momentos mais difíceis e desafiadores, a Juventude Batista da Paraíba soube se desvencilhar com muita sabedoria de todos os seus compromissos oficiais e sempre foi agente de inspiração para moças e rapazes, e até adultos e crianças. Além disso, sempre contou com a participação responsável de cada pessoa envolvida com seus ousados projetos. Aqueles quatro primeiros anos ainda são, e continuarão sendo, motivo de orgulho para tantas testemunhas vivas do que aconteceu de positivo e revolucionário em solo paraibano e bem além das fronteiras da Paraíba. A Jubaíba marcou vidas, estabeleceu marcos e continua vitoriosa até os dias atuais. Isso é motivo de orgulho para muitas gerações.

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GALERIA DE FOTOS

Fortaleza, CE, 18 a 22 de julho de 1973: II Conordeste, Congresso da Juventude Batista do Nordeste.

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FOTO 2 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

O potente ônibus sai lotado de João Pessoa com destino ao 2º Conordeste em Fortaleza.

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­­­FOTO 3 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Trata-se de uma só fotografia tirada com máquina especial e que continua na próxima foto.

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FOTO 4 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Identifique jubaibanos e jubaibanas nesta foto histórica. É uma tarefa que deixo a cargo de leitoras e leitores que viveram aqueles inesquecíveis momentos.

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FOTO 5 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Na foto, da esquerda para a direita: João Lemos, Renivaldo Rufino e Eli Fernandes. Soube, através de Betânia, a lamentável notícia de que João já não está mais conosco, vítima que foi de complicações cardíacas e renais. João Lemos Pessoa Filho (31/07/1950-15/08/2020, 70).

FOTO 5a ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Mais uma foto do congresso em Fortaleza. Esta me foi encaminhada pelo querido amigo e grande jubaibano José Bonifácio Viana. Um dos filhos do pastor Ednaldo está logo à esquerda de Eliezer Lourenço, que porta a placa com o nome Paraíba.  

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FOTO 6 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Valdir Lucena e Renivaldo fazem de conta que têm domínio instrumental.

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FOTO 7 ‒ A JUBAÍBA EM FORTALEZA

Eliezer tenta apaziguar a tensa situação gerada por alguns componentes da Jubaíba durante o 2º Conordeste, em Fortaleza.

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Recife, PE, 15 a 20/07/1974: 10º Congresso Nacional da Juventude Batista Brasileira.

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FOTO 8  ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO

Elzeni, “a candidata jubaibana (irmã carnal de Eli Fernandes) orou, estudou, se concentrou, se comportou, chorou, mas não passou no show promovido pela Imprensa Bíblica Brasileira, constando de perguntas as mais variadas sobre a Bíblia. Marconi Monteiro, de Pernambuco, foi o vencedor da primeira à última noite”. 

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FOTO 9  ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO

A Jubaíba entrega Bíblia ao comandante do IV Exército. Eram vinte e um, inclusive com o grupo musical da Primeira Igreja Batista de João Pessoa. Essa foi uma das tarefas cumpridas a contento.

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FOTO 10  ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO

“Nesta fotografia (que parece oficial), aparece gente da Paraíba, do Amazonas, de São Paulo, de Brasília, de Goiás e da Bahia (pastor Valdívio de Oliveira Coelho, um dos preletores do Décimo Congresso)”. Lembre-se de identificar jubaibanas e jubaibanos e registrar quando fizer o comentário no Blog.

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FOTO 11 ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO

Anotação no álbum de fotografias da Jubaíba  “Em um dos intervalos do Décimo Congresso, uma pausa para a fotografia histórica: Paraíba, São Paulo (Davi, o moreno [ao lado de Renivaldo], presidente da JUBESP e também eleito para a diretoria do XI Congresso, e a jovem de óculos), Bahia (Hélio Lourenço, o baiano‒jubaibano) e Goiás (as duas vestidas de amarelo)”. Identifique as demais pessoas e registre quando fizer seu comentário no Blog.

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FOTO 12 ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO  

15 a 20/07/1974: Jubaibanas e jubaibanos prestam toda atenção à palavra de Djalma Torres, que falou sobre o conceito do novo no Novo Testamento.  

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FOTO 13 ‒ A JUBAÍBA NO DÉCIMO CONGRESSO  

O conjunto musical Mensageiros de Cristo se apresenta na Igreja Batista da Capunga em um dos dias do Décimo Congresso da Juventude Batista Brasileira.

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João Pessoa, PB, 01 a 03/11/1974: CONVENÇÃO BATISTA PARAIBANA

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FOTO 14 ‒ A JUBAÍBA NA CONVENÇÃO BATISTA PARAIBANA

Da esquerda para a direita: Billy Fallaw, “amigo da Jubaíba”, Tomaz Munguba, que nessa ocasião era o conselheiro, Francisco Luiz de França, Baruch da Silva Bento, que foi o conselheiro durante o primeiro biênio, e Cornélio Avelino. 

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Teresina, PI: 21 a 24/07/1976, 3º Congresso da Juventude Batista do Nordeste

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FOTO 15 ‒ A JUBAÍBA EM TERESINA

Esta é a única foto salva do congresso de Teresina.

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NOTAS__________

[i] Conferir diversas publicações sobre este e outros assuntos ‒ RUFINO, J. R.: (1) ”Grandes pregadores e sua pregação”: análise do trabalho homilético do pastor José Britto Barros. João Pessoa: Gráfica e Editora Diplomata, 1995. 139 p. s/ISBN. (2) “Bênçãos em Pitimbu”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 19/03/1972. p. 6. (3) “Cinquentenário da Primeira Igreja Batista de Campina Grande”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 25/06/1972. p. 3 e 9. (4) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 11/03/1973. I. p. 5. (5) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 18/03/1973. II. p. 4. (6) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 18/03/1973. III. p. 10 e 11. (7) “Jubaíba tem símbolo”. Revista Mocidade Batista. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 2T73. p. 44 e 45. (8). (9) “Com Cristo tudo mudou”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 29/04/1973. p. 6. (10) “Anotações congressistas de um jubaibano”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 02/09/1973. I. p. 6. (11) “Anotações congressistas de um jubaibano”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 02/09/1973. II. p. 6. (12) “As lágrimas da santificação”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 07/04/1974. p. 6. (13) “Um congresso colossal”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 29/09/1974. p. 9 e 11. (14) “Jubaíba tem nova liderança”. Revista Mocidade Batista. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 4T74. p. 39. (15) “Vocacionados 75”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 21/12/1975. p. 5. (16) “A Jubaíba tem novo presidente”. Revista Mocidade Batista. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1T76. p. 8. (17) “Sê tu uma bênção, Jubaíba”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 11/04/1976. p. 10 e 8. (18) “Dinheiro sagrado”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 06/12/1987. p. 2. (19) “Bill Fallaw”: um pastor inesquecível. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 08/07/1990. p. 8. (20) “Primeira de Beberibe organiza mais uma igreja”: cinco jovens e um sonho. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 28/04/1991. p. 6. (21) “O voo da águia”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 07/02/1993. p. 11. (22) “U’a multidão de joelhos”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 12/03/1995. p. 7. (23) “Perfil de duas igrejas batistas crescentes”: Primeira Igreja Batista e Igreja Evangélica Batista de João Pessoa. Recife: Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, 1997. Monografia de mestrado em teologia inédita. (24) “Primeira Igreja Batista de João Pessoa”: crescimento, teatralidade ou fantasia? Recife: Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, 1999. Dissertação de mestrado em teologia inédita. 390 p. (25) “Fundamentação epistemológica do conhecimento em O livre arbítrio de santo Agostinho”. Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2000. Monografia de bacharelado em filosofia inédita. 119 p. (26) “Passado, presente e futuro”: o tempo da consciência e a consciência do tempo no pensamento de santo Agostinho. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2003. Dissertação de mestrado em filosofia inédita. 179 p. (27) “Relevância filosófica das pequenas coisas”: a infância no livro I das Confissões de Agostinho de Hipona. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011. Tese de doutoramento inédita. 280 p.

[ii] Conferir: RUFINO, J. R. (1) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 11/03/1973. I. p. 5. (2) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 18/03/1973. II. p. 4. (3) “Anotações convencionais de um novato”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 18/03/1973. III. p. 10 e 11. 

[iii] Conferir: RUFINO, J. R. (1) “Anotações congressistas de um jubaibano”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 02/09/1973. I. p. 6. (2) “Anotações congressistas de um jubaibano”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 02/09/1973. II. p. 6.

[iv] Conferir: RUFINO, J. R. “Um congresso colossal”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro: JUERP, 29/09/1974. p. 9 e 11.

[v] Os sermões do dr David Mein jamais ultrapassavam os vinte minutos. Eram pequenos e, ao mesmo tempo, grandes em conteúdo.


domingo, 2 de maio de 2021

O PODER DAS PALAVRAS

 

25/07/2008, Ralflex, Via Dutra, São Paulo, SP: Que palavras poderosas trocavam nessa hora meu irmão Regi (Reginaldo Freire), minha filha Raquel e minha mulher Cosma?


O PODER DAS PALAVRAS

enivaldo ufino

 

“Nós, os cidadãos, somos os legítimos senhores do Congresso e dos tribunais, não para derrubar a Constituição, mas para derrubar os homens que pervertem a Constituição”.

Abraham Lincoln

Este é um assunto sobre o qual não gostaria nem de falar e nem de escrever. Porém, provocado pela frase acima, que me foi encaminhada em março de 2020, atribuída a Lincoln,  descontextualizada diante da então situação caótica que vivia o Brasil (e ainda vive), continuarei a falar e a escrever, seguindo o paradoxo da prolixidade agostiniana quando diz que é melhor calar que falar e, ao mesmo tempo, que é melhor falar que calar. Se a expressão acima não for Fake, isto é, notícia falsa, pois não me dei ao trabalho de pesquisar ‒ apesar de fazer isso no final ‒, a frase de Lincoln se aplica a um determinado momento da vida e da política norte-americana, o que não é o caso do Brasil, pelo menos no momento atual (2020) e, por outro lado, também é o caso do Brasil, desde que a frase seja vista por outro prisma.

Essa frase já seria suficiente para elucidar muita coisa sobre a nossa atual situação (2020), haja vista o recente pronunciamento nada democrático e nem constitucional do presidente brasileiro, ao convocar, pelas redes sociais, uma manifestação pública dos que ainda o apoiam, justamente contra as instituições e seus representantes legitimamente constituídos. Se a convocação fosse de fato e de direito “para derrubar os homens que pervertem a Constituição”, então o senhor presidente seria o primeiro a ser destituído, quer por conta dessa incitação e convocação irresponsável, quer pelo fato de ter sido eleito ancorado em um golpe contra a Constituição e contra o povo brasileiro ou, ainda, pela explícita apologia à ditadura militar e à violência até mesmo contra a mulher e, também extremamente grave, por se ter valido de disparos não de armas, mas de Fake News, e isso a tal ponto que até foi constituída uma Comissão Parlamentar de Inquérito para tratar do assunto.

Se fosse “para derrubar os homens que pervertem a Constituição”, então seria o tempo adequado, mesmo que já tenha passado do tempo, de derrubar certo ministro, pois com ele e sua turma do judiciário a Constituição Brasileira foi ferida de morte e continua agonizante numa “Democracia em Vertigem” [i] (a referência, aqui, é ao ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que finalmente foi declarado suspeito, apesar de tudo ter sido clarificado já naquele tempo pelo The Intecept). Mas não se trata de derrubar nenhum desses personagens maléficos à vida brasileira, porém de continuar ferindo a já debilitada Constituição, depois de tantos golpes sofridos desde o famigerado golpe que destituiu uma presidenta eleita pelo voto popular, colocando não apenas a própria Constituição no lixo, mas também os votos e os títulos de eleitor de tantos milhões de pessoas.

Se se tratasse mesmo de “derrubar os homens que pervertem a Constituição”, então é bom que se lembre de que nada foi feito contra aquele candidato a presidente que, inconformado com a derrota, como ocorre com gente antidemocrática dessa laia, chegou a pronunciar em público e diante do Senado Federal palavras que são o mais duro golpe e desvario contra a ordem constitucional brasileira e um tapa na cara do povo: “Vamos obstruir todos os trabalhos até o país quebrar e a presidente Dilma ficar incapacitada de governar, sem apoio parlamentar. Aí reergueremos o país que nós queremos. Independentemente dos acontecimentos que envolvam o ex-presidente Lula e as ações do Judiciário. Sem o poder Legislativo, nenhum governo se sustenta” [ii] (isso quer dizer que, com apoio Legislativo, até desgovernos se sustentam, o que nada tem a ver com democracia). E até hoje ninguém tocou num fio de cabelo e nem ousou derrubar esse rapaz, apesar de todos os seus envolvimentos explícitos. O Brasil estava e continua em época de estupros, só para pensar pela linha de raciocínio real e metafórico de Marcos Monteiro, que escreveu em seu Blog, sob o título “Quatro estupros e um impeachment”: “O estupro da adolescente por cerca de trinta homens, que chocou fortemente a nossa imaginação e a nossa sociedade, me levou à cena da votação do impeachment no Congresso Nacional. Ali, de certa forma, também se consumava o estupro de uma mulher, a presidenta Dilma, cena pública despudorada, divulgada para o mundo todo, em que se misturavam orgasmo e crueldade, mistura que deveria ser impossível em nossa civilização. Pelo menos um deputado [iii] teve a coragem cínica de expressar o que estaria implícito na sanha coletiva: o impeachment era a continuidade da tortura a que a presidenta fora submetida muitos anos antes. E faz bem lembrar que na ditadura a tortura de mulheres era acompanhada do estupro”. Quem tiver boa memória vai lembrar quem foi esse então deputado que votou a favor da tortura e da violência, e não só nos tempos da ditadura militar.

São muitas coisas que possibilitam tantas aberrações. Aí vai um exemplo: parte significativa do povo brasileiro, na sua simplicidade acrítica e fideísta, não pára para pensar e analisar o que ocorre em tantas situações vexatórias e até desesperadoras. Ora, se eu não penso e nem analiso de maneira crítica, então sou alvo fácil e passivo de todo tipo de armadilha, mesmo uma armadilha contra mim e contra pessoas mais próximas. Uma dessas armadilhas, talvez a mais cruel e devastadora, está por trás de nomes ou palavras. Basta citar duas palavras que têm mexido muito com a imaginação do povo brasileiro nos últimos tempos. São elas: mito e messias. São nomes de peso e na medida certa para determinados fins. Mito é um nome, ou palavra, que tem poder assim como messias. Esses nomes estão interligados, pois tanto messias é mito, quanto mito é messias. O primeiro leva geralmente à Grécia e o segundo leva tanto à escritura hebraica, quanto à escritura cristã. No caso do Brasil, e da situação caótica que atravessa, as duas palavras formam um amálgama e estão intrinsecamente ligadas.

Tanto mito quanto messias trazem, ainda, uma conotação salvífica e também fomentadora de maravilhas. Ora, se um dos significados de mito em sua origem é o de uma narrativa de caráter sagrado, verdadeiro, e não fábula, invenção ou ficção, a palavra messias se encaixa perfeitamente nesse escopo. Claro que essa é uma maneira simples de dizer, mas a ênfase aqui é no fato do quanto essas duas palavras têm sido efetivas no mundo político brasileiro, pelo menos na mente de pessoas mais simples em termos de conhecimento e de senso crítico. Trata-se de uma arma muito poderosa. Quer queiramos, quer não, mito e messias trazem consigo o lado obscuro do poder dos super heróis. Na visão simplista e conformista dessas pessoas, o messias cristão traz espada e não paz e, no final das contas da última prestação de contas, separará a humanidade por ele criada em dois grupos, um destinado à perdição eterna e outro à salvação eterna. Uma visão dessas tem tudo para fomentar ódio, exclusão, desprezo, atrocidades, até mesmo com pessoas mais achegadas. Nesse sentido, Hitler era um mito e um messias em busca da raça pura. Mesmo que mentiras sejam proferidas por tais pessoas, veiculadas e espalhadas aos quatro cantos da terra, imediatamente se transformam em verdades, relatos isentos de quaisquer erros assim como as sagradas escrituras, inclusive gregas, pois são provenientes da fonte sagrada, da fonte verdadeira, da imexível mente divina. Se vier guerra, derramamento de sangue, miséria, sofrimento, penúria e abandono, tudo é justificável se visto por esse prisma, pois faz parte da inquestionável vontade soberana da divindade.

Fazendo buscas pela frase à epígrafe, descobri que o décimo sexto presidente dos Estados Unidos, que governou entre 1861 e 1865, fez um discurso no Cemitério Nacional de Gettysburg, “na tarde do dia 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da vitória na batalha de Gettysburg, decisiva para o resultado da Guerra da Secessão”. Era o final de uma sanguinária Guerra Civil entre “irmãos” filhos da mesma nação. A frase, entretanto, não se encontra no discurso publicado pelo algoritmo do Google ao qual tive acesso.

Alguns estão chamando de “ato cívico” a essa manifestação convocada pelo presidente para o dia 15 de março (de 2020), que nada tem de democrática. Pelo contrário, é mais um assassinato à Constituição Brasileira. Será que seria um ato tão cívico quanto foram os do golpe covarde para a deposição de Dilma, e do discurso cheio de ódio de Aécio inconformado com a derrota? Ou seria um ato cívico como o de pessoas que se dizem cristãs e estão espalhando falsas mensagens e outras insinuações perigosas, só para manter o mito e o messias no poder? Quantas amizades têm sido prejudicadas por conta dessa desgraça que toma conta do Brasil. É bom lembrar, no entanto, que paciência tem limite, sobretudo numa “democracia em vertigem”! Encerro esta reflexão com mais uma contribuição de Marcos Monteiro, que faz parte do texto da citação anterior, de 1 de junho de 2016:

“A adolescente, a presidenta Dilma, a justiça e a democracia, são quatro vítimas da cultura do estupro. Mas o impeachment tinha como objetivo uma violência maior, a qual ainda se encontra a caminho. Com ferocidade incestuosa, o Congresso Nacional se prepara para estuprar a pátria, a nossa “mãe gentil” já tão desnudada. A saúde, a educação e outros parcos direitos dos seus filhos trabalhadores se encontram sob ameaça e, se o seu solo quase não mais lhe pertence, prepara-se mais uma invasão no seu subsolo: da mesma maneira que lhe arrancaram o minério, pretende-se lhe invadir as entranhas e arrancar o petróleo, exatamente quando se descobre a riqueza inesperada de um exuberante pré-sal. As metáforas, as figuras, as imagens e as palavras aqui entrelaçadas não têm como ser suaves porque o momento não está para a poesia ou para as cantigas de ninar. Diante de tanta violência física e simbólica, todo texto precisa se tornar grito de dor, de horror, de revolta e de denúncia, na esperança de que a resistência vá se espalhando e sacudindo a todos e todas, em coletivo despertar”.

É preciso elucidar, nessa espécie de adendo que não constava do original, que este texto foi produzido inicialmente com o título “O poder do mito”. Quando soube que já existe um livro homônimo, apesar de eu mesmo não conhecer, resolvi mudar o título. Relutei bastante em publicar, pois não quero provocar ninguém e nem suscitar discussões sobre um tema tão melindroso e que tem prejudicado até mesmo antigas amizades. Resolvi fazê-lo pelos seguintes motivos: (i) para compartilhar uma ideia que desenvolvi a partir da provocação de um amigo e companheiro de velhas datas, através unicamente da frase atribuída ao presidente norte-americano, Abraham Lincoln; (ii) para atender a esse amigo, de quem não cito o nome por questões éticas, que pediu para que eu reenviasse o texto; (iii) e, ainda, para não deixar essa minha produção, mais intelectual que política ‒ pois nada entendo de política ‒, mofando no arquivo morto do Notebook. Sendo assim, entendo justificada a minha opção. Pediria a prováveis leitoras e leitores que, se for possível, comentem apenas o aspecto intelectual do texto, como têm feito nas publicações que já saíram neste Blog, mesmo assim, sintam-se livres para registrar o que desejarem, pois esse é um direito que lhes assiste. E lembrem-se de algo muito importante: é imprescindível que registrem seus nomes no final do comentário, para que fique identificado. Se quiserem, podem deixar o comentário no Whatsapp que eu transferirei e comunicarei a cada pessoa. Entretanto, a personalização já sai automaticamente para quem tiver e-mail do Gmail. Ao comentar e pedir para publicar, seu e-mail já será acessado e, uma vez aberto, o comentário é publicado devidamente personalizado. Deixo aqui os meus mais sinceros agradecimentos a todas e todos, ao tempo em que desejo uma aprazível leitura sobre essas duas poderosas palavras, mito e messias.



[i] A referência, aqui, é ao ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que finalmente foi declarado suspeito, apesar de tudo ter sido clarificado já naquele tempo pelo The Intecept.

[ii] Isso quer dizer que, com apoio Legislativo, até desgovernos se sustentam, o que nada tem a ver com democracia.

[iii] Quem tiver boa memória vai lembrar quem foi esse então deputado que votou a favor da tortura e da violência, e não só nos tempos da ditadura militar.

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Hoje, como profissional da área de biologia, Raquel utiliza o poder das palavras como professora universitária, a fim de formar jovens cientistas que também darão sua contribuição ao Brasil de forma benéfica, efetiva e transformadora. 

domingo, 4 de abril de 2021

O PODER DA JUBAÍBA E O SIMBÓLICO NÚMERO DOZE

 


1974  Além de Walkíria e Wânia Lucena, também faziam parte da diretoria da Jubaíba para o triênio 1974/1975 (da direita para a esquerda): Tomaz Munguba, Renivaldo Rufino, Eliezer Lourenço, Eliam Bastos, Ademar Barbalho, Abraão Barbosa, Francisco Carlos Farias, Edvaldo Marcelino Lins, Eli Fernandes e Joabe Costa. 


O PODER DA JUBAÍBA E O SIMBÓLICO NÚMERO DOZE [i]

enivaldo ufino

Mesmo que hoje encontremos apóstolos em quase tudo que é de lugar, a simbologia numérica da diretoria da Juventude Batista da Paraíba para o triênio 1974/ 1975 tem referência direta com o colégio apostólico que foi organizado a partir de Jesus de Nazaré. O número doze está representado na diretoria formada de duas mulheres e dez homens. Metade abandonou a Paraíba pequenina para atender a um chamamento que entendia ser bem maior [ii]. O momento foi tão decisivo e revolucionário quanto alguns outros momentos vividos pela organização, desde sua conturbada gestação nas entranhas intelectuais do jovem Eliezer Lourenço. Já que jubaibanos e jubaibanas nasceram rebeldes com uma causa, dá para entender a razão de tantos abalos sísmicos na experiência da Jubaíba. Tudo isso gerou lágrima e alegria: durante os memoráveis acampamentos ‒ inclusive em um deles, que inspirou um artigo intitulado “Lágrimas da santificação” ‒, na empolgação pelos resultados, na frustração diante de empecilhos surgidos antes de tudo começar, e na admiração pela possibilidade de fazer tanto em tão pouco tempo.

A segunda diretoria da Jubaíba, acima, que sucedeu à primeira, esta eleita para o biênio 1972/1973, já estava atuante no segundo acampamento, em 1974, cujo tema proposto era um tremendo desafio: “As bênçãos da santificação”, ainda mais pelo fato de estar fundamentado no tripé Oração, santificação e ação. Segundo artigo publicado na época, “deveria ser o lema‒vida de todos os jovens” [iii]. Essa era a meta de doze pessoas, que fariam tudo a fim de torná‒la viável na vida de toda a juventude. Sob a orientação do conselheiro Tomaz Munguba, sempre em estreito vínculo de amizade com a turma jovem, o “propósito da nova Diretoria” era “primar pela vivência da sugestão” primeiro entre os próprios componentes e “em seguida levar o recado pessoal aos jovens do Estado”, conforme consta do mesmo artigo. O poder da Jubaíba também estava como que ancorado na rica simbologia do número doze, que representava o humilde e, ao mesmo tempo, arrojado projeto desbravador dos primeiros seguidores do fundador do cristianismo. A fortaleza jovem estava bem representada no próprio Diretor do Departamento de Mocidade da Junta Executiva Estadual. Que pena que Chiquinho não esteja mais conosco, vítima que foi de Covid‒19: Francisco Carlos de Araújo Farias (11/07/1954‒27/02/2021, 66) era apenas um menino de 20 anos na época dessa diretoria. E foi um dos principais, maiores e mais esforçados incentivadores e colaboradores desde o início da história da Jubaíba.

Essas doze pessoas se irmanavam como se fossem uma só. Estavam sempre conectadas, mesmo sem os recursos do algoritmo e outros meios tão eficientes de comunicação da modernidade. Era uma “...equipe experimentada, estando apta, por conseguinte, para realizar um trabalho de proporções gigantescas...”, diz o articulista. O lema que foi adotado para o biênio 74/75 parecia impulsionar cada vida à verdadeira ação, quer em benefício da juventude estadual, quer em benefício de pessoas carentes, espiritual, moral ou materialmente falando.

Eliezer Lourenço, fundador e primeiro presidente, fez parte da segunda diretoria como auxiliar direto do presidente, com toda a experiência de um período difícil, tumultuado e decisivo na vida da juventude estadual. A distância entre Santa Rita e Campina Grande era insignificante, por conta da grande amizade que unia os dois em torno do ousado projeto. A troca de correspondência entre eles era constante e sistemática, a maior parte arquivada e sob a guarda do autor do presente artigo, sempre disponível ao crivo de futuros pesquisadores. O planejamento, ideias e realizações faziam parte de um compartilhamento que era vital ao andamento da instituição, e desenvolvimento da juventude batista paraibana.

A segunda vice‒presidência estava a cargo de Eliam Bastos, também muito jovem, assim como os demais, que somava seus esforços ao esforço de todo o grupo e, ainda mais, encantava a todos e todas por onde passava com sua mansa e privilegiada voz. Tangendo as cordas do seu violão consagrado, quantas lágrimas arrancava de pessoas que ficavam embevecidas diante do emocionante espetáculo musical. Eliam era alguém que passava aquela imagem de mansidão característica do cristão.

Já o primeiro secretário, Ademar Barbalho, fazia o trabalho cuidadoso, esmerado e imprescindível para a manutenção da história da Jubaíba no futuro, ajudado pela eficiente Walkíria da Silva Lucena, como segunda secretária, e fundamental presença feminina na diretoria. Quão importantes os registros feitos por ela e por ele, da continuação dos acontecimentos que fariam o perfil da Juventude Batista da Paraíba. Hoje, estamos à procura do primeiro livro de atas, como suporte necessário para pesquisas sobre a organização. Três líderes já foram acionados para isso: Cláudio, ex-presidente, Vinícios, atual presidente, e Linaldo, diretor geral do Instituto Teológico Batista de Ensino, membro da Junta Estadual e pastor da Igreja Batista de Pilar. Pena que a pandemia esteja impedindo o trabalho de busca.

As finanças da Jubaíba estavam em boas mãos, com Abraão Barbosa da Silva, tesoureiro, que já atuava como funcionário da Junta Executiva da Convenção Batista Paraibana, com sede em Campina Grande. Sua participação como membro da Primeira Igreja Batista não o impedia de se dedicar de corpo e alma para impulsionar o trabalho jovem no Estado. Era ele um dos grandes segredos do poder da organização.

As quatro diretorias estavam divididas entre nomes de grande peso e significativa importância para alavancar o projeto: na de evangelismo, Eli Fernandes de Oliveira, que era uma espécie de embaixador em congressos pelo Brasil, inclusive no Nonoiânia, em Goiás, onde representou a juventude estadual e foi destaque em O Jornal Batista da época, quando a Jubaíba ainda era apenas uma ideia. Na primeira diretoria, desempenhou a função de Diretor do Departamento de Juventude.

Quem atuava na diretoria de música era o ex‒garoto prodígio Joabe Corrêa Costa, que desde pequeno exibia dotes musicais na igreja e nas ruas de Campina Grande, orientado que era pelo pai, José Hilário da Costa Filho. Joabe sempre foi muito mais de fazer do que de aparecer. Seu jeito simples e sua sensibilidade musical deram um grande impulso ao trabalho jovem na Paraíba. Além disso, participava da igreja e se envolvia com afinco no curso de engenharia, tornando-se, posteriormente, um renomado profissional na cidade Rainha da Borborema, hoje marcada por seus projetos. A capela do Seminário Batista de Recife também contou com sua colaboração.

Talvez o mais jovem da diretoria fosse mesmo Edvaldo Marcelino da Silva Lins. Seu departamento era dos mais atraentes e requisitados não apenas pelos rapazes, mas também pelas moças. É que a criatividade parece que não tinha limites em termos de esporte, pois havia até uma célebre disputa entre casais. A velocidade dos meninos no jogo de futebol era retida pelas meninas que com eles faziam par. Correr até que eles corriam, porém agarrados às mãos de suas parceiras. Aí a coisa como que desandava e eles saíam caindo aqui e acolá para não prejudicá‒las. Eram momentos de muita alegria, descontração, risos e participação, com os casais em passo de tartaruga para conseguir marcar um gol e sair com o gostinho da vitória. Até mesmo o registro fotográfico do concorrido jogo de futebol ficou na memória e ainda desperta gargalhadas. A área de esporte sempre foi muito concorrida nos momentos divertidos que marcaram o início da Jubaíba.



[i] “Quando toda a simbologia desse número (12) é reunida em diferentes culturas, obtemos o número do justo, da elevação e do equilíbrio. É o número que representa o ponto mais alto que o sol pode atingir, ou seja, (o ponto) de maior poder e luz”. Conforme algoritmo do Google.

[ii] Aguarde a publicação de mais um artigo neste Blog, que tratará do assunto acima proposto.

[iii] Conferir, RUFINO, J. R. “Jubaíba tem nova liderança”. in: Mocidade Batista, Rio de Janeiro: JUERP, 1976. 4T76. p. 39.

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GALERIA DE FOTOS


1974: Fac-símile da reportagem, na revista Mocidade Batista do quarto trimestre.



Tomaz Munguba e Natanael Cruz foram preletores no segundo Acampamento.


1974: II Acampamento da Jubaíba, em Lagoa Seca, sob o tema: “As bênçãos da santificação”. O grupo Mensageiros de Cristo, da Primeira Igreja Batista de João Pessoa, participa ativamente do acampamento.


1975: o Acampamento Batista de Lagoa Seca fervilhava. O orador nessa ocasião foi Hélio Lourenço, da Igreja Batista Alvorada, de Feira de Santana, BA.



Eli Fernandes no Nono Congresso da Juventude Batista Brasileira, em Goiânia, quando a Jubaíba era apenas uma ideia, e quando ele já apresentava “um excelente relatório dos trabalhos da Juventude Batista Paraibana”. Talvez por isso é que algumas pessoas ainda chegaram a pensar que ele era o fundador da Jubaíba, quando quem foi o fundador de fato e de direito foi Eliezer Lourenço, conforme artigo já publicado neste Blog.  




domingo, 7 de março de 2021

A CASA DAS CINCO PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE

 


28.02.2021 Na piscina do Clube Português de Recife, após nadar dois mil metros. As marolas separadas em número de três e de cinco. Crédito da foto: Nilson Veras de Farias.

A CASA DAS CINCO PESSOAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE

enivaldo ufino

Ainda cheguei a pensar que essa minha ideia fosse puro devaneio. Tanto pelo fato de tentar colocar cinco pessoas poderosas numa mesma casa, quanto pela maneira um tanto esdrúxula como esse pensamento chegou e se desenvolveu na minha mente. E, ainda mais, por ter permitido que o pensamento fosse gerado e também parido em forma de texto. Isso lembra mais uma brincadeira infantil de um garoto afeito a esses jogos tão divertidos da infância.

Tudo começou na piscina olímpica do Clube Português de Recife. Estava no exercício diário dos dois mil metros de natação, esse esporte que muitos dizem ser um tanto solitário, e fazia a contagem cuidadosamente. Se as divisórias da piscina estão no sentido da largura, é preciso dar quatro voltas para completar cem metros; se estiverem no sentido do comprimento, bastam duas voltas para completar cem metros. Essas divisórias são colocadas para evitar, pelo menos em parte, as ondas naturais, ou marolas, a fim de que o nado se torne mais confortável. Algumas pessoas fazem a contagem apenas mentalmente, o que pode levar a erros tanto nos totais parciais quanto no total geral. Outras pessoas, como era e ainda é meu caso, preferem marcar separando as espécies de contas ou boias que fazem parte das divisórias, também conhecidas como marolas. Isso não quer dizer que a contagem fique certa, pois mesmo assim ainda se pode cometer erro em termos da quantidade de metros nadados, tudo causado pelo esquecimento durante a contagem.

Nadei muitos anos [i] sem me preocupar em brincar, pois natação é coisa séria. Tão séria, que se resolvesse brincar com coisa tão importante o tiro poderia sair pela culatra. Assim sendo, nada de criancice, nada de jogos infantis dentro d’água, nada de preocupação com outra coisa senão nadar e sempre com estilo e desempenho os mais corretos possíveis. Ora, uma vez que natação é um tipo de esporte muito complexo, eu me dedicava exclusivamente ao aprendizado e a comemorar o resultado. Só depois de um ano na escolinha é que finalmente me convenci de que valia a pena continuar, pois até aquele ponto as crises de coluna também tinham desaparecido completamente. Alguns anos depois, quando já iniciara meus estudos de pós-graduação, comecei a fazer planos acadêmicos enquanto nadava. As águas foram uma fonte de inspiração. E de lá saíram ideias para monografias e até mesmo dissertações de mestrado e tese de doutorado. Era tudo muito automático, encantador e revolucionário. E eu ficava cada vez mais empolgado com tudo aquilo. A água se tornou minha amiga com o passar do tempo, pois eu lidava com ela como uma criança lida com seus brinquedos favoritos. Cheguei a um desempenho razoável quando estava no auge, pelo menos no meu caso de iniciante: fazia dois mil metros de crawl em apenas quarenta e cinco minutos. E tudo começava sempre pela primeira braçada. Todavia, a alegria só seria completa quando alcançasse a última braçada.

A brincadeira com a inclusão da trindade só começou anos depois, quando senti necessidade de fazer a contagem separando as contas das marolas: uma conta para cada cem metros nadados, sendo que cada cem metros constavam de quatro voltas. E uma vez que nadava o total de quinhentos metros em cada etapa, aí é que surgiu a ideia da casa das cinco pessoas da santíssima trindade. A contagem era feita da seguinte maneira, e sempre repetindo quatro vezes até completar os cem metros: a primeira pessoa era o pai primordial, a segunda pessoa era o filho, a terceira era o espírito santo, a quarta era a mãe e a quinta era o pai que não era pai. Em outras palavras, eram Deus, Jesus, Espírito, Maria e José. Ora, inserir José e Maria na trindade não seria a apostasia de um devaneio dos últimos tempos? Poderia até ser, mas não era, pois sem esses dois a própria trindade se esvaziaria. E, como sabemos, no primeiro credo, o de Niceia, de 325, Maria já entra como theotokos, ou mãe de Deus. Assim como a trindade não se sustenta sem Maria e sem José, Maria não se sustenta sem José e nem José sem Maria. É um amálgama em que o que conta é essa interdependência: um só existe em função do outro, mesmo que, paradoxalmente, sejam independentes entre si.

Seria essa uma ideia estapafúrdia, de uma criança dentro de uma piscina a brincar com coisa demasiadamente séria e intocável? Poderia até ser, mas também não era, pois a literatura está cheia de exemplos da espécie, como descobri posteriormente. Seguindo uma lógica rudimentar, autores de renome defendem a importância de Maria na economia da salvação, colocando-a até mesmo acima do próprio filho. E, sendo mãe de Deus, ela não seria em nada menor que o pai. É claro que se trata de uma construção sem aquele aparato intelectual dos grandes gênios do cristianismo, que engendraram uma espécie de tríplice politeísmo a partir do monoteísmo do povo hebreu que, no final das contas, também é um politeísmo de acordo com esses mesmos autores, uma vez que o monoteísmo judaico só foi definido como tal a partir do segundo Isaías, ou seja, de maneira muito tardia. O que existia até ali era também um politeísmo, próprio dos povos nômades do deserto com seus Deuses tribais.

E para que não se diga que não falei de flores, como diria Geraldo Vandré na sua célebre e censurada canção pela ditadura militar, ou que não falei de filosofia, como pretendo, mais ideias vieram à minha mente no memorável sábado 13 de fevereiro de 2021, ao retornar à natação após uma seriíssima inflamação no ouvido esquerdo (otite externa), que quase me tira do sério, que terminou me tirando da piscina por quase um mês. Resolvi brincar, e fiz a contagem separando as marolas como se fossem pessoas da santíssima trindade. E naquele dia foram não apenas cinco, porém oito, cada marola/pessoa representando cem metros, pois meu nado atual consta de uma série de oitocentos metros, uma segunda de quatrocentos e a última de oitocentos. E de que maneira a ideia filosófica veio à tona? Ora, assim como a natação começa pela primeira braçada, toda divindade também começa pelo começo, isto é, a partir da primeira divindade, particularmente como é o caso da construção cristã. Por outro lado, a divindade não pode se misturar com a matéria caso queira manter seu estatuto espiritual e metafísico. Nesse caso, a unidade e a multiplicidade são antagônicas: a junção das duas geraria o esvaziamento do divino. Daí a ideia agostiniana, baseada na filosofia plotiniana que, por sua vez, bebeu da fonte platônica, de que Deus criou todas as coisas a partir da ideia dessas coisas que existe em sua mente, o que o bispo de Hipona nomeia de razões seminais, que originalmente foi criada pelos estoicos e só depois foi retomada e reelaborada por Plotino. Só dessa forma não há mistura do uno com o múltiplo. O conceito de criação, na filosofia cristã, surge dessas ideias como pensamento de Deus através das razões seminais: “E, assim como as mães ficam grávidas de sua prole, da mesma forma o mundo inteiro está grávido das causas dos seres que nascem, causas que são criadas no mundo por aquela Essência suprema sem a qual nada nasce e nada morre, nada começa e nada acaba” (Reale, “História da Filosofia”, vol. I, Paulus, 1990, p. 453, citando o Comentário literal ao Gênesis, da autoria de Agostinho). Só assim fica resolvida a questão filosófica colocada pelo autor, às páginas 449 e 450 da mesma obra: “Por que e como, do Ser que não pode não ser, nasceu também o devir, que implica a passagem de ser a não ser e vice-versa?” Minha brincadeira ao nadar é justamente com essa divindade, que não se mistura com o mundo e com a multiplicidade, e também com mais duas que foram acrescentadas pelos construtores intelectuais do cristianismo a partir da fonte judaica. E, como se não bastasse, resolvi adicionar mais duas pessoas que, a meu ver, são imprescindíveis para a sustentação da própria trindade. Existe, por acaso, heresia maior? 

Sempre que nadar, hoje ou no futuro, lembrar-me-ei dessa brincadeira da contagem trinitária à qual foram agregadas mais duas importantes pessoas. Sendo assim, a casa da divindade escancara as portas para receber e dar boas vindas não apenas a mais duas, porém a pessoas de todas as épocas, raças, tribos, nações e credos, sem rancor, sem rigor, sem preconceito, sem julgamento prévio, sem privilegiados, mas apenas em sua função primordial de juntar os desiguais como essencialmente iguais em seus direitos. Direitos que são sagrados aos seres humanos como tais. E só assim a brincadeira dentro da piscina se torna completa e ainda mais prazerosa, quer a natação seja solitária, quer solidária.



[i] Comecei o aprendizado de natação na Escolinha do Clube Português, em 1993, por conta de duas crises de coluna, distanciadas uma da outra, que me surpreenderam e me levaram a sair do trabalho em uma cadeira e a me submeter a duas extensas sessões de fisioterapia. Da segunda vez, perguntei ao médico o que deveria fazer para não voltar mais lá, e ele me respondeu: “Andar ou nadar”. Foi então que pensei: “Andar eu já sei, porém, nadar ainda não sei”. A partir daí, decidi começar do zero. Depois de um ano de tentativas, ainda estava em dúvida se chegaria a aprender alguma coisa que valesse a pena. Pensei em desistir diversas vezes, mas como sempre fui insistente e determinado e jamais abandonara coisa alguma que planejara, resolvi continuar e assim faço até hoje. E de vez em quando, ao demarcar os metros nadados, eu me lembro dessa infantil e salutar brincadeira aquática. E isso me faz um bem danado.


28.02.2021 Na piscina do Clube Português de Recife, após nadar dois mil metros. As marolas separadas agora são em número de oito. Crédito da foto: Nilson Veras de Farias.


 






domingo, 7 de fevereiro de 2021

O ILETRADO ILUSTRE

 


Ítalo nos primórdios do acesso ao complicado mundo das letras. Esse artigo nos retrata a todos nós e a tantas e tantos que ainda não tiveram a oportunidade que muitos de nós já tivemos.




O ILETRADO ILUSTRE

enivaldo ufino

Dizer o iletrado ilustre parece contradição e de fato é. O mundo das letras é complicado e incompreensível para muita gente, sobretudo para a pessoa iletrada e ainda mais para a criança. Apesar de utilizar as letras ao falar e interagir com outras pessoas, a partir dos primeiros conceitos que começa a emitir, a criança nada ou quase nada sabe desse esquisito universo da linguagem, dos sinais gráficos e dos signos. Por isso parece paradoxal dizer que uma pessoa iletrada é douta ou ilustre. Mas é isso mesmo que quero dizer, pois, como já mencionei em outra publicação, “a criança é Deus, pois é dotada de sabedoria divina”.  Apesar de não ter consciência nem saber nadinha disso, também usa palavras revestidas de som para expressar seus pensamentos, mesmo que ainda não completamente desenvolvidos. O pensamento assim revestido de som é uma das coisas mais sublimes da linguagem humana, pois equipara a todas as pessoas no mesmo patamar. Pouco importa se a linguagem é erudita ou não, ela sempre expressa essa realidade: a grandiosidade da comunicação entre almas racionais.

Na era das redes sociais, a comunicação entre almas racionais se tornou mais intensa e objetiva. Agora, praticamente todo mundo tem voz e vez, e cada um usando a vez e a voz como bem entende. Às redes sociais se associa o aglomerado de grupos que se multiplicam pelo mundo todo em busca de uma melhor interação entre seus pares. Às vezes a linguagem veiculada é a novíssima linguagem das figurinhas que falam por si e sem a mínima interferência de interlocutores e interlocutoras, cujo trabalho é só o de inserir esses novos ícones da comunicação ao pressionar determinados botões. Algumas pessoas são especialistas nessa revolucionária arte e outras nem tanto, como é o meu caso. Mesmo assim, continuo teimando e tentando me comunicar de alguma maneira, ao utilizar os antiquíssimos e riquíssimos signos das letras.

Voltando ao tema proposto, mesmo sem sair dele, tenho especial apreciação e atenção às palavras revestidas de som que são proferidas por pessoas da área rural, inclusive às que tenho acesso por conta de laços familiares e com as quais sempre mantive contato. São pessoas doutas, mesmo sem diploma de doutorado. E por falar nesse assunto, certa vez me dirigia a pé ao trabalho, em Campina Grande, lá pelos idos dos anos 1970, e ao ficar lado a lado com um jovem senhor que ia conversando enquanto caminhava ele, sem me pedir permissão, continuou a conversa contando comigo como interlocutor, e dizendo: “Antigamente, a coisa mais difícil do mundo era encontrar um doutor, hoje a gente levanta um tijolo e encontra cinco, seis lá embaixo”. A minha reação não poderia ser outra senão rir bastante. E assim faço até hoje ao lembrar daquele episódio insólito.

Vidrado que sou em novelas, principalmente quando o argumento chama a atenção, observei uma cena interessante na reapresentação de “Flor do Caribe”. O personagem Hélio foi alçado à vice-presidência ocupada pelo próprio filho do dono da empresa. Diante de tão grande privilégio por conta dos seus serviços perigosos e nada honestos, resolveu mudar tudo tanto no visual do gabinete de trabalho quanto na sua própria titulação. Quando uma das secretárias o chamou pelo nome, ele completou imediatamente, cheio de empáfia: ‒ “A partir de hoje vocês me chamem de doutor Hélio”. Assim como galgou tão rapidamente os difíceis graus da academia, de lá desceu com a mesma velocidade, pois foi demitido logo depois. Há outra cena que também chamou minha atenção, e agora não de novela, mas da vida real. Um dos membros da diretoria de uma grande empresa ligou para o vigilante procurando saber alguma coisa, e este não o reconheceu. Apesar de ser apenas graduado ele não teve dúvidas: ‒ “Quem fala aqui é o doutor fulano de tal”. É impressionante como quem tem o título não se importa em ser chamado porque já é, e quem não tem quer ser chamado porque ainda não é e provavelmente nunca será.

Doutor, mesmo sem ser doutor, é o que tenho visto por esses sertões afora, entre pessoas que não tiveram o privilégio de acesso ao saber formal. A fala revestida de som pode até parecer confusa ou desprovida de sentido para quem só vê um lado da fala, mas não é. São verdadeiros tesouros ocultos em mentes capacitadas pela natureza e pela adaptação forçada à própria falta de capacitação. Muitos autores ilustres se debruçam nessa temática, como é o caso de João Guimarães Rosa (1908-1967, 59) em seu romance Grande sertão: veredas, ao narrar em linguagem desconexa a fala de Riobaldo, “ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e o amor reprimido por Diadorim” e, ainda, que “não consegue organizar suas ideias e expressá-las de modo satisfatório, o que gera um relato bastante caótico” [1]. Essa mesma dificuldade é enfrentada por tantos outros Riobaldo espalhados pelo Brasil. E não apenas na área rural, mas também desde a periferia até áreas mais nobres das grandes cidades, sobretudo entre as pessoas menos privilegiadas. Isso sem falar que até mesmo entre as pessoas mais instruídas existe uma dinâmica tão rápida no modo de se expressar coloquialmente que chega a causar espanto. É que a linguagem humana é dinâmica e muda rapidamente, numa espécie de adaptação aos novos tempos e novos desafios. Estava nos meus últimos dias em São Paulo, quando se tornou linguagem corrente na universidade a expressão “Como você chama?” no sentido de “Como você se chama?”, por exemplo. Isso sem falar no gerundismo oriundo dos Estados Unidos, que se tornou corriqueiro até mesmo nos discursos políticos, e de expressões mais simples e que são constantes na fala do povo. Tudo isso é comunicação que sempre comunica de alguma maneira. Assim sendo, nem tem como alguém da cidade reclamar da linguagem aparentemente mais rude de quem vive alheio a esse tipo de ambiente mais sofisticado e de alguma maneira mais privilegiado.   



[1] Conferir pelo algoritmo do Google. 


domingo, 3 de janeiro de 2021

O MENINO QUE NÃO MENTIA / O MENINO, O MAR E A DIVINDADE

 

Criança não mente. Por isso mesmo é que o adulto é que deve imitar a criança e não o inverso.

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Este texto está pronto há muito tempo, mas resolvi fazer uma surpresa ao incluir um adendo muito importante que foi escrito pelo meu filho Joran no último dia do ano que passou, e que tem tudo a ver com a temática deste conto. O título atribuído ao escrito dele é de minha inteira responsabilidade: "O menino, o mar e a divindade. Boa leitura para todas e todos.

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O MENINO QUE NÃO MENTIA

Renivaldo Rufino

Analfabeto que era aos dez anos de idade, aquele menino nada sabia das letras nem dos ditos filosóficos e intelectuais. Jamais imaginaria que no futuro alguém diria, com respeito aos pequeninos: "Se Deus é criança, pois jamais mente, a criança é Deus, pois é dotada de sabedoria divina. Ora, se a sabedoria é reservada aos Deuses, a exceção é feita apenas com a criança, pois ela tem esse tipo de sabedoria exclusiva da divindade”. Sendo assim, criança não mente, a não ser por imitação do adulto. Por isso mesmo é que o adulto é que deve imitar a criança e não o inverso.  

A demonstração inconteste de que a criança não mente é quando ela profere alguma palavra em que o critério de verdade é posto à prova. Ainda mais se ela não dispõe de nenhuma outra testemunha. Aliás, a bem da verdade, a criança sempre depende de si mesma em termos de testemunho, por conta de sua fragilidade. Nessas questões de foro íntimo, a criança é sempre a mais eloquente testemunha de si mesma. Foi isso que ocorreu com aquele menino lá no interior da Paraíba, pelas bandas de um pequeno açude conhecido como Açudinho. O encanto deste conto [i] aconteceu na segunda metade dos anos 1950.

O menino estava sozinho. Era a única testemunha de seus próprios atos, pois com ninguém mais contava além da natureza que o cercava. Perambulava pela parede do açude, enquanto olhava os arredores e tentava encontrar um alvo fácil de ser atingido pela pequena pedra de sua baleadeira [ii], também conhecida naquela região como peteca. Geralmente, pássaros variados e até mesmo patos vinham beber das águas do açude. A sede causada pelo clima quente era terrível e aquele lençol d’água em pleno sertão era um grande chamariz. O nosso garoto sempre teve a atenção voltada para as belezas da natureza, sobretudo pela maior delas: patos voando. O que mais atraía sua atenção era o porte elegante daquelas aves, que cruzavam os céus geralmente despidos de nuvens. Encantava-se com seus longos pescoços e com as patas sempre dispostas bem estiradas em sentido vertical ao corpo, enquanto voavam nas alturas e deixavam a marca indelével de sua passagem tão rápida. Seu olhar as acompanhava até perder de vista.

E como se não bastasse a intempérie climática do local, os pobres pássaros ainda tinham de tomar toda cautela com as crianças que perambulassem naquelas cercanias, pois algumas também eram ferozes predadoras, sempre munidas de armas mortais, coisa que nenhum pássaro conseguia descobrir, por mais esforço que fizesse. E ali estava um garoto andando sozinho pela parede do açude, como que à toa, à cata de uma vítima de porte, inteligência e estratégia bem diferentes e até inferiores da sua.

De repente, os olhos do menino param num ponto fixo. Entre os galhos da pequena árvore quase sem folhas, logo ali à frente, ele notou um movimento que chamou sua atenção. Aguçou bem o olhar e notou a pequena rolinha quieta, parada, parecendo adormecida. Bem que a pobre coitada merecia uma sesta após os goles d’água que tomara à beira do açude. Mas nossa criança não estava preocupada com o merecido descanso daquele pequeno pássaro, e nem com o direito que ele tinha de viver e explorar a natureza ao seu derredor. O que a preocupava era outra coisa. Ela queria aquela rolinha em suas mãos, peladinha e assando nas brasas do fogão de sua casa. Falar nisso, a saliva já começava a mostrar seu efeito na boca do pequeno caçador. Ele estava ansioso para conseguir seu intento.

Com muita paciência e lentidão, começou a se ajeitar para desferir o golpe. Daria tudo para que seus movimentos não espantassem a presa que estava a seu alcance. A natureza cooperava com ele, pois as poucas folhas das árvores sequer se mexiam. O vento foi mui amigo nessa hora. Nenhuma pessoa havia ali por perto. Até mesmo os demais pássaros emudeceram diante da cena. Tudo contribuía para que o menino tivesse pleno êxito na sua caçada. Até a rolinha como que se colocava de peito aberto a poucos metros de seu pequeno algoz que, com movimentos sutis, dava furtivos passos na direção da vítima sem que ela disso se apercebesse. Tudo que ele queria era chegar com o lindo troféu em casa, como seu primeiro prêmio de caçador mirim.  

Com a arma em mãos, o pequeno se ajeitou, empunhou a baleadeira na posição correta e a direcionou exatamente na direção do peito da pobre coitada. Retesou aquela espécie de arco o máximo que pôde, liberou a pedra fatídica e notou que ela foi no prumo do coração da emplumada. Percebeu que ela cambaleou no galho, feito bêbado vencido pela bebida, e caiu na direção do solo. O coração do garoto vibrou de emoção naquele momento histórico. Só não fez chorar, mas berrou com toda a força de sua voz mirim: “Consegui, consegui!” E aí não teve dúvidas: correu até ao local onde o pobre passarinho caíra. Exaurido como estava, por causa do calor e da sede, mesmo assim chegou rapidamente ao ponto exato onde estaria o prêmio máximo da batalha vencida, ainda inconsciente de que seu inimigo era tão pequeno e estava completamente desprovido de qualquer tipo de arma de defesa. Talvez por isso mesmo sentiu um toque diferente mexendo com seu íntimo, como que alertando para o ato de covardia diante de um pequeno e indefeso pássaro.

Ficou abismado com o que viu quando seu olhar pousou no lugar onde a rolinha caíra. Nem marca havia, nem penas, nem pássaro, nem nada. “Já sei”, pensou, “ela foi baleada e saiu cai aqui cai acolá. Portanto, deve estar morta em algum lugar!” Resolveu, então, sair em busca daquela promessa de refeição, e se mandou pelo meio do mato à procura da pequena preciosidade. Quanto mais procurava, mais se dava conta da inutilidade de sua busca. Certeza ele tinha, ah, isso ele tinha, de que atingira o alvo. Estava convicto, ainda, de que a vira cair como morta, praticamente a seus pés.

Ora, se criança não mente, essa criança, que ainda vive na pele de uma feliz senectude, também não está mentindo. E o que vem depois da parede do açude e do retorno a sua casa, disso não está lembrado. O de que lembra é que matou a rolinha e ela deve ter saído correndo mesmo depois de morta. Foi o jeito que a pobrezinha encontrou para se livrar de seu predador de uma vez por todas. De certa maneira, a vítima também se tornou heroína e não se deixou carregar como um troféu de um pequeno e incipiente caçador que estava a fim de assá-la e sentir seu delicioso sabor.

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O MENINO, O MAR E A DIVINDADE

Joran Diniz Rufino

Hoje é o último dia do ano de 2020. Tive nessa despedida de 2020 um momento de meditação em um pedaço de terra dentro do mar (na Ilha de Itamaracá). Instante que vale compartilhar, pelo frescor e incrível acesso que todos nós temos oportunidade o tempo todo de ter.

É, me afastei um pouco de alguns familiares e amigos para ficar em um braço de mar bem raso de água, mas cheio de exuberância da natureza; situação que estimulou bastante um bom mergulho no meu interior. Poxa vida, como é renovador um momento com essa profundidade de contemplação.

Depois de algum tempo de contato com a essência daquela paisagem viva, Nicolas aparece naquela pequena ilha vindo em minha direção, passos de um menino que deixou apenas há algum tempo o andar de bebê, porque já é um menino de três anos, cinco meses e vinte e cinco dias. Mas o seu caminhar ainda revela os passos de um recém-chegado neste planeta.

Ele deixou a mãe, a avó voínha, a tia e alguns amigos que estavam a uns cem metros de mim e veio em minha direção. Nessa hora, toda a força da natureza estava naqueles passos, naquela pessoa que me escolheu como pai. Essa vinda dele responde a uma antiga pergunta que me fazia quando chegava a pontos bem silenciosos de oração como esse, que era: quem tá comigo em um momento desses, tão alto assim?  E nessa vinda de Nicolas, é como se o universo renascesse para me oferecer a resposta, nesse sentido do Ser que caminha por esse lugar através da nossa disponibilidade. Aí pronto, nessa vinda dava para escutar ele cantarolando e olhando para os pezinhos pisando na areia com água, só que ele perdia direção e voltava a me procurar para ter a referência para onde estava indo. E veio se aproximando mais e mais até chegar rindo e me perguntando: "Pai, por que você tava mudando de lugar o tempo todo?", disse que não, que tava no mesmo lugar. E ele foi brincando com a areia, com as folhas, com as conchinhas e com a água ao redor, até que a água salgada entrou no olho dele e ele não gostou. Começou a chorar, fechar os olhos com força e querer mamãe. Vi que ele não me deixava olhar o olhinho dele para ajudar, mas senti também que aquele estado de paz e meditação continuava. Então, comecei a cantarolar com o barulho das ondas e do vento até que o choro parou e ele deitou no meu peito e amoleceu, até que pensei que ele estaria dormindo, mas não... era calma mesmo. Depois de muito tempo, levantei com ele no braço e vim andando muito devagar em direção à mãe e aos outros e repeti para ele algo que tinha dito assim que chegamos naquele lugar, antes de ter ido para o meu/nosso Instante, eu disse umas três vezes com alegria apontando para o céu, terra e mar: "Filho, isso é tudo nosso". Desse jeito, eu disse novamente... aí chegamos na parte principal da história, que foi esse diálogo:

Nicolas: "Pai, é tudo culpa!"

Pai: “Como culpa, filho, o que é culpa?”

Nicolas: "O celular e o ventilador. Tudo é culpa Pai!”

Pai: “E a gente, filho?”

Nicolas: "A gente não, pai, a gente tá com Deus!"

Fico grato, com toda limitação dessa escrita ainda sem correção ter essa história narrada. Mais gratidão ainda pelo filho, pela família, pelos amigos e pela possibilidade de um ano Novo nessa Paz. Gratidão de Verdade, pelo encontro nesse achado com Nicolas: "A GENTE TÁ EM DEUS, PAI!".

FELIZ ANO NOVO, AMADOS!



[i] Esse texto faz parte dos escritos que estou produzindo já há algum tempo sobre o encanto dos meus contos com acréscimos e descontos, cuja inspiração me ocorreu por ocasião da leitura de "Todos os contos", de Clarice Lispector.

[ii] A partir da juventude ele já não faria uma coisa dessas, pois passou a respeitar os pássaros e seu direito à liberdade e à vida.

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GALERIA DE FOTOS


Joran, autor do segundo texto desta publicação.


Nicolas e sua sabedoria divina.


Bianca (esquerda) e Beatriz em momento de descontração. Enquanto Bianca segura a bolinha com as mãos, Beatriz faz a magia de segurar a bolinha solta no ar. Você pode decifrar essa charada e responder de que maneira ela conseguiu a proeza?


O autor do conto ousando pular repetidamente nas águas do Velho Chico, em Petrolina, mesmo tendo pago o alto preço de ficar com as coxas que eram sangue puro.