domingo, 6 de setembro de 2020

A JUBAÍBA PEQUENINA

 


Minha neta Bianca veste camisa original do 3º Acampamento da Jubaíba, Juventude Batista da Paraíba, 1975, que já serviu a titio Joran, mamãe, irmãzinha Beatriz e priminho Nicolas, quando nessa mesma idade. Bianca está hoje com um ano e sete meses.   


A JUBAÍBA PEQUENINA

ℛenivaldo ℛufino

O fim da tarde da segunda-feira 13 de janeiro de 2020 foi um momento histórico e agradável, com grande farra na sala do nosso apartamento em Recife. Bianca era a estrela da vez e atraía olhares e atenção. Só faltava o tapete vermelho. Exibia suas proezas com movimentos ágeis e incessantes. Palmas saúdam mais uma nova façanha da pequerrucha assim num abrir e fechar de olhos. Risonha como é, batia palmas, soltava gritos e gargalhadas, mesmo sem ter consciência dos seus atos. Por outro lado, seu intelecto estava sendo enriquecido, despertado e desafiado diante desses novos horizontes. Seu coração se enchia de conceitos que seriam depositados em nossos ouvidos com o passar do tempo. É pena que nossa capacidade intelectual não estivesse à altura, como ainda não está, para entender cada conceito emitido, nessa linguagem de uma alma racional em desenvolvimento.

Faltavam apenas sete dias para 20 de janeiro de 2020, quando a heroína completaria o primeiro ano de vida. As piruetas variavam naquele palco improvisado entre sofás, com a plateia superinteressada e atenta aos mínimos detalhes de suas idas e vindas. A velocidade de seu engatinhar era algo encantador, admirável. Parecia feita de borracha. Essa cena familiar já nos empolgara cerca de seis anos atrás, quando sua irmã Beatriz vivenciara momentos semelhantes, como foco das atenções. Agora, no entanto, a irmãzinha maior já faz parte da assistência a observar os volteios graciosos e se preparar para a surpresa que está eclodindo. Incentivada pela torcida, Bianca se servia do apoio do sofá para dar demonstração de sua capacidade de ficar em pé e circular agarrada às bordas com desenvoltura. Quanto maior a ovação, mais animada ficava e mais velocidade imprimia aos pequenos movimentos com suas perninhas encantadoras.

Nem passava pela sua cabeça que vestira uma bela e antiga camisa colorida da Jubaíba, quando era mais nova, e que fora fotografada deitada no tatame vermelho de Papai Petrusk, lá na distante Serra Talhada, que fica a 406 km de Recife. De igual modo, jamais imaginaria que uma das manias do seu Avô é preservar coisas antigas que têm valor histórico, prática que conserva desde sua adolescência. Sendo assim, ficava mais que evidente que ele jamais jogaria uma camisa dessas no lixo, pois sem esse e outros acessórios de fatos passados não existiria nem presente e nem futuro.         

De repente, tive uma ideia em meio àquela algazarra. Coloquei-a em pé a uma distância de poucos passos e lancei o desafio: “Vamos andar, Bianca?” Ela fez que não me ouviu e, quando a soltei, logo se sentou. Pensei com meus botões: “Vá ver que não entendeu”. Recomecei tudo do começo, e de novo a coloquei em pé a minha frente. Olhando nos olhinhos dela, desafiei: “Vamos andar?” Ela olhou para um lado, olhou para o outro, só com a intenção de medir o grau de observação e paciência do Vovô ansioso e, sem olhar nos meus olhos, fez menção de avançar, mas esbarrou diante do empecilho dos aplausos. Nem um milímetro de passo saiu daquelas perninhas lindas. Quanto maior o incentivo, mais a garota fazia charme. De repente, ainda com olhar ligeiramente voltado para a lateral esquerda, como quem não quer nada ao tempo em que está querendo tudo, conseguiu a proeza de um primeiro e titubeante passo. Bastou isso para os aplausos irromperem como se estivéssemos em jogo de futebol da Copa do Mundo. A pequenina nem se preocupou, nem esmoreceu, mas demonstrou soberania de vontade, e deu mais um passo, depois outro, até que chegou a inacreditáveis seis passos. Aí o entusiasmo se misturou a uma realização coletiva e explosão de alegria quase incontida. Ela desfrutou e aprovou esses momentos inesquecíveis com seu lindo sorriso infantil. Foi uma cena extraordinária.

Continuei no encalço dela nos dias seguintes, contando cada passo a mais. A progressão foi admirável. Diante da nova descoberta, Bianca às vezes se dava ao luxo de dar passos cuidadosos ou então de engatinhar rapidamente. Foi uma surpresa quando, apenas nove dias depois, conseguiu dar mais de sessenta passos. Daí em diante, nem com recursos eletrônicos seria possível medir o desempenho da pequena jubaibana. 

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FOTOS


01.09.2020 – Beatriz faz a "mágica" de manter a bolinha no ar, enquanto Bianca apenas segura com as mãos. Ninguém matou a charada de como a criatividade da garota conseguiu tal proeza. O desafio fica para as pessoas que tiverem acesso a esse texto. 


04.09.2020 – Bianca preparou o bolo e depois tomou conta dos restos vitais.


19.01.2020 – Vovô Vavu cercado das três jóias preciosas. Beatriz, hoje com 6 anos e dez meses, foi quem primeiro interpretou o Vovô que lhe ensinávamos como Vavu. Assim foi o conceito produzido pelo seu coração infantil e colocado em nossos ouvidos. Já Nicolas, hoje com 3 anos e dois meses, que completou nesse 4 de setembro, interpretou Vovô como Vovô. Bianca, por sua vez, resolveu seguir os passos da irmã, mas incentivada por mim em minha última estada em Serra Talhada, de 08.08 a 01.09.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A JUBAÍBA VESTIDA DE CORES E SÍMBOLOS

 

23 de setembro de 1972, Acampamento Batista, Lagoa Seca, PB

Sete moças e quinze rapazes desfilaram por ocasião da escolha do símbolo [i]


 A JUBAÍBA VESTIDA DE CORES E SÍMBOLOS [ii]

ℛenivaldo ℛufino

A Jubaíba é uma ideia que deu certo. Uma juventude em ebulição é o que se vê após seu surgimento em 1972. Unir jovens de igrejas de todos os rincões do Estado da Paraíba foi um desafio extraordinário e inovador. A força jovem se alia no desejo de juntar aquilo que estava separado, espalhado, fragmentado, ou seja, unir para atrair e expandir. A preocupação que antes se concentrava apenas na igreja local agora toma nova força e o que era fragmentário se torna unitário. Os jovens precisavam de vozes que os unissem e os tornassem um corpo sólido, de presença marcante, definitiva, assim como os demais batistas desde exatos cinquenta anos atrás. É como se a juventude de repente se transformasse em uma grande igreja. Barreiras são transpostas, com certa resistência da parte de alguns, e ocorre evolução rápida como se fora um fogo a se alastrar para todos os lados. Entretanto, a Jubaíba ainda estava desprovida, mesmo registrada e nomeada. Era preciso ornamentá-la com vestes talares, simbólicas e multicoloridas. E assim foi feito.

O dia 23 de setembro de 1972 é aguardado com ansiedade. A Juventude Batista da Paraíba como organização era só uma criança que nem um ano completara. Já demonstrava vigor e projetos ousados, apesar de tão nova: visitação às mocidades locais ‒ quer no interior quer na capital ‒, evangelização, sociabilidade, acampamentos e até congresso estadual. Pena que não houve nenhum projeto social e político de envergadura e seriedade, impedimento esse que ocorreu antes mesmo do difícil começo. Muita água rolaria até a concretização desses ideais de caráter interno.

Agora era preciso incentivar ao planejamento imediato, um dos quais visava criar a vestimenta adequada para a organização. Essa é apenas uma parte, pois, enquanto isso, a comunicação entre alguns membros da diretoria se intensificava, mesmo sem celular e algoritmo como os de hoje. A eficiente correspondência era manuscrita e via correios. Muitas dessas cartas ainda estão arquivadas. Tudo feito a fim de convocar ao encontro para a escolha do símbolo da nova organização. A juventude é também desafiada a exercer a habilidade artística e participar da disputa, encaminhando contribuições pessoais de desenhos-símbolos para representar a Jubaíba oficialmente. O chamado da liderança é atendido com tempestividade, pois vinte e dois desenhos entram no páreo. A concorrência inesperada é extremamente animadora. O prêmio a quem vencesse seria a publicação do resultado em reportagem na Revista Mocidade Batista, da JUMOC, inclusive com foto da pessoa vitoriosa.  

O sistema de propagação do futuro evento depende do envolvimento de toda a juventude e também da liderança. É preciso, no entanto, cuidar dos detalhes para o dia do encontro que se aproxima. A confecção das vinte e duas camisas, dos cartazes e das faixas ficam sob os cuidados de jubaibanos peritos, que colaboram com a participação pessoal e a necessária arte para atender à grande demanda. Três nomes são relevantes e imprescindíveis a esse e aos grandes desafios gráficos do futuro: Jeová Bezerra de Oliveira (04.10.1932-13.09.2016, vinte e um dias para completar 84 anos), Jailton dos Santos Barbosa e João Félix, hoje pastor e Secretário Geral dos Batistas Paraibanos. A faixa principal continha todos os desenhos concorrentes e uma interrogação bem no centro, que tomava toda sua largura. Tudo foi elaborado com esmero e apurado grau de perfeição, graças ao senso de presteza, responsabilidade e dedicação desses mestres da arte, que lutaram até contra o tempo para corresponder aos desafios da demanda jubaibana. Palavras que representam bem essa preocupação foram escritas mais recentemente pelo próprio Jailton, que esteve envolvido no empenho da confecção do material do encontro. Diz ele: “...participei da produção. Foi uma loucura. Muitas artes pra fazer, revelar e imprimir com pouco tempo para isso! Jeová estressadíssimo, com medo de não dar tempo”. São esses detalhes aparentemente pequenos que também fazem parte do avanço da Jubaíba em direção ao futuro. Parece que cada jovem sentia o dever moral de participar e dar continuidade ao projeto de desenvolvimento da organização.

A mesa julgadora, com a imensa faixa em sua retaguarda, foi presidida por Agostinho Santiago, e contou ainda com presenças como as do pastor José Ednaldo Cavalcanti ‒ orador da ocasião ‒, Eliezer Lourenço ‒ fundador e primeiro presidente ‒, e Ritinha Oliveira, funcionária da Junta, entre outros. Compareceram mais de cem jovens provenientes de algumas igrejas do Estado. Sete moças e quinze rapazes aceitaram o desafio de desfilar diante dos jurados e da seleta assistência, vestindo as camisas com os desenhos concorrentes. O encontro parecia um desfile de moda. Só faltavam os holofotes da fama. A cada apresentação era lido o histórico descrevendo o significado da simbologia do traçado artístico. A festa se prolongou o tempo suficiente para a fala do presidente, a mensagem do orador que foi especialmente convidado para a ocasião, o fechamento da votação e a apresentação do resultado, tudo regado a muitos cânticos, dinamismo e alegria. 

Naquele momento a Jubaíba se vestia de cores e significados simbólicos, representados no desenho vencedor. A primeira letra da sigla continha representação múltipla e ao mesmo tempo estilizada, com uma mistura artística que liga a organização aos primitivos cristãos, aos batistas brasileiros e a cores do nosso país, que em 1972 comemorou Sesquicentenário de Independência. O peixe em sentido vertical formando a letra “j” aponta para o alto e liga a Jubaíba ao cristianismo primitivo. O verde e amarelo das letras contrasta com o preto e vermelho das cores representativas do Estado da Paraíba no mapa que serve de fundo à sigla. Sendo assim, as vestes talares continham quatro cores expressivas e significativas, além da riqueza de uma simbologia singular. Por isso mesmo constava do histórico do desenho vencedor, e com muita propriedade: “Da Paraíba pequenina nasce uma Jubaíba gigantesca” (cfe. RUFINO, J. R., in Revista Mocidade Batista, 2º trimestre 1973, p. 44). É o alvorecer de um novo tempo, com trabalho dinâmico de uma juventude coesa no mesmo propósito, até que as águas do mar da vida tentem soçobrar a frágil embarcação. Mas aí já é assunto para uma próxima publicação

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FOTOS QUE FALAM

Eliezer Lourenço, fundador e primeiro presidente, dirige sua palavra à juventude presente ao encontro de 23 de setembro de 1972.

Pastor José Ednaldo Cavalcanti, da Primeira Igreja Batista de Campina Grande, orador especialmente convidado para a ocasião.



Foto a cores conseguida graças à inteligência artificial dos algoritmos e ao privilégio do domínio 
dessa ciência pelo jubaibano da "jovem guarda" Luiz Carlos Farias, último à direita (agachado).


Esboço original, inclusive do J simbólico e estilizado, resgatado do Álbum Histórico da Jubaíba que me foi repassado pelo então presidente Cláudio, com vistas a futura devolução quando devidamente restaurado. 
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NOTAS 

[i] Pesquisei nos recônditos de minha mente o que pude, pedi socorro à “jovem guarda” da Jubaíba para tentar preencher as lacunas, mas identificamos apenas dezessete e continuamos com cinco espaços em branco, que podem ser preenchidos agora, quem sabe, pelas pessoas que lerem este artigo e que por acaso se lembrem de algum desses nomes. Com a ajuda de Luzia Freire, Zueudon Lucena e Luiz Carlos Farias, consegui chegar ao seguinte resultado: (agachados, da esquerda para a direita) 1] Ronaldo, 2] Zueudon, 3] ?, 4] Zé Vaz, 5] Zacarias (identificado por Luiz Carlos), 6] Bonifácio, 7] Luiz Carlos; (em pé, no mesmo sentido) 8] Misael (identificado por Zueudon), 9] Edilson, 10] Sara, 11] Tiago, 12] Joseneide, 13] Jailton, 14] ?, 15] Lídia, 16] Socorro (identificada por Luzia Freire), 17] Joran, 18] Ediza (identificada por Luiz Carlos), 19] Ademar, 20] ?, 21] ?, 22] ?. Sendo assim, permanecem em aberto apenas cinco, ou seja, os números 3, 14, 20, 21 e 22 (este não aparece na foto, mas a reportagem da Revista Mocidade Batista registra que foram vinte e dois concorrentes).

A foto original do grupo está em preto-e-branco, mas graças à inteligência artificial dos algoritmos e ao privilégio de domínio dessa ciência por um dos integrantes da “jovem guarda da Jubaíba”, justamente Luiz Carlos Farias, temos essa bela foto também a cores. Optei por publicar a original na abertura do artigo, pois a cópia a cores ficou com menor definição.

Meus agradecimentos a quem está colaborando na reconstrução e reconstituição da bela história dos primeiros anos da Juventude Batista da Paraíba.

[ii] Proibida qualquer reprodução ou citação deste artigo sem autorização do autor.


domingo, 5 de julho de 2020

PASTOR JOSÉ BRITTO BARROS: UM PRÍNCIPE DE DEUS


08 xii 1989: Pastor Britto aparece refletido no sombreado da cortina. Ele foi orador oficial na comemoração do meu Décimo Ano de Pastorado na Primeira Igreja Batista de Beberibe.

ℛenivaldo ℛufino

Este artigo[i] é resultado parcial de uma monografia do mestrado em teologia, na qual analisei o trabalho homilético do pastor José Britto Barros (1930‒2018, 88). Ao concluir a disciplina no Seminário Batista de Recife enviei cópia ao querido pastor, cuja amizade, na época, já se estendia há mais de vinte anos. Ele contratou a gráfica e transformou a monografia em livro para me surpreender. De fato, fiquei emocionado ao receber o livro devidamente oferecido e autografado, junto a outras cópias também assinadas por ele. Sua dedicatória é perpassada de atenção e cuidado pastoral:

Meu caro Reni, creio que lhe disse da minha surpresa quando me revelou que ia escrever sobre meu trabalho de pregador. Depois, quando recebi a cópia e a li, foi muito emocionante para mim, especialmente porque sei e conheço seu espírito de imparcialidade e equilíbrio. Talvez tenha sido esta a maior honra humana que recebi no exercício do glorioso Ministério que o Senhor bondosa e misteriosamente me confiou. Poucos exemplares serão oferecidos e desses poucos um teria de ser o seu e o faço com muita gratidão e muito amor. Deus abençoe ricamente sua preciosa vida em todos os sentidos, ao lado dos seus queridos. Com gratidão e amor, meu grande e afetuoso abraço, Pelo coração, sou o de sempre ‒ Pastor Britto. JPessoa, 20/10/95.
Ao ler o livro que recebeu o mesmo nome da disciplina, ou seja, “Grandes pregadores e sua pregação”[ii], não pude fugir ao hábito que me acompanha desde antes de entrar na academia, qual seja o de ler revisando e revisar lendo[iii]. Notei que o texto necessitaria de uma nova versão cuidadosamente corrigida, por conta de deslizes da gráfica. Dediquei-me à tarefa extenuante de tentar revisar as 139 páginas, mesmo com as ocupações do mestrado e, já em 1997, da graduação em filosofia. E uma vez que minhas responsabilidades aumentavam ainda mais, pois logo surgiria o desafio do mestrado em filosofia, na Universidade Federal de Pernambuco, e do doutorado na USP, o projeto ficou inacabado. Ao retornar de São Paulo assumi o magistério universitário em duas instituições, o que me impediu de dar continuidade ao que planejara.
Quando é agora o antigo sonho volta a mexer comigo de maneira recorrente. Ainda mais quando leio minhas palavras de gratidão na tese, dirigidas a
José Britto Barros, com quem mantenho uma sólida amizade há mais de trinta e cinco anos. Ele nem imagina que a pequena frase que escreveu numa carta de 07.10.1999, antes mesmo do meu mestrado em filosofia, um dia se concretizasse: “[...] parta para o doutorado de Filosofia”. Trata-se de alguém que muito me incentiva em todo esse tempo, e que é um verdadeiro pregador da palavra de Cristo há cinquenta e cinco anos, inclusive para crianças, por todo o território brasileiro, enfrentando perigos e pagando o alto preço de abraçar com tanta convicção e tanto carinho a baixeza da pregação, loucura para os homens, porém sabedoria de Deus, sabedoria da suprema sabedoria, como diz Agostinho de Hipona (354-430, 75).
Outros colegas do mestrado em teologia demonstraram interesse em escolher meu objeto de estudo. É que o pastor Britto se tornou célebre pela qualidade dos sermões, pela excelência homilética e pela ética pastoral. Infelizmente, só convivi um ou dois meses a seu lado. Percebi, todavia, sua preocupação e cuidado como pastor. Eu estava de saída para o seminário quando ele chegou para o segundo pastorado na Primeira Igreja Batista de Campina Grande, em 1975. Mesmo assim, agendou encontros para me orientar em termos da minha escolha pessoal. Aconselhou e escreveu orientações a um seminarista e ainda fez algumas pastorais a mim dirigidas através do boletim da igreja, como a “Sétima Pastoral, A um jovem que vai ao Seminário”, escrita em 2 de março de 1975:
Renivaldo, Hoje tu és uma ovelha do meu rebanho, amanhã tu serás meu colega no exercício deste Ministério Glorioso que por Deus nos foi designado. Nesta hora que partes, empreendendo a jornada do preparo ministerial, quero dizer-te algumas coisas que poderão ajudar-te no desempenho da carreira que o Senhor te entregou. Quando alguém está partindo para o serviço do Mestre, sempre o faz como Abraão: “Sem saber para onde ia” confiando plenamente no Senhor da Seara. Assim deves colocar-te nas mãos de Deus sem escolhas predeterminadas, antes disposto a seguir aonde quer que for. Nessa jornada deves manter a tranquilidade dos que seguem acompanhados por Jesus: “Eis que eu estou convosco todos os dias”; haverá dias de luz e dias de sombras, dias de semeadura e dias de colheita, dias de prazer e dias de desdouro, dias de chuvas de bênçãos e dias de estio aterrador, dias de vibração e dias de desânimo. Mas Ele estará contigo sempre; esta certeza deve acompanhar-te a cada momento. Os que partem nesta caminhada devem estar prontos a entregar-se de corpo e alma no mister sublime do serviço de Deus: “Em nada tenho a minha vida por preciosa, conquanto que complete a minha carreira e cumpra com alegria o ministério que recebi do Senhor para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”. Só esta disposição te dará a tranquilidade plena de estar obedecendo ao Senhor sem restrições. Os acenos do mundo serão muitos, as investidas de Satan serão fortes, mas a alegria de servir a Jesus supera tudo isso e nele encontrarás os recursos à vitória completa. Sê tu mesmo; aprende com outros, mas não te tornes carbono de ninguém; Deus te usará como indivíduo dentro da autenticidade de tua fé, no exercício dos dons com que Ele te agraciou. Quando fores Pastor então já não terás um Pastor terreno. Quero porém que possas considerar-me naquele tempo mais que um colega, um amigo leal. Vai, jovem, e submete tua vida ao Senhor na certeza de que maravilhas irão acontecer para glorificação do Nome Precioso. Com estima, o irmão e amigo, Pastor José Britto Barros.
Mesmo distantes sempre estivemos perto, tanto através de dezenas de cartas quanto nos momentos em que pastor Britto pregava em alguma igreja em Recife. Lembro-me que certa ocasião ele foi convidado pela Primeira Igreja Batista e consegui levar um padre conhecido meu para ouvi-lo. O sermão proferido foi de grande beleza e retórica irrepreensível: “Quando as evidências não bastam”. O padre saiu impressionado com o conteúdo da mensagem.
Ao escolher o nome do pastor Britto, atendendo exigências da disciplina, contatei com ele de imediato. Sua presteza e atenção não me surpreenderam. Ele me confiou todo o material de que eu necessitava, inclusive preciosos esboços de célebres sermões. Agradecido por tamanho privilégio, devolvi tudo ao concluir a matéria. Desde que o escolhi como objeto de estudo, comecei a acompanhá-lo, gravar os sermões e transcrevê-los no computador. Quinze desses sermões constam da monografia. O registro é feito na sequência da fala, do horário, das ilustrações e das reações das pessoas que o escutavam. Tive a alegria, ainda, de contar com sua presença quando fui arguido no trabalho final do mestrado em teologia, pela banca examinadora composta por Paulo Siepierski (orientador), Merval Rosa e Lídice Gramacho.
Rever, ler, debruçar-me e trabalhar nas análises homiléticas desse material, depois de tanto tempo, é extremamente emocionante. Eu me sinto recompensado quer com o cumprimento do projeto interrompido, quer com a saudosa homenagem ao nosso querido pastor Britto e, ainda, com o delicioso “favo de mel” disponível a tantas pessoas que tiverem o privilégio de se aproximarem e degustarem esses sermões memoráveis e a trajetória desse gigante dos púlpitos e príncipe entre os pregadores. Fiel à modéstia que lhe era característica, eu jamais ousaria nomeá-lo como o príncipe dos pregadores, pois fugiria completamente à humildade que era uma de suas virtudes básicas.
Preciso dizer, ainda, que um nome que consta do meu caderno de dívidas com o pastor Brito é o de Antônio Vieira (1608-1697, 89), jesuíta português, pregador, missionário, diplomata e grande figura intelectual luso-brasileira do século dezessete. Chegamos a conversar sobre minha ideia. Caso avançasse ao doutorado em teologia, como era minha intenção desde que cheguei a Recife em 1975, meu objeto de estudo seria uma tentativa um tanto complexa da relação entre os dois pregadores, levando em conta o estilo retórico e as figuras de linguagem de seus sermões. O projeto foi interrompido, pois me bandeei para a área não menos difícil da filosofia. De certa maneira, ao concluir o mestrado em teologia com uma dissertação sobre a influência carismática na Primeira Igreja Batista de João Pessoa, da qual ele era membro e colaborador, antecipei o resgate dessa dívida ao incluir o trabalho com crianças em parte de um capítulo, e uma longa entrevista que ele me concedeu, que constaram dos anexos. O mais impressionante é o fato de, por mera coincidência, eu ter levado a temática da infância para a tese de doutorado, ter sido bem aceito pelo orientador[iv], pela academia, e tudo com excelente resultado.
Uma das recomendações dadas em sala de aula, como exigência básica para um trabalho desses, foi que o aluno tentasse desmistificar o personagem escolhido. Trata-se de uma tarefa delicada e complexa, mesmo diante do imperativo de não fazer da monografia um “dossiê de canonização”. Tal tentativa seria, em termos teológicos, uma heresia docética, ou seja, escrever sobre o candidato dando ênfase, apenas, a seu lado divino e esquecer o lado humano. Ora, tudo que é humano é modesto, é limitado, é propenso a falhas, que são coisas comuns e próprias da humanidade. Mesmo assim, ainda existe muito de docetismo, e não apenas nesse meio.
Até mesmo o título pode levar alguém a pensar justamente uma coisa dessas, ou seja, que se trata de um dossiê de canonização. Como e por que tratar um pregador de “príncipe de Deus”? Talvez, para tentar colocar tudo em seu devido lugar, pode-se pensar apenas em príncipe, pois a Escritura hebraica está cheia dessa nomeação para seres humanos e metafísicos. Os doze cabeças das tribos de Israel são chamados príncipes. Faraó tem também seus príncipes. Em Gênesis xxiii, 6, os canaanitas filhos de Hete, chamaram a Abraão de “príncipe de Deus”. Quando Jacó atravessa o vau de Jaboque, conforme Gênesis xxxii, 28, o estranho com quem lutou até ao romper do dia disse-lhe que como príncipe ele lutara com Deus e com os homens e prevalecera. Finalmente, o arcanjo Miguel é também chamado de príncipe, em Daniel x, 21. Ocorre que essa palavra, como está sendo usada aqui, tem um sentido metafórico e figurativo. O pastor José Britto Barros é um príncipe de Deus por conta de seus atributos humanos, de sua qualificação e experiência como pregador cristão, apesar de suas limitações. Vale a pena frisar que ele mesmo ressaltou e elogiou uma obscura frase da monografia, onde é dito: “Apreciado por muitos e criticado por outros...” O subtítulo do presente artigo não vem da Bíblia, mas da missionária Edith Vaughn, conforme entrevista concedida. Dona Edith nutria grande admiração pelo pastor Britto. Sendo assim, a qualificação como príncipe de Deus não é canonização, mas reconhecimento e preito de gratidão a quem tanto colaborou em atividades humanas, usando qualidades humanas, durante tantos anos.
Após a escolha do nome e o contato mantido por telefone, uma data foi determinada, quando fiz longa entrevista e ele me repassou o rico material que serviu de base à pesquisa, que é apenas parte do acervo de José Britto Barros. Fiquei muito feliz e agradecido pela confiança em passar as minhas mãos todo esse importante material de sua biblioteca particular.  
Assim como faço com os acréscimos e descontos nos meus contos, pretendo fazer com a ampliação deste texto para possível publicação em formato de livro. Após tantos anos do projeto inicial, é preciso alguns acréscimos e alguns descontos no que foi publicado, quer na monografia, quer no livro lançado em pequena quantidade e com necessidade de revisão. Sendo assim, o texto contará com algum material da dissertação do mestrado em teologia, concluído em 1999, desde que trate do ministério do pastor Britto. Outro item que será acrescentado, por conta da minha formação atual, é uma relação entre a noção de Deus na filosofia e na pregação desse príncipe de Deus que foi também um gigante dos púlpitos.
 
05.01.1975: Pastor Britto e família no dia da posse na Primeira Igreja Batista de Campina Grande, para o segundo pastorado.

[i] Proibida qualquer reprodução ou citação deste artigo sem autorização do autor.
[ii] O professor Jilton Moraes, que ministrou a disciplina, não se sentiu confortável quando soube da publicação do livro com o mesmo título da matéria.
[iii] Conferir, a propósito, minha tese de doutorado na citação a seguir ou pelo site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, abaixo: RUFINO, J. R. Relevância filosófica das pequenas coisas: a infância no livro I das Confissões de Agostinho de Hipona. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, 2010. Tese de doutoramento inédita. 280 p., p. 30: Agostinho lembra, em carta escrita a Marcelino, que escreve progredindo e progride escrevendo (Epístola cxliii, 2) e, também, prólogo 3 das Revisões, “Quem ler as minhas pequenas obras (opuscula) na ordem em que foram escritas, talvez descobrirá de que modo eu progredi à medida que as escrevia”. Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-21062011-081831/
[iv] Já no último semestre do doutorado recebi mensagem do orientador, doutor Moacyr Novaes, que me deixou ainda mais consciente de que estava trilhando o caminho certo. Assim escreveu: “Estou lendo sua tese. Um trabalho notável, pela qualidade do texto e pelo desenvolvimento das ideias. Estou feliz por você, e orgulhoso por receber os imerecidos méritos de orientador”.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

A JUBAÍBA NASCEU ENTRE LÁGRIMAS


Eliezer, à esquerda, Renivaldo, à direita, em viagem para visitar mocidades em Gravatá e Patos, juntamente com outros jovens da diretoria em seu segundo ano de funcionamento.


A JUBAÍBA NASCEU ENTRE LÁGRIMAS 
ℛenivaldo ℛufino
O nascimento da Jubaíba foi dramático e doloroso. Graças à determinação, coragem e ousadia de um jovem, de início, o projeto avançou e deu resultado positivo que se estende até hoje. Quase cinquenta anos são passados daqueles dias memoráveis. Sem esse passado o presente se esvazia, pois este só existe como continuidade daquele. Isso é história que continua viva em muitas vidas, mesmo que minimizada em outras. O perigo é que os fatos sejam não apenas esquecidos, mas distorcidos. Resgatar o máximo que se puder de seu conteúdo, é salutar e aprazível. Vale a pena pinçar detalhes curiosos e positivos dessa organização nos seus primórdios. Porém, como tudo que é humano é propenso a falhas, houve também detalhes negativos e até lamentáveis.

No princípio era a juventude que surgiu no primeiro momento quando os batistas deram o ar de sua graça no solo paraibano. Tudo iria mudar quando os jovens sentissem a necessidade de melhor se organizarem e se unirem como instituição formal. O anseio não era estranho, pois já pertenciam a uma instituição igualmente formal, a igreja. Além disso, ao olharem ao redor e para outras paragens, notavam o surgimento dessa nova tendência nacional. Era óbvio que não queriam ficar para trás. A chama queimava em cada coração cheio de sonho e esperança. Então, nada custava tentar fazer de acordo com a razão ditada pelo coração. E assim foi feito, mas não coletivamente, apesar de a chama alcançar o coletivo. Foi feito por um coração solitário e ao mesmo tempo solidário que estava ligado a alguns outros corações.
O coração solitário e solidário sofreu agruras para dar o primeiro chute a gol na barra adversária, que nem era tão adversária assim. O jovem queria chutar, tentava chutar, mas a turma do outro lado lutava para impedir de todas as maneiras. É que esta tinha uma desconfiança inexplicável naquele. A seu ver, a preocupação jovem era com coisas fúteis e sem a mínima importância, como futebol, brincadeiras, política e outras mais do mesmo tipo. Parecia uma guerra entre gerações. Essas escaramuças o deixavam entristecido e propenso, às vezes, a desistir de tudo e ficar quieto no seu canto. Refletia que as atividades na igreja já o ocupavam demasiadamente, pois nem lhe sobrava tempo para afazeres pessoais. Por outro lado, sentia a chama ardendo no coração como que provocando a fazer mais em benefício da juventude como um todo.
Certo dia comparece a uma assembleia convencional estadual e diz do seu desejo. Tem o privilégio de ser eleito para representar os jovens junto à Junta. Participa das reuniões com a eloquência do seu silêncio, pois a palavra não lhe é facultada. O massacre emocional e ainda a urgência do projeto por causa de mais um encontro da convenção que se aproximava foi muita carga para o jovem. Ele não teve como suportar a pressão e chorou. Entretanto, as lágrimas que lavaram seu rosto foram benéficas, pois lavaram também a sua alma. A partir dali, criou novo ânimo e vontade indômita para enfrentar a situação adversa. Quando lhe foi dada oportunidade para sair do silêncio, já transcorria a última reunião do grupo. Ele argumentou destemidamente a favor da necessidade de se começar um trabalho sério, organizado e com possibilidade de atingir as juventudes locais. Eles emudeceram diante de sua retórica e desembaraço, mas não deram um passo sequer a seu favor. Alegaram, apenas, que “não daria mais tempo para levar o assunto à Assembleia Convencional”. Ocorre que o jovem era destemido, afoito e cônscio de suas ações. Sua estratégia foi rápida: “Não tem problema. Eu quero uma oportunidade para falar na assembleia”. Lá não se pôde mais postergar sua fala e nem frear seu ímpeto. Falou pouco, disse muito e, conforme suas próprias palavras, “ali foi criada a Juventude Batista da Paraíba. O nome da Juventude foi decidido ali”.
O choro que durou mais de uma noite deu lugar à alegria da realização do sonho. O brilho nos olhos por conta da chama no espírito saiu contagiando a tudo e a todos. E começou a raiar um novo tempo para a juventude. Houve adesão gradual e decisiva de igrejas locais, juntamente com pastores e juventudes, desde a capital até ao alto sertão. Jubaíba começou a ser presença marcante e obrigatória nas cidades e nas igrejas, a partir da própria juventude que integrava tais agências. O que era apenas sonho há algum tempo, torna-se realidade.    
Corria o ano de 1972. Foi nessa mesma época do nascimento da Jubaíba que a PIB Campina Grande promoveu um acampamento, igualmente solidário, em Pitimbu. Dele participaram diversas igrejas, como se já fora prenúncio dos próximos encontros da Jubaíba. Estiveram presentes: Primeira, Liberdade e Congregacional Central, de Campina Grande, PIB e Evangélica, de João Pessoa, Pilar, Santa Rita, Piancó, Nova Canaã, Instituto Bíblico de Feira de Santana, Bahia, Seminário de Educadoras Cristãs, Recife, na pessoa de Natália Débora, “um dos braços fortes do acampamento, e dez outros jovens não evangélicos”. E no dia 19 de março de 1972, à página 6 d’O Jornal Batista, foi publicada reportagem e fotos do evento sob o título: “Bênçãos em Pitimbu”; o tema do acampamento: “Jovens à medida de Cristo”. Falaram, na ocasião: pastores Tomaz Munguba, da PIB João Pessoa, Jessé Pereira, da IB Nova Canaã e seminarista Betânia Melo, do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil. Essa aparente digressão tem a finalidade de relacionar esses fatos que estão intrinsecamente ligados: o nascimento da Jubaíba e o acampamento da Primeira Igreja de Campina Grande, pois no ano seguinte, 1973, seria realizado o 1º Acampamento da Jubaíba, em Lagoa Seca. Mas aí já é outra história, que será publicada depois. 
A ideia da criação da Juventude Batista da Paraíba e da sigla surgiu bem antes, e agradou em cheio a gregos, troianos e jubaibanos. Jubaíba nasceu para ser grande e brilhar na Paraíba e no Brasil. Nasceu entre lágrimas, mas não em território paraibano. A criança se desenvolveu na Paraíba, mas a ideia ocorreu na Igreja Batista da Capunga, Recife, onde alguns jovens participavam de congresso: “Jubaíba é a sigla que já nasceu famosa, em pleno I Conordeste, Recife, 1969” (RUFINO, J.R., in Revista Mocidade Batista, 2º Trimestre 1973, p. 44, 45). Ali começou tudo, inclusive a sigla idealizada em bom tempo pelo saudoso José Vaz, cunhado de Eliezer Lourenço. Eliezer foi, de fato e de direito, o fundador. Ele também se tornaria, mais tarde e com muita justiça, o primeiro presidente da Jubaíba. 

domingo, 26 de abril de 2020

A VERDADE É RELATIVA OU ABSOLUTA?

Entrada principal da Faculdade de Filosofia da USP

ℛenivaldo ℛufino
Hoje é dia de brinde filosófico. E nada melhor que colocar nessa taça borbulhante um dos grandes conceitos da filosofia, em forma de pergunta: a verdade é relativa ou absoluta? Antes de transcrever o texto propriamente dito, vale a pena conhecer o que está por trás da pergunta aparentemente contraditória que o constitui. Brinde ao meu filho que aniversaria e também a todas e todos que terão acesso a esse texto.

Encontrava-me há dois anos em São Paulo, tentando uma vaga no doutorado em filosofia medieval da USP. Meu primeiro contato na universidade, antes de chegar lá, foi com o professor Dr. José Carlos Estêvão. O professor Estêvão foi atencioso e gentil comigo, pois em apenas onze dias respondeu à carta que lhe mandei pedindo informações sobre o curso, dizendo em uma das linhas: “Normalmente custa um bom tempo afinar um projeto”. De fato, custou muito tempo, estudo, dedicação, esforço redobrado e também adaptação ao sistema da instituição, que é diferenciado de tudo que eu conhecia até então.
Atento às recomendações do orientador, professor Dr. Moacyr Novaes, somente me candidatei a uma vaga quando ele me deu sinal verde. Até então, usei todo o tempo de que dispunha para pesquisas tanto na Biblioteca da USP quanto na Biblioteca dos Agostinianos, em Vila Mariana, além de estudar disciplinas avulsas e latim, língua do filósofo que escolhi como objeto de estudo. Com residência temporária em Guarulhos, onde fui recebido como príncipe, às vezes levava até seis horas para chegar ao destino. Fiquei tão familiarizado com São Paulo, que já a considerava minha segunda pátria. Além disso, contei com a qualidade e gratuidade do ensino e incentivos para alimentação no restaurante da universidade e transporte nas duas cidades. O ensino é tão qualificado e diferenciado, que um dia de aulas equivalia ao que seriam muitos dias ou meses do mais rico conteúdo.
Quando o orientador sugeriu que me inscrevesse para a seleção, fiquei assim como quem sonha. Comecei a pensar o seguinte: como me preparar? O que devo estudar de filosofia e de francês? Ora, uma vez que fui dispensado da entrevista e da prova na língua do filósofo que escolhera para pesquisar, pois já fazia parte do programa da instituição para alunos da casa, só me restava cair em campo e estudar para vencer os dois desafios. Descobri, então, que não precisaria estudar, mas depender do saber que acumulara até o momento. Nenhuma relação de livros foi apresentada, como geralmente ocorre em outras universidades, e nada em termos de francês, a não ser a ajuda quase inútil de um dicionário que poderia conduzir à sala onde o exame seria realizado. Deveria ir com a cara e a coragem, como de fato fui. Ou melhor, com a cara, a coragem e o arsenal que mantinha depositado nos palácios da memória. Palácios que foram enriquecidos ainda mais quando li as palavras bondosas escritas em 18.11.2010, já no último período do curso, que me convenceram de que estava no caminho certo, apesar do atraso intelectual e da idade: “Estou lendo sua tese. Um trabalho notável, pela qualidade do texto e pelo desenvolvimento das ideias. Estou feliz por você, e orgulhoso por receber os imerecidos méritos de orientador”.
Saindo do rápido desvio acima, a prova de francês foi sobre Descartes. O texto a ser traduzido não era dele, era sobre seu pensamento. Assim como fiz na prova de inglês por ocasião do mestrado na UFPE, fiz agora: li o texto completo, para tentar entender, e só depois é que comecei a traduzir. E de que constou a prova de filosofia? Eram cinco questões, para se escolher uma delas e dissertar durante quatro horas, mesmo tempo da prova de línguas. Fui passando questão por questão, até que encontrei a pergunta na segunda delas: a verdade é relativa ou absoluta? Logo pensei diante desse paradoxo: é nessa que vou, pois se trata da teoria da verdade de Agostinho de Hipona (354-430, 75). Ao invés de quatro horas, gastei apenas duas horas escrevendo, sem rascunhar e sem rasurar. O tempo que sobrou, dediquei à cópia que fiz para ficar comigo, o que nem era preciso, pois todos os documentos seriam devolvidos, o que também diferencia a USP de muitas outras instituições de ensino superior. Fui aprovado no final do processo. Tomei conhecimento do resultado um dia antes do meu aniversário de sessenta anos. Como presente comemorativo, fui brindado pela minha sobrinha Erimércia e seu esposo Émerson com camarote especial no Teatro Abril, aonde vimos “O Fantasma da Ópera”. E aí vai, ao pé da letra, o que escrevi naquele inesquecível dia da prova que me alçou à condição de aluno do doutorado de filosofia da Universidade de São Paulo.  
A VERDADE É RELATIVA OU ABSOLUTA?
A busca encetada pela filosofia, através de nomes que constituem uma lista que já se estende por mais de dois mil anos de história, é uma busca que sempre oscila entre extremos, qual o pêndulo de um relógio. Dentre todos esses nomes, um dos destaques é o de Agostinho de Hipona (354-430) que, apesar das influências recebidas do neoplatonismo, pensou com seriedade temas controversos e que oscilavam entre esses extremos, dando aos mesmos uma conotação e uma direção diferenciada da do neoplatonismo, ajudando, assim, a colocar as primeiras pedras na construção da filosofia cristã. E um dos temas por ele desenvolvidos, diz respeito à verdade.
A abordagem sobre a verdade passa necessariamente por outros prismas, uma vez que é preciso definir, logo de saída, de que tipo de verdade se trata. Em outras palavras, é imprescindível saber se se fala de uma verdade ligada ao mundo sensível ou ao mundo inteligível. De que tipo de verdade trata Agostinho? Por ser um tema tão controvertido e tão polêmico, estaria fadado a uma aporia? Finalmente, a verdade é relativa ou absoluta, para ele?
Ao principiar a busca, deve-se contemplar, primeiro, o mundo sensível. Este é um dado imediato e que está bem diante e ao redor de nós. Ora, o mundo sensível tem uma segurança relativa para garantir um estatuto permanente à verdade, por conta de sua contingência. Bem no sentido agostiniano, o mundo é e, ao mesmo tempo, não é. Se a busca pela verdade é a busca pelo ser e, indo um pouco além, a busca pela felicidade, como encontrar tudo isso num tipo de realidade que está em constante mudança, numa espécie de perpétuo fluxo heraclitiano? As verdades encontradas no mundo sensível, portanto, nem de perto podem ser confundidas com uma possível verdade de estatuto permanente. A relatividade do mundo confere uma relatividade também aos seres que dele fazem parte.
De todos os seres que fazem parte do mundo sensível, o homem é contemplado como o mais excelente ‒ apesar de sua inegável contingência ‒, por ser exatamente ele, o homem, o portador da racionalidade. E é pela racionalidade que ele pode descobrir essas verdades que podem servir de marcos na estrada que leva a uma verdade maior e de caráter universal. Onde procurá-la, então? Estaria ela vinculada ao mundo sensível? Aporeticamente pode-se responder sim e não. Começando pela negativa, seria impossível encontrar algum vestígio desse tipo de verdade num mundo que continuamente está deixando de ser. Por outro lado, pode-se pensar positivamente, pois é neste mundo sensível, transitório, que se instaura o homem com sua racionalidade. Mas a verdade seria o homem? Absolutamente, não, mas ela poderia ser procurada pelo homem no homem.
A fórmula seguida, aqui, é bastante conhecida: saindo da exterioridade, o homem deve encetar a busca em si mesmo, isto é, na sua interioridade. E esse movimento revolucionário é tão antigo quanto a história da filosofia. Entretanto, com conotações bem distintas das que aqui se tratam. Esse movimento em direção à interioridade é temporal, porém não espacial. E é um movimento na direção acertada, pois a verdade se encontra no interior do homem (ou no homem interior). Ao contemplar-se a si mesmo como lugar privilegiado da verdade, o homem se depara com um paradoxo. Nesse voltar-se para si mesmo ele não encontra, de imediato, a tão almejada verdade, mas se encontra a si mesmo. Perdido, antes, na exterioridade e multiplicidade do mundo sensível e contingente, ele agora se achega a uma possível unidade, quando nesse movimento não espacial se dirige ao seu próprio interior, ao seu íntimo.
Ao retornar a si mesmo e ao ponto mais extremo de sua interioridade, em busca da verdade, o homem é colhido por uma surpresa ainda maior, pois vai descobrir uma profundidade que vai além do seu íntimo. É o íntimo do íntimo, ao qual ele não tem acesso, pois vai a um ponto inacessível à sua contingência. É neste exato ponto que ele encontra a verdade absoluta que buscava. Esta verdade está nele, porém não é ele. Esta verdade resiste à contingência, pois se instaura além do mundo sensível. Esta verdade é Deus, o Deus cristão, divindade que se humaniza na encarnação da figura histórica do Jesus de Nazaré. E isto o neoplatonismo jamais admitiria.
O próximo e último passo é ainda mais paradoxal: Agostinho agora sai de sua própria interioridade, pois a verdade que ele busca também está no seu exterior. É o Deus que está no íntimo do íntimo, mas que é também alteridade, pois como habitaria o não contingente, o ser por excelência, naquilo que lhe é contrário, ou seja, no contingente e no não ser? E nessa saída dele mesmo, ele encontra Deus, a verdade absoluta, na revelação cristã.

sábado, 11 de abril de 2020

ENCANTO E MISTÉRIO DAS GENEALOGIAS


Joran e Rodolfo no umbuzeiro cartão postal e relicário de inscrições na Ringideira, Monteiro, PB
ℛenivaldo ℛufino

A foto de Joran e Rodolfo trepados no velho umbuzeiro da Ringideira é o exemplo mais eloquente do encanto e mistério das genealogias. Geralmente, árvores são utilizadas como ícones de demonstração do registro das gerações. Outras vezes, essas demonstrações são feitas por diagramas ou figuras similares. Árvore genealógica é uma expressão conhecida que, segundo o dicionário Houaiss, é “a representação gráfica dos antepassados de um indivíduo, que pode incluir também, em cada geração, os parentes colaterais”. O umbuzeiro, por sua vez, é uma árvore alta, nativa das regiões tropicais da América do Sul, com “copa frondosa, folhas pequenas, comestíveis e frutos com polpa doce e aromática, de onde se prepara a umbuzada”. E lá no topo da planta estão os dois corajosos e atrevidos que pertencem a ramificações específicas de árvores genealógicas. Estão numa árvore e pertencem a uma árvore. Será que eles estavam pensando nesses pormenores enquanto se divertiam e pintavam o sete nesse verdadeiro paraíso terrestre? É claro que não, mas é o que menos interessa nesse momento quando nos voltamos para os encantos que estão por trás desse tipo de relato.  
Algumas pessoas acham enfadonho falar ou ler sobre genealogias, mesmo que estejam nelas inseridas. Até mesmo gerações listadas na Bíblia parece ser uma cantilena fastidiosa [1] para muitas delas. Para outras, como é o meu caso, é desafiador, divertido, misterioso e encantador. Nesses relatos das gerações estão ocultas histórias impressionantes. São esses relatos que formam a própria história da humanidade. Livros como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, a Escritura hebraica, conhecida como Tanach, e a Escritura cristã, para citar somente esses clássicos, são textos que fizeram e continuam fazendo a imaginação da cultura ocidental, justamente por causa das ricas trajetórias ali contidas.    
Sempre tive apreciação pelos relatos bíblicos que descrevem os ancestrais dos israelitas. Quando lia tais passagens, jamais pulava uma frase que tratasse do assunto. Pelo contrário, lia devagar e com avidez como se estivesse me alimentando da mais saborosa comida. A primeira referência mais extensa se encontra nos trinta e dois versículos do capítulo cinco do livro de Gênesis [2], que você pode acompanhar na nota de final de texto. Vale a pena ler com o vagar necessário que se exige das coisas que alimentam o espírito. De fato, toda boa leitura é uma alimentação para a alma, ou seja, é uma verdadeira terapia.
Genealogia é isso aí e muito mais. Deve-se notar que na relação da nota não constam os nomes de Caim e Abel e sua descendência, que fazem parte do capítulo anterior. Trata-se, portanto, da origem de um indivíduo e também de seus ancestrais e descendentes. Encanto e mistério estão presentes nesses relatos, como ocorre nessa narrativa de Gênesis pertencente à porção mítica da Escritura hebraica. Essa geração de Adão parece longa e, para algumas pessoas, até cansativa. Entretanto, ela é muito sucinta, pois cita apenas alguns nomes masculinos, uma vez que o elemento feminino e outros componentes masculinos estão incluídos no registro geral de “filhos e filhas”. Outro aspecto que chama a atenção é a longevidade dos personagens. Existem diversas teorias sobre o tema, porém não é esse o nosso propósito aqui. Por outro lado, é desafiador, misterioso e encantador debruçar-se sobre os detalhes de uma lista dessas. Cada nome citado encerra em si uma história de vida vivida com sua dinâmica própria e cheia de impressionantes matizes. E, mais ainda, quando pensamos no acréscimo de tantas pessoas descendentes dessa mesma linhagem, entramos numa verdadeira roda viva que nos causa forte impressão. Ora, se a vida ela mesma já se constitui no maior de todos os mistérios, o que dizer com a junção de tantas vidas?
O maior impasse a quem se propõe a fazer um registro desses, é chegar aos ancestrais, sendo que existem dificuldades até na listagem das gerações mais recentes. E são poucas as pessoas interessadas em contribuir com a temática. Afirmo isso porque já lido com essa tarefa há mais de vinte anos. Inclusive, quando estive ocupadíssimo em São Paulo durante mil, novecentos e cinquenta e cinco dias corridos, na elaboração da minha tese de doutoramento, andava sempre anotando esses dados junto aos familiares, quer estivessem próximos, quer distantes. Até mesmo em uma viagem que fiz a Goiânia em 2005, para rever primos e conhecer outros e outras que ainda não conhecia, estive fazendo esses registros e resgates.
Para que se tenha uma pálida ideia de quão trabalhoso é cair na aventura de listar gerações, somente em 2008, em encontro que tive em São Paulo com meu primo legítimo Marçal, é que consegui chegar à bisavó e ao bisavô por parte da minha avó paterna, e mesmo assim com dados incompletos, ou seja, somente os primeiros nomes. O pouco que registrei foi graças a esse primo, que se interessou tanto pelo assunto quanto eu. Dele eu consegui não apenas os primeiros nomes do nosso bisavô e bisavó, mas também o ano da morte do nosso avô Rufino José dos Santos. Ele falou o seguinte a certa altura da conversa: ‒ “Minha mãe dizia que eu nasci no ano em que meu avô morreu”. Sem condições de avançar nessas informações ‒ a não ser quando fizer buscas em igrejas e cartórios, pois já não existem testemunhas orais disponíveis ‒, resolvi romancear o encontro do meu bisavô com minha bisavó, a partir da sucinta informação que me foi repassada. E esse será o tema de uma das próximas publicações: “Antão e Guilhermina ‒ o amor que jamais acaba”. Sendo assim, falar ou escrever sobre pessoas, até mesmo na sequência mítica aqui transcrita, é abordar questões atinentes à genealogia. Cada ponto de um relato desses, por mais insignificante que possa parecer, é fonte riquíssima de informações sobre o ser humano. São trajetórias que carregam verdadeiro tesouro em termos de certos aspectos da vida. E tudo que se refere à vida é extremamente importante e prazeroso.
Voltando à foto acima mais uma vez, na qual aparecem meu filho Joran e meu sobrinho Rodolfo, notamos que apesar de congelada num determinado momento do tempo, ela tem uma dinâmica toda especial, pois continua aberta a questionamentos. Por que estão ali em cima? O que esses dois garotos marotos estão aprontando? Que ocorreu antes de chegarem a essas poderosas e centenárias galhas? De onde vêm e para onde vão? Como vemos, existe toda uma gama de possibilidades por trás dessa cena que faz parte da geração dos dois. Eles são continuidade de seus ancestrais que aí viveram, não em cima desse umbuzeiro, mas na localidade onde a frondosa árvore se situa, justamente em frente à casa onde nasceu seu tio mais velho em 1936, após um parto difícil e doloroso pelo qual passou Maria Laura, avó dos dois.
Eles e nós íamos ao encontro desse tio, agora com residência fixa em Caroalina, pertencente ao município de Sertânia, em Pernambuco, e a alguns quilômetros de distância. Inusitado é que, ao chegarmos, o tio estava trabalhando a alguns quilômetros do povoado, e nós já nos dirigimos para lá a fim de pregar uma peça nele. Joran, gaiato como é, logo criou um novo nome para Rodolfo: a partir dali ele seria Adolpho ‒ assim com ph mesmo e com muita cavernosidade na pronúncia ‒, nosso amigo que nos acompanhava na viagem e que se propôs a dirigir meu carro desde Recife, enquanto o primo vinha “com as viria banida” pilotando sua imensa moto. Ao chegarmos à fazenda, nosso amigo foi logo apresentado com seu nome cavernoso e não houve qualquer reação contrária ao que se planejara. Parece que conseguimos enganar o ilustre personagem. Quase de imediato ele já estava sobre uma potente montaria ‒ como esse rapaz gosta de montar, minha gente! ‒, agora de carne e osso: um belo cavalo devidamente selado. Enquanto a nossa atenção estava voltada para as peripécias do novo cavaleiro, o primo começou a fustigar a fera com vara curta: ‒ “Mas tio Duza, você não reconheceu Rodolfo, filho de tio Reginaldo?” Num passe de mágica, Adolpho se transmudou em Rodolfo. Foi muita anarquia liderada por Joran, rindo com a peça que pregara no tio tão crédulo. Dono do pedaço como sempre foi, não se deu por vencido e retrucou: ‒ “Ele tem os mesmos traços do pai! Parece muito com a família! Eu bem que desconfiei!”
Umbuzeiro da Ringideira engalanado para o Carnaval de 2020.

NOTAS


[1] O termo cantilena fastidiosa, ou odiosa, é utilizado por Agostinho de Hipona (354-430, 75 [e aqui vai genealogia]), quando se refere aos estudos em sua época de infância, conforme Confissões I, xiii, 22: “Com efeito, o um e um, dois; dois e dois, quatro, era para mim uma cantilena fastidiosa (odiosa, detestável), e agradabilíssimo o espetáculo da futilidade: o cavalo de madeira cheio de homens armados, o incêndio de Tróia e a sombra de Creusa” (Virgílio, Eneida, II, 772 [iam uero unum et unum duo duo et duo quattuor odiosa cantio mihi erat et dulcissimum spectaculum uanitatis equus ligneus plenus armatis et troiae incendium atque ipsius umbra creusae]).
[2] “1Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; 2homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. 3Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete. 4Depois que gerou a Sete, viveu Adão oitocentos anos; e teve filhos e filhas. 5Os dias todos da vida de Adão foram novecentos e trinta anos; e morreu. 6Sete viveu cento e cinco anos, e gerou a Enos. 7Depois que gerou a Enos, viveu Sete oitocentos e sete anos; e teve filhos e filhas. 8Todos os dias de Sete foram novecentos e doze anos; e morreu. 9Enos viveu noventa anos, e gerou a Cainã. 10Depois que gerou a Cainã, viveu Enos oitocentos e quinze anos; e teve filhos e filhas. 11Todos os dias de Enos foram novecentos e cinco anos; e morreu. 12Cainã viveu setenta anos, e gerou a Maalaleel. 13Depois que gerou a Maalaleel, viveu Cainã oitocentos e quarenta anos; e teve filhos e filhas. 14Todos os dias de Cainã foram novecentos e dez anos; e morreu. 15Maalaleel viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Jerede. 16Depois que gerou a Jerede, viveu Maalaleel oitocentos e trinta anos; e teve filhos e filhas. 17Todos os dias de Maalaleel foram oitocentos e noventa e cinco anos; e morreu. 18Jerede viveu cento e sessenta e dois anos, e gerou a Enoque. 19Depois que gerou a Enoque, viveu Jerede oitocentos anos; e teve filhos e filhas. 20Todos os dias de Jerede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu. 21Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Metusalém. 22Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. 23Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. 24Andou Enoque com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si. 25Metusalém viveu cento e oitenta e sete anos, e gerou a Lameque. 26Depois que gerou a Lameque, viveu Metusalém setecentos e oitenta e dois anos, e teve filhos e filhas. 27Todos os dias de Metusalém foram novecentos e sessenta e nove anos; e morreu. 28Lameque viveu cento e oitenta e dois anos, e gerou um filho; 29pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos, e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o Senhor amaldiçoou. 30Depois que gerou a Noé, viveu Lameque quinhentos e noventa e cinco anos; e teve filhos e filhas. 31Todos os dias de Lameque foram setecentos e setenta e sete anos; e morreu. 32Era Noé da idade de quinhentos anos, e gerou a Sem, Cam e Jafé.