domingo, 4 de outubro de 2020

GINA, MUSA DE PRÍNCIPES, PLEBEUS E POBRES DIABOS

 

Diante da beleza simétrica e clássica de Gina, o ator Humphrey Bogart disse: “Marilyn Monroe diante dela é uma Shirley Temple” (famosa atriz mirim). Cinelândia de 1971 traz essa foto, a segunda da provocação a meu irmão, e também a reportagem com o título: A elegância de Gina e a nudez de Godiva.

GINA [i], MUSA DE PRÍNCIPES, PLEBEUS E POBRES DIABOS

enivaldo ufino

Provocado pelo meu querido irmão Regi [ii], que foi provocado por três fotos da musa Gina Lollobrigida (04/07/1927), e ouvindo, com fones de ouvido, a belíssima e emocionante música Silêncio, com Flávia Wenceslau, ouso falar sobre o que não posso e nem devo falar, sobre o que seria melhor calar, pois por ser inefável é também inalcançável com explicações e palavras vazias de sentido. Com lágrimas nos olhos, diante das imagens da musa aqui diante de mim e do som também inefável, resolvo ousar, teimar e escrever alguma coisa, mesmo que inútil, pois sei que assim faria também Agostinho de Hipona (354-430), filósofo queridíssimo e sobre cujos textos me debruço há cerca de vinte e três anos, tentando entender um pouco pelo menos da superfície do seu pensamento.

Como falar de Gina? Como falar do que ocorreu na minha vida interior e exterior quando tinha apenas 12 anos de idade? Eu era apenas um menino. Mas foi tão forte que até hoje mexe muito comigo. Mexe e me faz muito feliz. Mexe e me diz que eu continuo aquele mesmo menino. Mexe e me convence de que aquele menino amante de cinema não morreu, pois para onde teria ido, como sugere Agostinho nas Confissões? E nesse ponto as lágrimas teimam em banhar o meu rosto. Eu era apenas um menino e deveria guardar todas essas coisas do espírito em completo silêncio dentro de mim e só para mim. Mas não pude guardar, pois era muito forte. Aliás, continua sendo muito forte. E foi justamente meu queridíssimo irmão quem teve acesso a essas coisas interiores que se esparramavam no meu exterior, assim como estão tendo todas e todos que tiverem acesso a essa confissão do meu coração. Mesmo distante, Regi sempre esteve muito perto e, assim como Gina, continua perto até hoje. E gosta de fazer essas coisas comigo, de me provocar, de me empurrar para mergulhar mais fundo, de me levar a ficar assim como estou agora. E eu até que gosto, pois só ele sabe fazer isso, só ele sabe mexer comigo dessa maneira, só ele sabe cutucar meu coração, estimular meus olhos a verterem lágrimas como agora.

Regi é tão especialista na arte de mexer comigo, que disparou essa atrocidade: "O que farias se apagasse Gina da tua lembrança? Estou apenas mexendo contigo, pois essa seria a última brincadeira de mau gosto que tiraria com alguém que sempre representou o meu bom gosto!" Puxa vida, quanta santa crueldade em nome do amor. Apagar Gina da minha lembrança? Seria como apagar as minhas lembranças mais caras, mais sublimes, mais queridas, mais constantes, mais presentes, mais passadas, mais futuras e mais eternas. Seria um desmoronamento completo, total. E um desmoronamento do meu interior e exterior. Por isso mesmo não posso silenciar. Por isso mesmo insisto em teimar e falar. E nem preciso ouvir o céu e a imensidão, como Flávia continua cantando, mas apenas ouvir o meu coração, meu interior, até mesmo o sentimento oculto lá no íntimo do íntimo, só para lembrar Agostinho mais uma vez.

Gina é uma deusa para mim, como Regi chega a sugerir? "Como qualificar uma lembrança dessas? Imagino que na entrada da imagem dela na tua percepção ocorreu não apenas uma aprovação imediata, como em especial aquele algo mais como um Endeusamento". É, até que poderia ser, mas não é. É mais que isso, pois eu não posso explicar, simplesmente não sei explicar, só sei sentir. Quando tento traduzir em palavras finitas aquilo que me é infinito, a minha tentativa frustrada só me leva aos 12 anos. Retorno para lá e trago tudo aquilo para cá, para o aqui e o agora. Ao mesmo tempo, permaneço lá experimentando aquelas mesmas delícias paradisíacas do menino que eu fui e não sou mais. O menino teimoso que me surpreende dizendo que não desapareceu, não foi embora, não me abandonou à própria sorte. O menino que ainda me dá alegrias infindas, maravilhosas, inesquecíveis e duradouras.

Gina não é uma deusa para mim, nem que a palavra fosse escrita com letras maiúsculas, assim, Deusa, não, não é. Eu nunca a adorei. Eu nunca lhe fiz preces e nem me prostrei à imagem de seus lindos pés. Eu nunca lhe dei em abundância para que ela me ficasse devedora, só para lembrar Agostinho mais uma vez quando fala da relação mercantilista entre o homem e Deus. Definitivamente, ela não é uma deusa para mim. Pode ser apenas uma musa, uma inspiração, uma respiração profunda, serena, tranquila, um agradável raio de luz do Sol, uma doce lembrança, um tesouro que trago comigo há justos 62 anos, um sopro de vida a impulsionar minha vida. Feito uma flor que resistiu, assim sou eu, conforme diz Flávia em seu Silêncio nada silencioso e tão maravilhoso aos meus ouvidos e coração.

Seria possível arrancar uma coisa dessas do interior e exterior de alguém? É impossível. Seria possível explicar uma coisa dessas com o recurso de palavras sem recursos linguísticos suficientes? Seria também impossível. Mesmo assim, tudo é possível, só para lembrar os paradoxos agostinianos, pois, conforme diz Regi com suas palavras de sabedoria, as coisas que não têm explicações, e que estão situadas além do belo, são "criadas apenas pra serem sentidas, jamais explicadas!" Disse tudo. Está além, muito além, e também está aquém, muito aquém. Gina é tudo isso e muito, muito mais. Contemplar sua beleza etérea nessas três imagens é extremamente emocionante para mim, mas também gratificante, pois me transporta a três momentos específicos de minha trajetória desde aquela meninice. São os três momentos dos próprios registros fotográficos, mas também outro momento tremendamente dramático, quando me desfiz de tudo que colecionara sobre ela, e até mesmo da maior parte dos desenhos que traçara desde a minha adolescência. O menino, agora, estava com apenas 22 anos. Na sua vida interior e exterior, a musa parecia digladiar-se com um Deus muito poderoso. Claro que, no primeiro momento, o poderoso Deus sairia vencedor. Ele era um Deus e ela era apenas uma musa, uma inspiração, uma gostosa e suave lembrança que acalentava o coração do menino, do jovem, do adulto e do futuro senex ‒ pessoa de idade avançada ‒, lembrando Agostinho mais uma vez.

Mas como as coisas do coração são muito fortes, do coração que precisa repousar como diz Flávia na música, a musa reapareceu muito tempo depois, uma vez que, assim como o menino que não morrera, ela também prevalecera durante todo o tempo que parecera não prevalecer. Ela continuava lá, silenciosa, bela, terna, sempre presente, agradável, deliciosa aos olhos e à mente, imortal, uma verdadeira Vênus Eterna, como escreveu certo articulista. Se Flávia fala sobre encontrar todas as folhas que eu juntei, eu falo sobre tudo que comecei a encontrar e juntar desde que reencontrei a musa. E essa segunda fase foi ainda mais emocionante e mais rica que as anteriores.

Lembro-me que às margens do rio Sena, em Paris, em 1990, eu a encontrei ao vivo e a cores em uma revista conservadíssima de 1959, no papel da perturbadora Rainha de Sabá ‒ só pronunciar esse nome chega a me causar arrepios! ‒, quando a linda soberana forçou o grande Rei Salomão a se dobrar diante de seus encantos de mulher pagã. Eu também a encontrei, espiritualmente, na Catedral de Notre-Dame, onde ela fez o filme que me conquistou aos 12 anos de idade, O corcunda de Notre-Dame (Notre-Dame de Paris). E eu fotografei a catedral como se estivesse fotografando a bela Esmeralda. Só dos umbrais das portas que dão acesso à nave principal eu tirei trinta e nove fotos. É certo que perdi tudo em Seul, para onde me dirigia com os demais quarenta e um componentes do Coral Sinfônico do Seminário Batista de Recife. Mas valeu a pena. Ah, como valeu!

A surpresa maior o menino só teria quando chegasse a São Paulo para fazer a tentativa de concorrer a uma vaga ao doutorado em filosofia na USP. E onde ficou hospedado como se fora um príncipe? Providencialmente, na casa do seu inseparável e provocador irmão. Estada de 1955 dias corridos digna da própria Gina Lollobrigida. Nas suas idas e vindas pela terra da garoa, encontrou uma banca de revistas antigas na República, onde resgatou uma infinidade de Cinelândia, Filmelândia, O Cruzeiro, Manchete, enfim. Tudo isso o deixou ainda mais feliz e realizado. A surpresa maior ainda estava por vir. Certo dia, encontrou uma Filmelândia e, ao abrir a revista, viu a foto de Gina estampada no verso da capa. Bastou isso para comprar a revista, pois era o suficiente. Quando foi folhear a Filmelândia à noite, ao chegar a casa, ficou estupefato diante do que viu: seu próprio nome estava lá, na seção Correio dos Fans, como Renivaldo Freire, e quando contava apenas 15 anos de idade e morava em Arcoverde. Ricardo, dono da banca, ficou impressionado e disse que era caso para publicação. E aquela foi mais uma revista resgatada, depois de tanto tempo de silêncio e distanciamento forçado por uma circunstância.

E o que mais dizer? São tantas coisas para dizer do que não posso dizer, falar nem escrever, que finalmente é melhor calar. É preciso fazer silêncio, como sugere Flávia Wenceslau nesse exato momento, silenciar para contemplar a beleza de uma musa que não apenas representou "A mais bela mulher do mundo" em 1956, como foi eleita nos anos 1960 como a mais bela do mundo, diante de belezas estonteantes como as de Elizabeth Taylor, Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale e tantas outras. É preciso silenciar diante da confissão de um menino que hoje vive a plenitude de uma alegre e feliz senectude. Silêncio, pois é hora de repouso, já é madrugada, hora de ouvir o coração, hora de me deleitar diante de tantas e tantas belezas que circundam minha vida. É hora de usufruir o prazer da inspiração de uma musa que alegrou e mexeu com o coração de príncipes, plebeus e pobres diabos ao redor do mundo, e até mesmo com um matutinho, um matutinho de Caroalina, aquele pequeno vilarejo pertencente à cidade de Sertânia, em Pernambuco. Silêncio, pois agora eu quero ouvir o que me diz a imensidão dos tesouros depositados nos palácios da minha memória, e dormir sossegado, tendo o pensamento voltado para minha musa, meu filósofo e para tudo que me proporciona vida, alegria e realização. Minha musa como representante de todas as coisas que me causam prazer e alegria nos dias atuais, e meu filósofo como representante do profundo desejo de um mero amigo da sabedoria que continua um eterno menino aprendiz, apenas aprendiz e nada mais. Silêncio!


NOTAS
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[i] Meu irmão me fez a provocação às 21h45 do dia 14.09.2020, nos seguintes termos: Gina ‒ Não tem como esquecer, por mais ou menos que se apresente o detalhe. Apenas você viu, de todos que conheci, e eu, que de tanto ser lembrado, terminei ficando acordado para não perder as próximas novidades. Gostaria de pedir os teus olhos emprestados por um instante, só para captar os lances reservados por ti. Esses lances tinham que abranger externo e interno (da própria Gina). Isso não é querer demais? O que farias se apagasse Gina da tua lembrança? Estou apenas mexendo contigo, pois essa seria a última brincadeira de mau gosto que tiraria com alguém que sempre representou o meu bom gosto! Como qualificar uma lembrança dessas? Imagino que na entrada da imagem dela na tua percepção, ocorreu não apenas uma aprovação imediata, como em especial aquele algo mais como um Endeusamento! Diria sem segundas intenções: são coisas sem explicação, situadas além do belo, criadas apenas pra serem sentidas, jamais explicadas! Apenas tentei dividir o melhor de ti, para testar até onde vai o prazer das nossas caminhadas!

[ii] Texto original produzido a partir da provocação que me foi feita pelo meu irmão Reginaldo Freire. Escrevi o conteúdo sob forte emoção, a partir das 22h35 do dia 14, aos 54 minutos do dia 15.09.2020. Para a publicação, fiz mais algumas revisões e pequenos acréscimos, e incluí mais algumas fotos da atriz.   

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GALERIA DE FOTOS

Gina é aquele tipo de beleza clássica, verdadeiro colírio para os olhos e o espírito. Essa foi a primeira foto que postei no Whatsapp para provocar meu irmão.

Gina em todo o esplendor de sua beleza, já nos tempos de juventude do matutinho de Caroalina. Essa foi a terceira foto que postei no Whatsapp para provocar meu irmão.

Gina na foto do verso da capa da Filmelândia adquirida na banca da República, em São Paulo.
Filmelândia, junho 1961: página do Clube dos Fans e detalhe com o nome do admirador da musa.
A beleza selvagem da cigana Esmeralda conquistou não apenas Phoebus, capitão da guarda do Rei da França, mas também o menino de 12 anos, em Arcoverde, e muitos outros meninos ao redor do mundo.
Esmeralda só podia mesmo assanhar muitos corações, inclusive o do menino que se tornou seu  admirador somente ao contemplar as fotos que foram exibidas na sala de entrada do suntuoso Cinema Bandeirante, em Arcoverde.
Esmeralda está bem guardada sob os cuidados de Quasímodo, o sineiro de Notre-Dame.

O primeiro sinal de que a divindade poderosa tinha vencido a batalha contra a musa: o menino, agora rapaz, rasga e joga no lixo uma pose igual a essa, porém em tamanho menor  (no original) e em preto-e-branco.

A escultura viva e seu bamboleante andar, diante de outras esculturas.

Le Bambole, “As bonecas”, o filme que lhe valeu um processo da justiça italiana.

Belíssima, em momento de intervalo de Come september ("Quando setembro vier").

Bersagliera, a pobre, bela e sábia camponesa do premiadíssimo “Pão, amor e fantasia”.

A belíssima musa foi capa de revistas ao redor do mundo, inclusive no Brasil.
Gina como aparece em Go Naked in The World (“Nua no mundo”), filme que ainda foi cogitado a concorrer ao Oscar e no qual faz o papel de uma prostituta de luxo que se envolve com o pai e o filho.

Gina magnífica e elegantíssima na estreia de “Salomão e a Rainha de Sabá”.

A esplendorosa Rainha de Sabá conquistou o coração do grande Rei Salomão, que não apenas se entregou a seu fascínio pagão, mas também lhe gerou um filho.

Gina de beleza singular, justamente na época que despertou o comentário de Bogart.
Loiríssima em “A beleza de Hipólita”, filme que marcou sua volta à Itália depois de longo período em Hollywood.

Esmeralda dança leve feito uma pluma no átrio da Catedral de Notre-Dame, ao lado de sua cabrinha mágica Djali e da multidão, enquanto três homens ficam de corações abrasados diante de sua estonteante beleza: o pároco da igreja, monsenhor Claude Frollo, o capitão Phoebus, da guarda real, e Quasímodo, o corcunda e sineiro criado pelo próprio Frollo.


Gina em plena senectude dirigindo sua Ferrari vermelha.


O encontro Gina/Marilyn quase provoca um terremoto em Nova Iorque. O suave sopro da beleza das duas musas ainda chegou a alvoroçar a saia plissada da americana, em famosa foto que correu o mundo inteiro e que também inspirou os traços de desenho do admirador da italiana.


O menino, já rapaz, ficou tão encantado com essa pose, que fez até uma crônica na época.

Gina, grande vencedora do Globo de Ouro 1961 como atriz favorita do mundo.

A beleza da Gina Nazionale dos italianos sempre foi celebrada no mundo todo. E o menino, já rapaz, ousou desenhar essa pose da musa.

Gina inspirou o desenhista e “pintor” que jamais foi pintor, mas isso só em 1964.

Gina também contracenou ao lado do célebre ator francês Alain Delon.

Gina em Moscou foi surpreendida como nunca fora em toda sua vida.
Foi um escândalo encontrar-se com Liz Taylor em Moscou usando o mesmo vestido.

Gina não perde a pose e a elegância, nem mesmo aos 87 anos.

Na fase madura, conquista fama e reconhecimento internacional como escultora, inclusive de peças imensas que foram expostas em diversas partes do mundo.

Gina belíssima na comédia americana Come september (“Quando setembro vier”).

A mais bela flor do Lácio ou, simplesmente, de sua cidade Subiaco.

Gina jovem e de beleza impressionante em um de seus primeiros filmes.

Com corpo escultural e medidas perfeitas de 1,66 m, 90 cm de busto e quadris, e 54 cm de cintura, faz pose de bailarina e exibe belíssimas pernas.

Aos 93 anos, na data da publicação deste artigo, Gina é a única sobrevivente dos nomes principais de “Quando setembro vier”: Bobby Darin, Sandra Dee e Rock Hudson.

Em intervalo de filmagem de "Quando setembros vier", com o único filho, nascido em 1957, Andrea Milko Skofic Júnior. 

Gina, aos 33 anos, no esplendor de sua beleza mediterrânea.

A musa nos seus primeiros tempos, em postal que o matutinho de Caroalina chegou a adquirir em sua adolescência lá em Arcoverde.

Gina chegou até a ser capa de revistas na terra do poderoso Deus dos hebreus, exibindo um belíssimo par de pernas.

No papel de Lisa Fellini, a belíssima noiva de “Quando setembro vier”.

Com essa provocante dança ao Deus Dagon, a Rainha de Sabá conquista Salomão definitivamente, o que despertou a ira do ciumento Deus Yaweh dos hebreus.

Gina revelou talento cômico na deliciosa comédia "Quando setembro vier".

Atuar com Rock Hudson em dois filmes foi um grande trunfo na carreira de Gina: “Quando setembro vier”, foto acima, e “Amor à italiana” (Strange Bedfellows).

Gina em 1967, aos 39 anos, abafou no Carnaval do Rio de Janeiro com esse decote em V pra lá de generoso para a época. O menino, já rapaz, gostaria tanto de ter estado lá, mas suas posses financeiras não permitiam!


E, para finalizar essa amostra parcial, a musa como aparece na premiadíssima película "Vênus Imperial", onde faz o papel de Paoline Borghèse, irmã de Napoleão Bonaparte. E, em seguida, mais uma tentativa do admirador de retratar sua musa. Esse foi um dos desenhos salvos da catástrofe que levou o autor a se desfazer de quase tudo do seu acervo pessoal sobre ela, tão logo aderiu à Primeira Igreja Batista de Campina Grande, em outubro de 1968, aos 22 anos de idade.

domingo, 6 de setembro de 2020

A JUBAÍBA PEQUENINA

 


Minha neta Bianca veste camisa original do 3º Acampamento da Jubaíba, Juventude Batista da Paraíba, 1975, que já serviu a titio Joran, mamãe, irmãzinha Beatriz e priminho Nicolas, quando nessa mesma idade. Bianca está hoje com um ano e sete meses.   


A JUBAÍBA PEQUENINA

enivaldo ufino

O fim da tarde da segunda-feira 13 de janeiro de 2020 foi um momento histórico e agradável, com grande farra na sala do nosso apartamento em Recife. Bianca era a estrela da vez e atraía olhares e atenção. Só faltava o tapete vermelho. Exibia suas proezas com movimentos ágeis e incessantes. Palmas saúdam mais uma nova façanha da pequerrucha assim num abrir e fechar de olhos. Risonha como é, batia palmas, soltava gritos e gargalhadas, mesmo sem ter consciência dos seus atos. Por outro lado, seu intelecto estava sendo enriquecido, despertado e desafiado diante desses novos horizontes. Seu coração se enchia de conceitos que seriam depositados em nossos ouvidos com o passar do tempo. É pena que nossa capacidade intelectual não estivesse à altura, como ainda não está, para entender cada conceito emitido, nessa linguagem de uma alma racional em desenvolvimento.

Faltavam apenas sete dias para 20 de janeiro de 2020, quando a heroína completaria o primeiro ano de vida. As piruetas variavam naquele palco improvisado entre sofás, com a plateia superinteressada e atenta aos mínimos detalhes de suas idas e vindas. A velocidade de seu engatinhar era algo encantador, admirável. Parecia feita de borracha. Essa cena familiar já nos empolgara cerca de seis anos atrás, quando sua irmã Beatriz vivenciara momentos semelhantes, como foco das atenções. Agora, no entanto, a irmãzinha maior já faz parte da assistência a observar os volteios graciosos e se preparar para a surpresa que está eclodindo. Incentivada pela torcida, Bianca se servia do apoio do sofá para dar demonstração de sua capacidade de ficar em pé e circular agarrada às bordas com desenvoltura. Quanto maior a ovação, mais animada ficava e mais velocidade imprimia aos pequenos movimentos com suas perninhas encantadoras.

Nem passava pela sua cabeça que vestira uma bela e antiga camisa colorida da Jubaíba, quando era mais nova, e que fora fotografada deitada no tatame vermelho de Papai Petrusk, lá na distante Serra Talhada, que fica a 406 km de Recife. De igual modo, jamais imaginaria que uma das manias do seu Avô é preservar coisas antigas que têm valor histórico, prática que conserva desde sua adolescência. Sendo assim, ficava mais que evidente que ele jamais jogaria uma camisa dessas no lixo, pois sem esse e outros acessórios de fatos passados não existiria nem presente e nem futuro.         

De repente, tive uma ideia em meio àquela algazarra. Coloquei-a em pé a uma distância de poucos passos e lancei o desafio: “Vamos andar, Bianca?” Ela fez que não me ouviu e, quando a soltei, logo se sentou. Pensei com meus botões: “Vá ver que não entendeu”. Recomecei tudo do começo, e de novo a coloquei em pé a minha frente. Olhando nos olhinhos dela, desafiei: “Vamos andar?” Ela olhou para um lado, olhou para o outro, só com a intenção de medir o grau de observação e paciência do Vovô ansioso e, sem olhar nos meus olhos, fez menção de avançar, mas esbarrou diante do empecilho dos aplausos. Nem um milímetro de passo saiu daquelas perninhas lindas. Quanto maior o incentivo, mais a garota fazia charme. De repente, ainda com olhar ligeiramente voltado para a lateral esquerda, como quem não quer nada ao tempo em que está querendo tudo, conseguiu a proeza de um primeiro e titubeante passo. Bastou isso para os aplausos irromperem como se estivéssemos em jogo de futebol da Copa do Mundo. A pequenina nem se preocupou, nem esmoreceu, mas demonstrou soberania de vontade, e deu mais um passo, depois outro, até que chegou a inacreditáveis seis passos. Aí o entusiasmo se misturou a uma realização coletiva e explosão de alegria quase incontida. Ela desfrutou e aprovou esses momentos inesquecíveis com seu lindo sorriso infantil. Foi uma cena extraordinária.

Continuei no encalço dela nos dias seguintes, contando cada passo a mais. A progressão foi admirável. Diante da nova descoberta, Bianca às vezes se dava ao luxo de dar passos cuidadosos ou então de engatinhar rapidamente. Foi uma surpresa quando, apenas nove dias depois, conseguiu dar mais de sessenta passos. Daí em diante, nem com recursos eletrônicos seria possível medir o desempenho da pequena jubaibana. 

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FOTOS


01.09.2020 – Beatriz faz a "mágica" de manter a bolinha no ar, enquanto Bianca apenas segura com as mãos. Ninguém matou a charada de como a criatividade da garota conseguiu tal proeza. O desafio fica para as pessoas que tiverem acesso a esse texto. 


04.09.2020 – Bianca preparou o bolo e depois tomou conta dos restos vitais.


19.01.2020 – Vovô Vavu cercado das três jóias preciosas. Beatriz, hoje com 6 anos e dez meses, foi quem primeiro interpretou o Vovô que lhe ensinávamos como Vavu. Assim foi o conceito produzido pelo seu coração infantil e colocado em nossos ouvidos. Já Nicolas, hoje com 3 anos e dois meses, que completou nesse 4 de setembro, interpretou Vovô como Vovô. Bianca, por sua vez, resolveu seguir os passos da irmã, mas incentivada por mim em minha última estada em Serra Talhada, de 08.08 a 01.09.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A JUBAÍBA VESTIDA DE CORES E SÍMBOLOS

 

23 de setembro de 1972, Acampamento Batista, Lagoa Seca, PB

Sete moças e quinze rapazes desfilaram por ocasião da escolha do símbolo [i]


 A JUBAÍBA VESTIDA DE CORES E SÍMBOLOS [ii]

enivaldo ufino

A Jubaíba é uma ideia que deu certo. Uma juventude em ebulição é o que se vê após seu surgimento em 1972. Unir jovens de igrejas de todos os rincões do Estado da Paraíba foi um desafio extraordinário e inovador. A força jovem se alia no desejo de juntar aquilo que estava separado, espalhado, fragmentado, ou seja, unir para atrair e expandir. A preocupação que antes se concentrava apenas na igreja local agora toma nova força e o que era fragmentário se torna unitário. Os jovens precisavam de vozes que os unissem e os tornassem um corpo sólido, de presença marcante, definitiva, assim como os demais batistas desde exatos cinquenta anos atrás. É como se a juventude de repente se transformasse em uma grande igreja. Barreiras são transpostas, com certa resistência da parte de alguns, e ocorre evolução rápida como se fora um fogo a se alastrar para todos os lados. Entretanto, a Jubaíba ainda estava desprovida, mesmo registrada e nomeada. Era preciso ornamentá-la com vestes talares, simbólicas e multicoloridas. E assim foi feito.

O dia 23 de setembro de 1972 é aguardado com ansiedade. A Juventude Batista da Paraíba como organização era só uma criança que nem um ano completara. Já demonstrava vigor e projetos ousados, apesar de tão nova: visitação às mocidades locais ‒ quer no interior quer na capital ‒, evangelização, sociabilidade, acampamentos e até congresso estadual. Pena que não houve nenhum projeto social e político de envergadura e seriedade, impedimento esse que ocorreu antes mesmo do difícil começo. Muita água rolaria até a concretização desses ideais de caráter interno.

Agora era preciso incentivar ao planejamento imediato, um dos quais visava criar a vestimenta adequada para a organização. Essa é apenas uma parte, pois, enquanto isso, a comunicação entre alguns membros da diretoria se intensificava, mesmo sem celular e algoritmo como os de hoje. A eficiente correspondência era manuscrita e via correios. Muitas dessas cartas ainda estão arquivadas. Tudo feito a fim de convocar ao encontro para a escolha do símbolo da nova organização. A juventude é também desafiada a exercer a habilidade artística e participar da disputa, encaminhando contribuições pessoais de desenhos-símbolos para representar a Jubaíba oficialmente. O chamado da liderança é atendido com tempestividade, pois vinte e dois desenhos entram no páreo. A concorrência inesperada é extremamente animadora. O prêmio a quem vencesse seria a publicação do resultado em reportagem na Revista Mocidade Batista, da JUMOC, inclusive com foto da pessoa vitoriosa.  

O sistema de propagação do futuro evento depende do envolvimento de toda a juventude e também da liderança. É preciso, no entanto, cuidar dos detalhes para o dia do encontro que se aproxima. A confecção das vinte e duas camisas, dos cartazes e das faixas ficam sob os cuidados de jubaibanos peritos, que colaboram com a participação pessoal e a necessária arte para atender à grande demanda. Três nomes são relevantes e imprescindíveis a esse e aos grandes desafios gráficos do futuro: Jeová Bezerra de Oliveira (04.10.1932-13.09.2016, vinte e um dias para completar 84 anos), Jailton dos Santos Barbosa e João Félix, hoje pastor e Secretário Geral dos Batistas Paraibanos. A faixa principal continha todos os desenhos concorrentes e uma interrogação bem no centro, que tomava toda sua largura. Tudo foi elaborado com esmero e apurado grau de perfeição, graças ao senso de presteza, responsabilidade e dedicação desses mestres da arte, que lutaram até contra o tempo para corresponder aos desafios da demanda jubaibana. Palavras que representam bem essa preocupação foram escritas mais recentemente pelo próprio Jailton, que esteve envolvido no empenho da confecção do material do encontro. Diz ele: “...participei da produção. Foi uma loucura. Muitas artes pra fazer, revelar e imprimir com pouco tempo para isso! Jeová estressadíssimo, com medo de não dar tempo”. São esses detalhes aparentemente pequenos que também fazem parte do avanço da Jubaíba em direção ao futuro. Parece que cada jovem sentia o dever moral de participar e dar continuidade ao projeto de desenvolvimento da organização.

A mesa julgadora, com a imensa faixa em sua retaguarda, foi presidida por Agostinho Santiago, e contou ainda com presenças como as do pastor José Ednaldo Cavalcanti ‒ orador da ocasião ‒, Eliezer Lourenço ‒ fundador e primeiro presidente ‒, e Ritinha Oliveira, funcionária da Junta, entre outros. Compareceram mais de cem jovens provenientes de algumas igrejas do Estado. Sete moças e quinze rapazes aceitaram o desafio de desfilar diante dos jurados e da seleta assistência, vestindo as camisas com os desenhos concorrentes. O encontro parecia um desfile de moda. Só faltavam os holofotes da fama. A cada apresentação era lido o histórico descrevendo o significado da simbologia do traçado artístico. A festa se prolongou o tempo suficiente para a fala do presidente, a mensagem do orador que foi especialmente convidado para a ocasião, o fechamento da votação e a apresentação do resultado, tudo regado a muitos cânticos, dinamismo e alegria. 

Naquele momento a Jubaíba se vestia de cores e significados simbólicos, representados no desenho vencedor. A primeira letra da sigla continha representação múltipla e ao mesmo tempo estilizada, com uma mistura artística que liga a organização aos primitivos cristãos, aos batistas brasileiros e a cores do nosso país, que em 1972 comemorou Sesquicentenário de Independência. O peixe em sentido vertical formando a letra “j” aponta para o alto e liga a Jubaíba ao cristianismo primitivo. O verde e amarelo das letras contrasta com o preto e vermelho das cores representativas do Estado da Paraíba no mapa que serve de fundo à sigla. Sendo assim, as vestes talares continham quatro cores expressivas e significativas, além da riqueza de uma simbologia singular. Por isso mesmo constava do histórico do desenho vencedor, e com muita propriedade: “Da Paraíba pequenina nasce uma Jubaíba gigantesca” (cfe. RUFINO, J. R., in Revista Mocidade Batista, 2º trimestre 1973, p. 44). É o alvorecer de um novo tempo, com trabalho dinâmico de uma juventude coesa no mesmo propósito, até que as águas do mar da vida tentem soçobrar a frágil embarcação. Mas aí já é assunto para uma próxima publicação

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FOTOS QUE FALAM

Eliezer Lourenço, fundador e primeiro presidente, dirige sua palavra à juventude presente ao encontro de 23 de setembro de 1972.

Pastor José Ednaldo Cavalcanti, da Primeira Igreja Batista de Campina Grande, orador especialmente convidado para a ocasião.



Foto a cores conseguida graças à inteligência artificial dos algoritmos e ao privilégio do domínio 
dessa ciência pelo jubaibano da "jovem guarda" Luiz Carlos Farias, último à direita (agachado).


Esboço original, inclusive do J simbólico e estilizado, resgatado do Álbum Histórico da Jubaíba que me foi repassado pelo então presidente Cláudio, com vistas a futura devolução quando devidamente restaurado. 
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NOTAS 

[i] Pesquisei nos recônditos de minha mente o que pude, pedi socorro à “jovem guarda” da Jubaíba para tentar preencher as lacunas, mas identificamos apenas dezessete e continuamos com cinco espaços em branco, que podem ser preenchidos agora, quem sabe, pelas pessoas que lerem este artigo e que por acaso se lembrem de algum desses nomes. Com a ajuda de Luzia Freire, Zueudon Lucena e Luiz Carlos Farias, consegui chegar ao seguinte resultado: (agachados, da esquerda para a direita) 1] Ronaldo, 2] Zueudon, 3] ?, 4] Zé Vaz, 5] Zacarias (identificado por Luiz Carlos), 6] Bonifácio, 7] Luiz Carlos; (em pé, no mesmo sentido) 8] Misael (identificado por Zueudon), 9] Edilson, 10] Sara, 11] Tiago, 12] Joseneide, 13] Jailton, 14] ?, 15] Lídia, 16] Socorro (identificada por Luzia Freire), 17] Joran, 18] Ediza (identificada por Luiz Carlos), 19] Ademar, 20] ?, 21] ?, 22] ?. Sendo assim, permanecem em aberto apenas cinco, ou seja, os números 3, 14, 20, 21 e 22 (este não aparece na foto, mas a reportagem da Revista Mocidade Batista registra que foram vinte e dois concorrentes).

A foto original do grupo está em preto-e-branco, mas graças à inteligência artificial dos algoritmos e ao privilégio de domínio dessa ciência por um dos integrantes da “jovem guarda da Jubaíba”, justamente Luiz Carlos Farias, temos essa bela foto também a cores. Optei por publicar a original na abertura do artigo, pois a cópia a cores ficou com menor definição.

Meus agradecimentos a quem está colaborando na reconstrução e reconstituição da bela história dos primeiros anos da Juventude Batista da Paraíba.

[ii] Proibida qualquer reprodução ou citação deste artigo sem autorização do autor.